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10/11/2009

La Genèse

Robert Crumb (adaptação e desenho)
Denoel Graphic (França, Outubro de 2009)
218 x 314 mm, 220 p., p&b, cartonado


Resumo

Um dos livros aos quadradinhos mais aguardados neste final de ano, esta é a adaptação feita para banda desenhada por Robert Crumb, o pai da BD underground norte-ameriana, do Génesis, o primeiro livro da Bíblia – porque, para quem o desconhece, a Bíblia é constituída por um conjunto de 66 livros, escritos por pessoas diferentes ao longo de cerca de 1400 anos e o termo Bíblia significa exactamente isso: “conjunto de livrinhos”.

Desenvolvimento
E o que apetece dizer é que a montanha pariu um rato. Pelo menos para aqueles que esperavam (ob)ter uma polémica considerável com a visão bíblica de Crumb. Para esses, é triste conforto a meia dúzia de vinhetas (bem pudicas por sinal) em que Crumb (mais sugere do que) mostra cenas de nudez ou actos sexuais. Que, claro está, poderão chocar os que (des)conhecem o texto original, considerando-as liberdades profanas e demoníacas de Crumb. Puro erro. E (santa!) ignorância.
Não que alguma vez ou em algum lugar ele tenha prometido/ameaçado fazer uma versão provocatória, mas a verdade é que alguns editores, mesmo com a obra já impressa – e lida, depreende-se… - não deixaram de o anunciar à imprensa, para promoverem o livro e incrementarem as vendas, intuindo (desejando?) ver fonte de polémica nesta ou naquela afirmação do autor. Que nunca a procurou com esta obra concreta e ao qual apenas se podem apontar umas (poucas) liberdades criativas - como a serpente com corpo humano – que se esbatem na sombra de visões tradicionais – como o retrato de Deus.
Excluída, portanto, a hipótese de criação de polémica, o que sobra na visão bíblica de Crumb? Por um lado a utilização do texto original integral, encontrado após estudo e comparação de diversas versões. Por isso, pesado, aqui e ali de difícil leitura ou (quase) até incompreensível, muitas vezes aborrecido, repetitivo. Excessivo para uma banda desenhada, excessivo em muitas das páginas desta banda desenhada. E, claro, disto se ressente a obra, que em algumas sequências, deixa o estatuto de BD – sequência gráfica narrativa – para ser apenas ilustração.
O que nos conduz ao último aspecto a considerar: o desenho. Que está ao nível do muito (de bom) que Crumb fez ao longo de 50 anos de quadradinhos: expressivo, detalhado, não especialmente dinâmico (a obra também não o pedia), de vinhetas cheias e pormenorizadas, num preto e branco cheio, valorizado pela utilização de tracejados e pontilhados para dotar as vinhetas de profundidade e as personagens de volume. Mais realista e clássico até do que o que conhecemos do autor.
Em resumo, se com Crumb a Bíblia, melhor dizendo, o Génesis, se pode tornar mais legível para alguns, desenganem-se os que vão procurar neste livro o espírito libertário, a liberdade de pensamento, a provocação, o tom anárquico, a crítica social e de costumes das grandes obras do autor, que fizeram dele o pai da BD underground norte-americana.
Porque esta é, reforço a ideia, não uma adaptação mas a ilustração, em forma de BD, do texto. Sem aproximações de fé ou distanciamento crítico de quem não a tem, sem interpretações, julgamentos ou vontade de aligeirar ou explicar. Sem o justificar, sem blasfemar dele. Para o bem e para o mal.

A reter
- O traço de um Crumb em plena forma.

Menos conseguido
- A forma abusiva como, apesar do tom inócuo da adaptação, alguns editores usaram o nome do autor para promoverem um produto que não corresponde à sua fama de provocador.
- Algumas reacções de contestação ao livro que mesmo assim surgiram, demonstrando desconhecimento desta BD de Crumb e/ou da própria Bíblia, por parte de alguns que a afirmam como seu livro sagrado.

Curiosidade

- As várias capas usadas para o livro, nos diferentes países em que foi publicado, fogem o mais possível à polémica. Se na francesa (no alto), Eva ainda aparece nua (mas quase assexuada), na americana ela e Adão já estão vestidos e mais inocente que a capa brasileira era impossível.

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