Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

29/06/2009

11-M La Novela Gráfica

11-M La Novela Gráfica
Pepe Gálvez e Antoni Guiral (argumento)
Joan Mundet (desenho)
Francis Cuadrat, Norma Cuadrat e Marina Ariza (cor)
Panini Comics (Espanha, Maio de 2009)
190 x 282 mm, 112 p., cor, capa cartonada

Resumo
A 11 de Março de 2004, Madrid sofreu vários atentados terroristas em diversas estações ferroviárias, perpetados por islamistas radicais.
Como consequência das explosões faleceram cento e noventa e uma pessoas: trinta e quatro na estação de Atocha, sessenta e três na rua Téllez, sessenta e cinco na estação de El Pozo, catorze na estação de Santa Eugénia e quinze em diversos hospitais de Madrid. Para além disso, ficaram feridas 1857 pessoas.
Este livro faz o relato do que aconteceu naquele dia, tendo como base o laudo do tribunal que viria a condenar 21 pessoas envolvidas nos atentados.

Desenvolvimento
Antes de tudo, esta é uma obra documental. Algo que a banda desenhada (também) tem mostrado saber fazer. Uma obra que narra, cronologicamente, a preparação do atentado, a sua realização e alguns dos acontecimentos que se seguiram até à condenação (de alguns?) dos terroristas nele implicados. Uma vez que segue de perto o laudo final do tribunal, o relato pode soar algo impessoal e sem emoções (embora isto não seja de todo verdade…), o que é propositado, ou não fosse o horror dos factos suficiente para abalar o leitor.
Por isso os autores tentam ao máximo ser simples relatores, não tomando posição nem fazendo da obra um líbelo acusatório, abordando apenas aquilo que ficou provado em tribunal. Não o fazem em relação aos atentados em si, nem à forma como o governo espanhol tentou utilizá-los em seu favor ao atribuí-los à ETA, o que acabou por ter consequências funestas, ou seja a perda das eleições que decorreram poucos dias depois.
A utilização de três personagens fictícias - um jornalista, um familiar de uma das vítimas e um polícia - tem três objectivos, cumpridos: por um lado, aligeirar a carga documental do relato, conferindo à narrativa o ritmo e o dinamismo necessários para lhe dar legibilidade; por outro, atenuar o efeito de alguns saltos cronológicos (necessários), fazendo a ponte entre eles; finalmente, a par do relato "burocrata" do tribunal, mostar o papel que tiveram as "pessoas reais" durante o fatídico dia e os meses seguintes e como os atentados afectaram as suas vítimas indirectas, conferindo assim algum dramatismo ao relato. Os três, com especial destaque para Paco, o jornalista, surgem, no entanto, como bem reais, de carácter bem definido e não estereotipados.
O traço de Mondet, realista, mostra a sua faceta de ilustrador, algo preso de movimentos, mas no geral revela-se competente e equilibrado.

A reter
- A legibilidade da obra, apesar do seu peso documental.
- Alguns apontamentos gráficos bem conseguidos, como a (eventual) troca de olhares entre os terroristas e as suas futuras vítimas, minutos antes dos explosivos cumprirem a sua função assassina (página 27), a alegoria ao quadro "Guernica", de Picasso (pp. 36-37) ou o lápis de bico partido (p. 43).

Menos conseguido
- Alguns desiquílibrios ao nível do desenho, nomeadamente quando o traço fica demasiado preso ao seu modelo fotográfico.

Curiosidades



- O livro tem prólogo de Pilar Manjón, mãe de uma das vítimas mortais do atentado e presidente da Associação 11-M Afectados por el Terrorismo.
- Os dois argumentistas são, também, especialistas em banda desenhada.

28/06/2009

Là où vont nos pères

Là où vont nos pères
Shaun Tan (argumento e desenho)
Dargaud (França, Março de 2007)
240 x 320 mm, 128 páginas, cor, capa cartonada


Resumo
Um homem faz a mala, despede-se da mulher e da filha e parte. Embarca num navio e cruza o oceano, rumo a um país desconhecido, à terra prometida. É (mais) um emigrante.

Desenvolvimento
Esta é (mais) uma história de emigração.
Que começa com um homem que se despede - de forma pungente. E que depois parte. Só, com uma mala de mão. Com poucos pertences e uma fotografia. Talvez o mais valioso de todos. Uma fotografia de uma família, da sua família: ele, a mulher e uma filha pequena.
O homem parte para longe. Para o outro lado de um vasto oceano. Para um admirável - mas assustador - mundo novo. De linguagem incompreensível. De escrita indecifrável. Com novos animais, novas plantas, novos alimentos. Lá chegado, só - ainda mais só -, tem que arranjar alojamento, um emprego… uma nova vida. Uma nova forma de viver.
Esta é a história de muitos (de quase todos?) os emigrantes: abandonar os entes queridos para procurar melhores condições de vida (os seus sonhos?). E é também a história deste notável "Là où vont nos pères".
Notável porque é um enorme romance mudo, feito de imagens aparentemente soltas, trabalhadas a lápis, em incómodos tons de cinzento e sépia, por Shaun Tan.
Notável pela forma como explode em imagens de página inteira ou as monta até 30 por página, como forma de apressar ou retardar o ritmo da narrativa, de revelar mudanças de espírito, de nos surpreender numa paisagem, de nos reter num pormenor, de nos emocionar numa descoberta ou com um revés.
Notável na forma como retrata o desconhecido, como transmite emoções e sentimentos, como ilustra o passar do tempo.
Notável, ainda, porque diz, porque faz acreditar que a integração dos emigrantes é possível, que os sonhos se concretizam…

A reter
- O traço realista, quase fotográfico, de Shaun Tan.
- O ritmo que a obra tem, graças à forma como o autor montou as imagens.
- A cuidada edição da Dargaud.

Curiosidade
- "Là où vont nos pères" foi considerado o Melhor Álbum editado em França em 2007 pelo júri do Festival de BD de Angoulême.

(Versão revista e actualizada do texto publicado no Jornal de Notícias de 8 de Abril de 2007)

26/06/2009

Armazém Central



1. Marie
2. Serge
Régis Loisel e Jean-Louis Tripp (argumento e desenho)
Edições ASA (Portugal, Janeiro e Outubro de 2007)
227 x 302 mm, 80 e 72 p., cor, capa cartonada


Resumo

Histórias do quotidiano rural do Quebeque dos anos 20, contadas a partir do (grande) armazém central da pequena povoação de Notre-Dame-des-Lacs.

Desenvolvimento
Ambientada no Canadá, num Canadá profundo, "Armazém Central" é uma crónica do quotidiano rural de uma pequena aldeia, entre as duas Guerras Mundiais, que tem um estranho começo: a morte de Félix, dono da única loja - o tal armazém central - do lugar, que vai ficar como testemunha (quase) silenciosa, do que se vai passando em Notre-Dame-des-Lacs.
Esta crónica quotidiana onde (aparentemente) nada acontece, mas cheia de vida, de vidas, vai-se fazendo de pequenos nadas desligados, que no seu todo retratam a vivência naquele lugar, naquela época, e que nós, leitores, vamos apanhando aqui e ali enquanto acompanhamos as deambulações dos diversos habitantes pela povoação. Isto porque, se Marie, a viúva de Félix, a eterna estrangeira, tímida mas prestável, de uma enorme coragem, surge com algum destaque - é ela que se emancipa e se torna gerente do armazém, que conduz o seu camião, que acolhe e sonha acordada com Serge - a verdade é que é a comunidade no seu todo que protagoniza a obra.
Comunidade inquieta pela morte do único comerciante - indispensável mas pouco estimado -, pela chegada de um novo pároco (um pouco) progressista (demais para o gosto local), pelo pateta do sítio, pelas beatas coscuvilheiras, pelo cego que viu o mundo, pelo herético e utópico Noel e por uns quantos mais, caracterizados e retratados pelos pequenos gestos habituais, que o isolamento transfigura: a troca de receitas, os mexericos e desconfianças, a cooperação para o bem comum, as traquinices das crianças, os ritos iniciáticos que marcam o crescimento - os primeiros amores, o acompanhamento dos homens no trabalho - a matança do porco, as festas tradicionais comunitárias…
E, no segundo tomo, pela chegada de um estranho - Serge - culto e viajado, para mais cozinheiro, que acrescenta à narrativa uma aura poética, fruto de sonhos vividos, de utopias concretizadas, e que leva pela primeira vez o brilho aos olhos de Marie…
Uma comunidade retratada com ternura mas autenticidade, de forma viva e intensa, pelo traço semi-realista de Loisel e Tripp, generoso nos volumes, expressivo e dinâmico, rico de pormenores, servido pelas cores quentes e afáveis de François Lapierre, traço que se revela no seu todo especialmente nas sequências mudas - mas extremamente eloquentes - onde o mais ínfimo pormenor ganha vida, mostrando-nos o passar do tempo - através da forma como as estações transfiguram a Natureza - a morte de um recém-nascido, a solidão de Marie, as desconfianças, as músicas e danças, de uma forma notável.

A reter
- A riqueza e profundidade dos diferentes retratos que a obra traça.
- A consistência das cenas mudas.

Menos conseguido
- Dois anos depois, já com o quarto título a caminho em França, pela Casterman, continuamos à espera que a ASA edite o terceiro tomo (“Les hommes”).

Curiosidade
- Autores completos, normalmente responsáveis por argumento, planificação, desenho a lápis, desenho a tinta e aplicação da cor nas suas obras, embora na BD franco-belga a diversificação de funções seja cada vez mais frequente, Régis Loisel - conhecido em Portugal por "Em Busca do Pássaro do Tempo" (Meribérica/Líber) e por uma versão extremamente pessoal do Peter Pan, de Barrie, (na Bertrand e na Booktree) - e Jean-Louis Tripp, até há pouco inédito entre nós, franceses, então a viver em Montreal, no Canadá, partilhando um atelier, descobriram gostos complementares: enquanto Loisel vibra com a planificação e o traço a lápis, Tripp prefere a passagem a tinta, nascendo, assim, uma improvável colaboração, consubstanciada nesta série.

(Versão revista e actualizada do texto publicado no Jornal de Notícias de 23 de Setembro de 2007)

23/06/2009

Les Sentinelles

Les Sentinelles
Chapitre premier: Juillet-Août 1914 – Les moissons d’acier
Chapitre deuxiéme: Septembre 1914 – La Marne
Xavier Dorison (argumento)
Enrique Breccia (desenho)
Delcourt (França, Maio de 2009)
265 x 312 mm, 64 p. (cada), cor, capa cartonada


Resumo

O assassínio do arquiduque François Ferdinand, que despoleta o início daquela que será a Primeira Guerra Mundial, é um óptimo pretexto para ser reactivado o projecto “Sentinelas”, cuja origem remonta a 1911 e ao conflito franco-marroquino, onde os novos super-soldados franceses, homens complementados com uma espécie de armadura e membros metálicos, fizeram a sua estreia e descobriram a sua principal limitação: a curta duração das suas baterias. Três anos mais tarde, a solução parece estar na pilha de Rádio que Gabriel Féraud acaba de inventar. Único senão: o seu criador recusa utilizá-la para fins bélicos…

Desenvolvimento
Dorison di-lo na entrevista incluída no tomo 1: esta é “A história de um homem vítima de um destino trágico”, “uma história que começa pelo sonho de que alguns homens podem mudar o destino de muitos milhões”.
Ambientada na Primeira Guerra Mundial, esse conflito na fronteira entre os combates corpo-a-corpo e a utilização da tecnologia (ainda algo incipiente) bélica, “Les Sentinelles” conta como um inventor pacifista, se vê obrigado a tornar-se a mais terrível arma do exército francês, na sequência de uma incorporação (forçada) e de um acidente (provocado), que o priva dos seus membros, da companhia da sua família e, principalmente, da possibilidade de viver segundo as suas convicções. Ao longo da obra, este conflito interior vai agudizar-se e proporcionar os momentos de maior tensão.
Apesar da imponência (e dos “poderes”) dos Sentinelas, este está longe de ser um relato de super-heróis, sem a sua dinâmica e as acções espectaculares, acentuando antes o retrato cru e extremamente realista (apesar da incontornável carga ficcional da narrativa) da realidade dos combates e da vida nas trincheiras, entre suor, sangue, dor e morte.
Graficamente, há um forte contraste entre o tom modernista do relato (em relação à época em que se passa a acção, claro está) e o magnífico traço clássico, barroco, expressivo e duro de Breccia. Servindo-se de uma planificação heterogénea e da alternância entre enquadramentos, com destaque para os grandes planos, que normalmente acentuam os momentos de maior tensão e pontuam o ritmo da narrativa, revelando todas as emoções que os protagonistas experimentam, o desenhador argentino torna patente toda a violência (por vezes quase bestial) da história. A isto, alia também o recurso a expedientes narrativos bem resolvidos, como é o caso das páginas 28 e 29 em que vemos a acção pelos olhos de Féraud.
Em relação aos próximos tomos, fica a curiosidade de ver como Dorison vai desenvolver a sua trama, mantendo-se fiel à verdade histórica ou optando por alterar o curso da guerra e criar uma realidade alternativa…

A reter
- A forma realista como os autores mostram a dura realidade da Primeira Guerra Mundial.

Menos conseguido
- O retrato algo estereotipado de alguns dos intervenientes.

Curiosidade
- Na origem deste projecto esteve uma eventual colaboração de Dorison com a Marvel - que acabou por não se concretizar – que passava pela escrita de um one-shot do Homem de Ferro, ambientado exactamente na Primeira Guerra Mundial
- O primeiro volume foi inicialmente publicado pelas edições Lafont BD, em Janeiro de 2008, tendo a Delcourt entretanto comprado o fundo de catálogo daquele editor.
- A primeira edição do primeiro volume inclui um dossier de 8 páginas com uma entrevista com Xavier Dorison e esboços e ilustrações de Enrique Breccia; o segundo volume inclui um exemplar de 4 páginas, formato tablóide, da edição nº11 do jornal “La Sentinelle”, “datada” de 12 de Setembro de 1914, com relatos das intervenções das Sentinelas na Primeira Guerra Mundial.

19/06/2009

Surge… Ferd’nand – Tiras de 1937
















Surge… Ferd’nand – Tiras de 1937
Mik (argumento e desenhos)
Libri Impressi (Portugal, Dezembro de 2008)
226 x 203 mm, 108 p., cor e pb, bilingue (português/espanhol), capa brochada com badanas


Resumo
De Ferd’nand, poder-se-ia dizer que foi a primeira tira diária de imprensa muda, a primeira tira não norte-americana de sucesso mundial e uma das tiras publicadas durante mais tempo (67 anos, de 1937 a 2004), para além de ter sido presença constante no jornal “O Comércio do Porto” durante décadas.

Desenvolvimento
Mas, prosseguindo a ideia deixada atrás, nada disso, por si só, lhe faria justiça.
Publicado pela primeira vez a 3 de Maio, assinado por um jovem dinamarquês de apenas 21 anos, Ferd’nand assenta numa simplicidade desarmante. O traço é simples, arredondado e desprovido de mais pormenores do que os necessários para materializar o gag, No entanto, nessa sua aparente simplicidade, demonstra uma expressividade, um sentido de composição e de equilíbrio do conjunto de 3 a 5 vinhetas que habitualmente compõem a tira e um dinamismo assinaláveis, que conferem ao todo uma enorme legibilidade. Simples, quase sempre de uma grande ingenuidade, são também os argumentos, sempre auto-conclusivos, sem qualquer continuidade, assentes nos pequenos nadas do quotidiano, revistos à luz de um humor directo mas sempre inesperado, uma vez por outra com um toque de nonsense. E que mantêm hoje toda a frescura, mesmo quando a ideia base possa ser um pouco datada.
Para sustentar a tira, ao lado de Ferd’nand, existe uma curtíssima galeria de personagens: a sua esposa, filho (cópia em ponto pequeno do progenitor) e cão. O protagonista, sem profissão fixa, escolhida ao sabor das necessidades do gag, mas sempre pertencente à classe média, como forma de garantir identificação com maior número de leitores, permanece inalterável fisicamente e na sua maneira de ser e agir, ao longo dos anos, apresentando-se (quase) sempre com o seu chapéu característico, calças de fazenda, casaco preto e colete com dois grandes botões.

A reter
- A publicação, pela primeira vez em livro, de todas as tiras do ano de nascimento de Ferd’nand, para mais com uma cuidada e detalhada introdução de Manuel Caldas.
- A possibilidade de este ser o tomo inicial da edição integral do Ferd’nand de Mik, assim a edição encontre os compradores suficientes.
- O sentido de oportunidade do editor ao fazer uma edição bilingue (português/espanhol) que aumenta em muito o potencial mercado para a obra o que permitirá mais facilmente recuperar o investimento e avançar com novos volumes.

Menos conseguido
- As (apenas) 70 páginas com tiras sabem a pouco… Mas claro que juntar dois anos num só volume aumentaria demasiado o seu preço final…

Curiosidades
- Para descobrir algumas, há que ler a introdução de Manuel Caldas, como habitualmente minucioso e bem informada e profusamente ilustrada.

(Versão revista e aumentada do texto publicado a 21 de Fevereiro de 2009 no suplemento In’ da revista NS, publicada aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

18/06/2009

Fábula de Bagdad

Fábula de Bagdad
Brian K. Vaughan (argumento)
Niko Henrichon (desenho)
BdMania (Portugal, Dezembro 2007)
178 x 264 mm, 136 p., cor, capa cartonada


Resumo

Abril de 2003. Durante um bombardeamento, um bando de leões foge do Jardim Zoológico de Bagdad. Famintos, perdidos, confusos, deambulam pelas ruas semi-destruídas até se encontrarem com uma patrulha norte-americana.

Desenvolvimento
Partindo deste acontecimento real - de uma história com princípio e fim conhecidos - Brian Vaughan, argumentista aplaudido, autor dos premiados ""Y" e "Ex-Machina" e também de alguns episódios de "Lost/Perdidos", parte para uma reflexão sobre a liberdade - se deve ser oferecida ou conquistada - e qual o preço a pagar por ela - qual o preço que ela merece? - numa fábula alusiva à situação real que se vivia então (que se vive ainda…?) no Iraque.
E se o título português reforça este último aspecto, perde a dualidade do original ("Pride of Baghdad"), no qual o vocábulo inicial significa tanto "bando de leões" como "orgulho".
Orgulho que existe, embora revelado de formas distintas nos quatro leões fugidos do zoo. Safa, a leoa mais velha, é a única que tem recordações - quase todas negativas -da vida em liberdade na savana, revelando quase sintomas do Síndroma de Estocolmo em relação aos humanos seus captores. Noor, a leoa mais nova, nascida em cativeiro, sonha desde sempre conquistar a liberdade. Para isso, tenta a união de todos os animais, embora seja evidente que os outros (lhe) pagarão um preço alto por essa liberdade - que para eles seria apenas momentânea. Zill, o macho, está acomodado, quase sempre pouco autónomo, prefere que as coisas aconteçam do que ser o agente que as origina. Sobra Ali, um jovem leãozinho, inconsciente, irreverente e com uma grande vontade de conhecer mundo.
E é da discussão destes diferentes pontos de vista, durante a deambulação, - que Vaughan não defende nem ataca, apenas expõe, sem dar respostas - que se faz o argumento, que flui de forma pausada, ao ritmo das palavras e dos pensamentos de que dota os animais, cujos diálogos quase fazem esquecer a sua condição de bestas, pois revelam bem mais da animalidade do ser humano, do que propriamente dos "reis da selva". Embora mostrem a sua condição "real" - todo o seu "orgulho" esquecido - nos momentos em que se suplantam para lutar pelas suas crenças e pela continuidade da sua união, embora ela pareça quase sempre inexistente.
Se numa BD texto e desenho devem formar um todo único, é impossível negar o peso do sumptuoso trabalho gráfico de Henrichon, hiper-realista no retrato dos animais, bem providos de ritmo e movimento, fazendo forte contraste com o cenário urbano em que evoluem, marcado pelo caos e destruição, num todo pintado com belíssimas cores quentes, que nos ambientam no sufocante Iraque real. E que é evocador enganoso de "O Rei Leão" da Disney, pois onde aquele era beleza e alegria, este, analisado com mais pormenor, mostra animais decrépitos, decadentes, maltratados, desiludidos com a sua situação e com a vida, em imagens que podem até tornar-se chocantes, como quando uma girafa é brutalmente decepada por uma bomba ou quando os leões são selvaticamente (?!) metralhados.

A reter
- O argumento com conta, peso e medida de Brian Vaughan, que expondo uma opinião foge ao to panfletário e deixa espaço para o leitor formar a sua opinião.
- O desenho magnífico de Niko Henrichon.
- A boa edição portuguesa da BdMania.

(Versão revista e actualizada do texto publicado a 31 de Maio de 2008 no suplemento In’ da revista NS, publicada aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

17/06/2009

Nas bancas: Superman & Batman #39

Superman & Batman #39
Panini Comics (Brasil, Setembro de 2008)
172 x 258 mm, mensal, 116 páginas, cor, capa brochada


Resumo/Desenvolvimento
Superman & Batman - Luz negra
Dan Abnett (argumento), Andy Lanning (argumento e arte-final), Mike McKone (desenho), Jonathan Glapion, Rebecca Buchman (arte-final) e Jason Wright (cores)

Superman e Batman investigam um ataque dos Novos Titãs a uma estação espacial, numa história completa, dinâmica, bem desenhada e colorida.

Canário Negro - Vivendo em pecado
Tony Bedard (argumento), Paulo Siqueira (desenho), Amílton Santos (arte-final) e I.L.L. (cores)

Ainda indecisa quanto à resposta a dar ao pedido de casamento do Arqueiro Verde, Canário Negro faz tudo para proteger a sua irmã Sin, numa narrativa descomprometida e divertida, que tem um bom trabalho gráfico de mais uma dupla brasileira.


O Bravo e o Audaz - Os donos da sorte
Mark Waid (argumento), George Pérez (desenho), Bob Wiacek (arte-final) e Tom Smith (cores)

O Lanterna Verde Hal Jordan e a Supergirl investigam a morte de um rapaz cujo corpo apareceu simultaneamente no espaço e em dezenas de lugares na Terra, na estreia da excelente série The Brave and the Bold. Uma intriga interessante e bem trabalhada, protagonizada por duplas de heróis e apresentada em páginas densas e de planificação variada.

Em resumo, um bom conjunto de histórias numa das melhores revistas brasileiras que temos nas nossas bancas actualmente e que promete melhorar nos próximos números.

Curiosidade
A revista oferece um porta-chaves do Batman.

16/06/2009

Batman Barcelona

Batman Barcelona – El Caballero del Dragón
Mark Waid (argumento)
Diego Olmos (desenho)
Marta Martinez (cor)
Planeta DeAgostini (Espanha, Maio de 2009)
198 x 304 mm, 48 p., cor, capa cartonada


Resumo

O Crocodilo foge do Asilo Arkham e vai para Barcelona, depois de ser convencido pelo Espantalho que é a reencarnação do Dragão que segundo a lenda S. Jorge matou, sendo perseguido pelo Batman.

Desenvolvimento
Na génese, Mark Waid pretendia transportar para a actualidade a lenda de S. Jorge e do Dragão, muito popular na Catalunha, onde está na origem até de uma festa popular semelhante ao Dia dos Namorados. A (re)interpretá-los estariam, respectivamente, Batman e o Crocodilo. Só que a ideia, que não é de todo desinteressante, é abordada apenas superficialmente, sendo o comic um banal confronto entre herói e vilão. Sem complicações psicológicas, sem intermináveis crossovers, sem segundas leituras nem interpretações subjectivas, apenas e tão só uma história simples, linear, com acção q.b. e o esperado combate final, no interior da catedral da Sagrada Família.
Graficamente, a obra está também longe de ser apelativa, com o traço de Diego Olmos (prejudicado pelo formato maior desta edição) a apresentar diversas limitações, desde logo na representação da figura humana, mas também na integração dos protagonistas nos cenários reais de Barcelona que, muitas vezes, parecem demasiado fotográficos em comparação com o traço geral da obra. Apesar disso, merece ser apreciada a forma sombria como retrata o Batman, bem como alguns apontamentos interessantes, como a sombra que o avião de Bruce Wayne projecta logo na imagem de abertura ou algumas cenas de acção.
A nível da cor, Marta Martinez, consegue um registo equilibrado entre tom negro e obscuro típico das histórias do Homem-Morcego, e a luminosidade resplandecente da capital da Catalunha.
Finalizando, sabendo que o livro foi um sucesso, em termos mediáticos e de público, em Barcelona (e também em Espanha), para quem foi especificamente concebido, duvido que seja tão bem recebido noutros mercados e mesmo se terá os desejados efeitos de cartaz turístico. Mas a verdade é que só nesta breve resenha há cerca de uma dezena de referências aquela cidade e a alguns dos seus pontos turísticos mais conhecidos…

A reter
- Alguns pormenores interessantes do argumento: o facto de Batman ter pequenas “batcavernas” escondidas pelo mundo, algo indispensável no mundo actual obcecado com a segurança; a ideia de que fora de Gotham, Batman se sente menos à vontade (pouco explorada nesta história); o terror e o pânico que a sua aparição provoca em Barcelona.
- A edição em si, graficamente bem conseguida e enriquecida com a história do projecto, entrevistas com os autores, um making-off da capa e outro da aplicação da cor.

Menos conseguido
- A banalidade da história.
- A capa de Jim Lee, decalcada de outra que fez há alguns anos e para mais impossível no cenário real da Sagrada Família.

Curiosidades
- A ideia deste projecto surgiu durante a San Diego Comic Con 2008 e é uma evidência da importância crescente do Salón del Comic de Barcelona.
- O desenhador e a colorista vivem em Barcelona, o que era uma das imposições iniciais do projecto.
- A obra foi editada em simultâneo nos EUA, em Espanha e em Itália.

15/06/2009

Príncipe Valente

Foster e Val – Os trabalhos e os dias do criador de ‘Prince Valiant’
Manuel Caldas
Livros de Papel (Portugal, Dezembro de 2006)
260 x 340 mm, 128 p., pb e cor, capa brochada com badanas

Príncipe Valente
(6 volumes, de 1937-38 a 1947-48)
Harold R. Foster
Livros de Papel (vol. 1 a 5) e Bonecos Rebeldes (vol. 6) (Portugal, Março de 2005/Junho de 2007)

270 x 348 mm, 112 p., pb, capa brochada com badanas

Resumo
Publicado durante décadas no suplemento dominical de "O Primeiro de Janeiro", o Príncipe Valente é, possivelmente, um dos clássicos da banda desenhada norte-americana melhor conhecidos em Portugal. A isto, há que acrescentar a sua passagem por diversas revistas desde os anos 50 e também algumas edições (muito) parciais em álbum. Por isso, para muitos será desnecessário apresentar a série, mas para outros, justifica-se fazê-lo. Criado em 1937, por Harold Rudolf Foster, "Prince Valiant in the days of King Arthur", no original, é uma soberba saga medieval, que exalta valores como a liberdade, o cavalheirismo, a amizade, a honra e a valentia, e que narra a juventude, idade adulta e envelhecimento de um dos cavaleiros da mítica Távola Redonda da Corte do Rei Artur.
“Foster e Val” é uma biografia (apaixonada e apaixonante) do seu autor, repleta de ilustrações.

Desenvolvimento
Pegando no que atrás ficou escrito, diga-se que a evolução do herói, que vai avançando na idade, casa, tem filhos, que crescem e progressivamente o vão substituindo ou pelo menos partilhando com ele o protagonismo das aventuras, é uma das marcas distintivas da série. Como o é também, o facto de nela não existir qualquer balão, surgindo todo o texto na parte inferior das vinhetas. Mas que acabam por ser aspectos secundários, quando comparados com as qualidades que a tornaram única: a erudição literária do seu texto, o requinte e o pormenor do seu desenho clássico, realista, expressivo e imponente, a diversidade e a consistência das (muitas) histórias que vão sendo contadas, passadas numa época mítica, à qual Foster dá um toque de fantástico aqui e ali, não se coibindo, por oposição, de também dar uma aura de autenticidade através da citação de episódios históricos ou até da participação activa do protagonista neles.
Nos primeiros anos, a acção centra-se na longa procura de Aleta, rainha das Ilhas Brumosas, por parte do Príncipe Valente, que termina com o casamento dos dois após muitos encontros e desencontros. A par da magia da aventura em estado puro e dos múltiplos combates com que Foster alimentou anos da saga, e dos muitos lugares remotos visitados, destaca-se a forma como Foster os entremeia com registos mais caseiros, quase sempre condimentados com um invulgar sentido de humor.

A reter
- A paixão de Caldas pela obra de Foster, patente (e latente) nestas edições.
- O extremo cuidado posto na restauração de cada prancha.
- A qualidade literária dos textos do Príncipe Valente.
- O traço clássico, minucioso e pormenorizado de Foster.

Menos conseguido
- É lamentável que uma edição desta qualidade de um clássico eterno, termine abruptamente ao fim de seis volumes
[1] devido a uma querela motivada (?) por razões financeiras. Como se o pouco dinheiro que se consegue amealhar editando BD em Portugal o justificasse…

Curiosidade
- Mantido por Hal Foster ao longo de mais de 30 anos, em sumptuosas pranchas dominicais, o "Príncipe Valente" conta 2.244 páginas da sua autoria, incluindo cerca de
meio milhar desenhadas por John Cullen Murphy (para não citar a sua actual fase, assinada por Gary Gianni). Da fase assinada a solo por Foster, cuja edição integral estava prevista em 22 volumes, com uma centena de páginas cada, estão já editados seis, com uma qualidade gráfica nunca antes vista que fazem dela a edição definitiva de "Príncipe Valente". Para a concretizar, Manuel Caldas, especialista e apaixonado confesso da obra de Foster, conseguiu que o King Features Syndicate abrisse os seus arquivos para obter as provas originais ou, quando elas não existiam, recorreu às páginas de jornais, compradas durante anos através do eBay, das quais eliminou a cor e restaurou até ao mínimo pormenor para obter o preto e branco cristalino que a actual edição apresenta.
- Cada volume contém no seu final meticulosas notas de leitura que podem ir da simples curiosidade ao enquadramento histórico e que revelam a verdadeira paixão e profundo conhecimento de Caldas pela obra.
- Manuel Caldas, através do selo editorial Libri Impressi, tem em curso uma edição em espanhol, que vende pelo correio para o país vizinho (impossibilitado que está de a distribuir nas livrarias) e também o primeiro volume da série em inglês.

[1] Existe um sétimo volume, editado “a solo” pela Bonecos Rebeldes. Se a qualidade da obra em si se mantém, na (inevitável) comparação gráfica com os seis volumes anteriores, da responsabilidade de Manuel Caldas, entretanto afastado, nota-se (e muito) a falta da sua paixão e minúcia, visível no menor cuidado posto no restauro dos originais, na inestética legendagem mecânica, na omissão das datas originais de publicação e na ausência das suas saborosas anotações e comentários…

(Montagem e actualização de diversos textos publicados entre 2005 e 2008, no Jornal de Notícias e na In’ - suplemento da revista NS, distribuída aos sábados com o JN e o DN)

10/06/2009

Histoires Cachées

Histoires Cachées
Colonel Moutarde (argumento)
Brigitte Luciani (desenho)
Delcourt (França, Janeiro de 2009)
136 x 176 mm, 48 páginas, cor, capa cartonada


Resumo

Uma família (aparentemente) harmoniosa reúne-se na velha casa de campo para um último adeus ao (falecido) patriarca da família. É tempo de relembrar o passado e de contar novidades. No entanto, há velhas “histórias escondidas” que teimam em vir ao de cima…

Desenvolvimento
Esta é (mais) uma história de relações familiares na aparência cordiais e serenas, mas na realidade distantes, tensas, recheadas de invejas, ciúmes e segredos.
E tudo é despoletado pela morte do patriarca Joseph, o que provoca o reencontro de todos os seus membros, confinados durante alguns dias ao espaço da velha casa de família, que tanto funciona como espaço de liberdade, pela fuga à rotina diária e pela evocação dos bons tempos passados, quanto como prisão claustrofóbica que catalisa e faz vir à tona velhos conflitos mal resolvidos.
São essas tensões que Colonel Moutarde vai introduzindo, em diálogos breves mas com o peso certo, enquanto nos vai apresentando os diversos membros da família que, se de alguma forma correspondem a estereótipos, têm o seu retrato psicológico suficientemente definido.
A seu lado, Brigitte Luciani, com a sua linha clara estilizada, agradável e bem servida por cores planas, com destaque para os tons verde, salmão e cinzento, vai-nos guiando de cena em cena, aprofundando os nossos conhecimentos de cada membro da família. Que, ao fim daqueles dias, com feridas saradas ou novas ou mais fundas cicatrizes regressam à sua vida quotidiana….
Ou não, porque as revelações ainda não acabaram. Terminada a leitura “normal”, há que voltar atrás e, com um abre-cartas bem afiado, separar cinco pares de páginas, aparentemente deixadas “coladas” por um erro da gráfica… Incluindo-as numa segunda leitura, descobrimos algumas das “histórias escondidas” daquela família (narradas em tons mais escuros, para se distinguirem em leituras futuras), percebendo – agora – melhor a razão de ser de alguns olhares, trocas de palavras e atitudes. E ficando assim a conhecer mais profundamente cada um dos protagonistas, com as suas qualidades, defeitos e segredos bem humanos.

A reter
- A curiosidade do exercício proposto pelas autoras.
- A forma divertida como é resolvida a questão do filho bastardo de Antoine.

Menos conseguido
- Algumas poses da figura humana, estáticas e pouco naturais.
- A perda do efeito surpresa em leituras subsequentes.

09/06/2009

Silver Surfer – Requiem

Silver Surfer – Requiem
J. M. Straczynski (argumento)

Esad Ribic (desenho e cores)
BdMania (Portugal, Setembro 2008)
176 x 262 mm, 92 páginas, cor, capa cartonada


Resumo



Afectado por uma estranha doença, o Surfista Prateado recorre a Reed Richards para tentar encontrar uma cura.

Desenvolvimento
Contar e recontar origens e fins, tem sido um dos filões explorados ciclicamente pela Marvel, seja para dar nova roupagem a um herói, relançá-lo pelas mão do autor do momento, interligá-lo com a mega-saga em curso, obter retorno mediático ou relançar vendas…
No caso deste “Requiem”, no entanto, o fim do Surfista Prateado, faz todo o sentido. Desde logo porque ele é uma das personagens mais estranhas do universo Marvel, com uma grande carga mística e filosófica e divagar sobre o sentido da (sua) vida, como antecâmara da sua morte anunciada, na sequência de uma doença degenerativa incurável, surge como natural e lógico. Claro que só isso não seria suficiente, pois facilmente a história poderia descambar para o lamechas ou até ridículo. Mas Straczynski , argumentista talentoso e competente, que assinou o Homem-Aranha durante anos, consegue evitá-lo, com um argumento seguro, solidamente construído, ancorado em textos de apoio que vão conduzindo a narrativa, levantando questões e apresentando algumas respostas. E ao mesmo tempo, relembra o passado do herói, a sua chegada à Terra e a interacção com o Quarteto Fantástico. E consegue ainda criar momentos marcantes como o (belo) presente de Mary Jane, a resolução (óbvia mas necessária) de um conflito cósmico milenar e, claro está, todo o epílogo em si.
Por seu lado, Ribic, fez de cada vinheta uma autêntica pintura, reforçando com isso o clima dramático da trama, mas dotou-as também de movimento, expressividade e bons enquadramentos que permitem que a leitura vá fluindo ao rimo adequado. E a isto tudo há que acrescentar ainda o fantástico acabamento “metalizado” do protagonista, pleno de reflexos e cambiantes, que realça e torna mais traumática a sua degeneração final.

A reter
- O argumento sólido e contido de Straczynski
- O trabalho fabuloso de Ridic, no desenho e na cor.

Menos conseguido
- Editar (BD, literatura, etc.) pressupõe o desejo/a vontade de fazer o livro chegar ao maior número possível de leitores; para isso, é preciso que os livros cheguem às livrarias, dentro de um prazo razoável. Não é isso que tem acontecido com as (boas) edições da BdMania (e da Vitamina BD). E por muito que eu conheça os problemas da distribuição em Portugal e possa compreender (o que não quer dizer concordar) todas as condicionantes e razões para que tal aconteça, quem fica a perder é, primeiro, o leitor, e, depois, o editor.



(Versão revista e aumentada do texto publicado no suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias, de 6 de Junho de 2009)

08/06/2009

Tex #468 e #469

Tex #468 – A sentinela do passado
Tex #469 – A volta do soldado
Claudio Nizzi (argumento)
Miguel Repetto (desenho)
Mythos Editora (Brasil, Outubro e Novembro de 2008)
Revista mensal, 136 x 176 mm, 114 páginas (cada), preto e branco, capa brochada

Resumo
Fugindo de um bando de índios, procurados por efectuarem assaltos a diligências e fazendas isoladas, Tex Willer e Kit Carson são obrigados a embrenhar-se numa meseta rochosa. Aí, após enfrentarem uma série de perigos naturais - e outros nem tanto -, descobrem um ex-soldado sulista, John Rickfiekld, que não sabe que a guerra acabou há já duas dezenas de anos.
Trazendo-o de volta à civilização, decidem acompanhá-lo a Atlanta, a sua cidade natal, onde acabam por descobrir que a sua família foi assassinada pelo homem forte local, que é também candidato ao cargo de Governador.

Desenvolvimento
Na verdade, não se trata de uma mas sim de duas aventuras de Tex, embora interligadas. Desnecessariamente, diga-se desde já. Da primeira, ressalta a novidade do confronto dos heróis com a natureza, seja nas estreitas beiradas das escarpas rochosas, seja nos canyons transformados em rápidos por um temporal, seja em arriscadas escaladas. E, para mais, sempre ameaçados por um (por mais que um, aliás: John Rickfiekld e os índios) inimigo invisível, que pode surgir a cada momento, nos seus calcanhares ou à sua frente, por detrás de uma pedra ou acima das suas cabeças. Isto dota a história de um clima de suspense pouco habitual e motiva o leitor a seguir preso à leitura para descobrir como tudo se vai resolver.
Até aqui (cerca de 50 páginas), tudo bem. Na continuação, se é verdade que a ideia de um soldado que ignora que a guerra terminou é também interessante, o seu estado (físico, psicológico…) não corresponde à ideia de alguém que passou alguns dos últimos 20 anos sozinho e isolado do mundo exterior (ou quase). Nem o seu uniforme o mostra, aliás… E custa a engolir a forma (quase) imediata como aceita a situação e se dispõe a seguir os heróis, num regresso à civilização, que encerra o primeiro tomo.
Nesta primeira parte, o grande destaque vai, no entanto, para o traço de Repetto, agreste como a montanha pede, pormenorizado, detalhado, capaz de a desenhar sempre diferente, eficaz sob sol intenso como debaixo do temporal.
Mas, ainda nas páginas finais do Tex #468, o ritmo e o clima criado, perdem-se rapidamente, quando, livres do primeiro perigo, Tex e Carson levam o homem que encontraram de volta à civilização, descobrindo que a sua herança tinha sido usurpada. Como é hábito, de imediato dispõem-se a fazer justiça, acompanhando-o à sua cidade natal, episódio que ocupa toda a edição #469.
Uma vez chegados a Atlanta, confirmam que o responsável pelo assassinato da família Rickfiekld foi o tirano local que impõe pela força uma lei de silêncio sobre o passado. No entanto, em pouco tempo e até com relativa facilidade acabam por o derrotar e repor a justiça.
Se o traço de Repetto mantém o alto nível demonstrado, revelando-se igualmente à vontade no tratamento da figura humana ou animal como no das paisagens naturais ou construídas pelo homem, a história esvazia-se rapidamente para cair numa história banal de Tex, algo forçada e bem pouco inspirada até…

A reter
- Não sendo um grande especialista de Tex, li o suficiente para reconhecer que tem havido um esforço para o modernizar, esforço esse patente nas histórias mais recentes, isto sem que se proceda à sua descaracterização. Neste sentido, a primeira parte de “A sentinela do passado”, é mais um (bom) exemplo, mostrando os dois rangers mais em confronto com a natureza (apesar do inimigo invisível) do que com outros seres humanos, o que, pela extensão do episódio, traz uma agradável nota de originalidade.
- O desenho de Repetto, como já deixei suficientemente claro atrás.

Menos conseguido
- Eu sei que as histórias têm número fixo de páginas para cumprir, mas a verdade é que a aventura só tinha ganho se tivesse terminado no ponto em que Tex, Carson e Rickfield chegam ao forte. A coincidência que os leva a descobrir rapidamente como tudo se passou 20 anos antes e, pior, a forma simples e rápida como “despacham” o responsável e todos os seus sequazes e repõem a ordem, é tudo menos credível…
- Eu sei também que, para o bem e para o mal, Tex é um western tradicional e que ele e os seus companheiros têm que vencer sempre no fim, mas será que não era possível arranjar-lhes uns adversários que disparem um pouco melhor? Na primeira parte, no confronto com uma vintena de índios, 18 destes (se não me enganei a contar) são atingidos, enquanto que Tex, Carson e John Rickfield não sofrem nem sequer um tiro de raspão. E depois, na segunda parte, contra os homens de Jean Russard, o mesmo se passa. Isto, sejam os confrontos em campo aberto, com ambos os contendores protegidos ou sendo os heróis emboscados…

Curiosidade
Na segunda vinheta da página 43 do Tex #469, Willer diz a Carson: “No cruzamento, vamos virar à direita!”. Na vinheta seguinte, chegados ao tal cruzamento, viram de imediato… à esquerda! Erro de tradução, como me confirmou o amigo José Carlos, pois “no original italiano, Tex diz a Carson para virarem à "sinistra" (esquerda) no cruzamento”.


(Texto publicado originalmente no Blog do Tex, em 6 de Junho de 2009)

07/06/2009

O principezinho

O principezinho, segundo a obra de Antoine de Saint-Exupery
Joann Sfar (texto e desenhos)
Editorial Presença (Portugal, Dezembro 2008)
233 x 318 mm, 112 páginas, cor, capa cartonada


Resumo

Devido a um problema mecânico um piloto aterra de emergência no deserto, onde, num sonho (?)/alucinação (?) se encontra consigo próprio enquanto criança sonhadora e de imaginação fértil.

Desenvolvimento
Adaptar qualquer obra para um meio narrativo diferente é um risco porque, para ser conseguida, a adaptação terá sempre que ter vida própria no novo meio, respeitando as suas regras e as suas especificidades, sem que, ao mesmo tempo, subverta ou desfigure o espírito da obra original. De forma mais clara, uma boa adaptação implica uma grande dose de (re)criação. Claro que mais acrescido será aquele risco, quando se está em presença de um título como “O principezinho”, de Antoine de Saint-Exupery, tão só o livro francês mais traduzido de sempre e uma obra de referência incontornável da literatura infantil (e não só…).
A sua (re)criação por Joann Sfar, um dos mais marcantes autores da geração que, nos anos 90, através da editora L’Association, transfigurou o panorama franco-belga – e europeu, e mundial – da banda desenhada, é uma aposta alta, muito alta) ganha, por razões que vamos tentar perceber.
Desde logo porque, apesar de partir do texto original, Sfar, fez-lhe uma releitura à luz das características que têm distinguido a sua bibliografia, dando maior relevância à história que pretende contar, com especial sensibilidade para pequenos detalhes, imprimindo ao relato um toque de humor e libertando as suas emoções, servindo o desenho como veículo para essa narração, sem que isto signifique menor cuidado com ele. A opção por uma estética diferente das aguarelas de Saint-Exupery, mas próxima delas, torna quase imediata a associação ao original mas também dá a Sfar toda a liberdade para desenvolver o seu traço rápido, nervoso, por vezes próximo do esboço, mas mais detalhado do que seria de esperar, dinâmico e bem equilibrado.
Neste caso, dada a importância do texto original (de que Sfar guardou grande proximidade), uma vez que se trata de um relato onírico, com muito de abstracto e filosófico, cujos limites (quase ilimitados…) são os da imaginação e do subconsciente, em oposição à seriedade da vida adulta, o desenhador optou por ancorar a parte escrita ao desenho, obrigando-os a caminhar juntos (como tem que ser em banda desenhada, para poder ser classificada como tal), conseguindo em diversos momentos substitui-lo por sequências mudas, nas quais ganha realce a expressividade do seu traço, ao nível das feições humanas, com especial destaque para os olhos do protagonista – grandes, imensos, como a sua vontade de conhecer os mundos que vai percorrendo -, com os quais partilha connosco as mais diversas emoções desta autêntica ode à vida e às pequenas coisas, ao direito a sonhar e a viver os sonhos, animando-nos a viver melhor, “porque a tristeza é um risco quando nos deixamos cativar”.

A reter
- A fidelidade ao original, na nova roupagem aos quadradinhos.
- A forma como a narrativa flui apesar da planificação rígida.

Menos conseguido
- A ausência de alguns capítulos existentes na obra original.

Curiosidade
- A revista Lire escolheu “Le petit prince” como a melhor BD editado em França em 2008, entre mais de 4 mil títulos…
(Versão revista e aumentada do texto publicado no suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias, de 24 de Janeiro de 2009)
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