Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

30/09/2009

As Viagens de Juan sem Terra I - O Cachimbo de Marcos

Javier de Isusi (argumento e desenho)
Edições ASA (Portugal, Março de 2009)
172 x 241 mm, 136 p., pb, capa brochada com badanas


Era uma vez uma revolução – chamou-se zapatista – que a 1 de Janeiro de 1994 se revelou ao mundo, ocupando as cidades mais importantes da província de Chiapas, no México. Deixaram-nas pacificamente dias depois, defendendo uma revolução pacífica, não imposta pelas armas. Pretendiam, entre outras coisas, a participação directa da população, a partilha da terra e das colheitas, igualdade para os indígenas…
Alguns anos depois – em 2004, para a edição original – acompanhamos Vasco, mais elo de ligação da narrativa do que protagonista, nos passos dados antes por Isusi, numa viagem até La Realidad, uma pequena aldeia em pleno coração do zapatismo, onde convivem indígenas e alguns europeus e por onde passam quotidianamente soldados, numa pretensa demonstração de força. À boleia da busca de um amigo, o Juan sem Terra que dá nome à série, desaparecido 6 anos antes, para lhe entregar o cachimbo, descobrimos também em que ponto está a revolução.
Porque, na estranha realidade de La Realidad, ninguém admite a realidade, vivendo como que para forçar um sonho que, 10 anos depois, pouco mais é que isso. Por isso, perante o relato de Isusi, sentimo-nos numa casa de espelhos. Não daquelas vulgares, das feiras, em que superfícies côncavas e convexas reflectem, deformada, a nossa imagem, mas numa outra, perante as imagens já deformadas das (pelas) várias personagens – incrivelmente fortes e definidas - que se apresentam como aquilo que ambicionam, sonham, aspiram, desejam, nunca como são na realidad(e).
Os zapatistas acreditam que a revolução continua viva e que há que viver em segredo, com medidas de segurança extremas e cuidados especiais com espiões ou traidores… E os europeus, crêem-se peças fundamentais de uma engrenagem especializada em pleno funcionamento, enquanto sonham conhecer o famoso subcomandante Marcos, líder do movimento…
Desta forma, Isusi cria um relato envolvente, reforçado pelos diálogos de tom falsamente misterioso, traçado num preto e branco contrastante que contrasta com os muitos “tons cinzentos”, dúbios, que os protagonistas assumem. Um relato que, qual reportagem, transmite uma visão em primeira-mão daquilo que se tornou uma das últimas revoluções da História, ao mesmo tempo que, ficcionando a vivência, consegue equilibrar-se entre um saudável romantismo incurável e o tom desiludido e descrente com que mostra a realidade dos últimos vestígios do zapatismo…
Um relato a que não falta paixão e distanciamento, utopia e amargura, ritmo e ironia, esta última reforçada pelo traço semi-caricatural e bem presente no derradeiro capítulo, que mostra que todos podemos ser “Marcos” e o quão estranho a ele pode ser aquilo que o define: o seu cachimbo.

(Texto publicado originalmente a 18 de Abril de 2009, na página de Livros do suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

29/09/2009

Zagor Especial #5 – O homem do Rifle

Moreno Burattini (argumento)
Ferri (desenho)
Mythos Editora (Brasil, Março de 2006)
135 x 178 mm, mensal, 276 p., pb, capa brochada


Confesso que não sou grande fã de Zagor, mas esta história, considerada por muitos a sua melhor aventura, surpreendeu-me agradavelmente. Descrevendo uma perseguição implacável a um assassino, numa autêntica caça ao homem, ao longo de centenas quilómetros de paisagens geladas cobertas de neve (e também ao longo de muitas dezenas de páginas), é não apenas uma boa história de Zagor, mas uma boa banda desenhada de aventuras, qualquer que seja o ponto de vista pelo qual seja considerada.
Para isso contribui em grande parte a presença discreta de Chico e Zagor, este longe do (quase super-)heroísmo habitual, aquele menos desastrado do que é costume, reduzindo assim alguns exageros habituais na série – que de certa forma constituem a sua imagem de marca - e permitindo que o autor explore mais e melhor quer a narrativa em si, que se torna mais credível, quer a psicologia dos restantes intervenientes, que são assim mais do que (habituais) figurantes.
A isso há que juntar uma escrita inteligente, ágil e desenvolta, com as peripécias a desenrolarem-se em bom ritmo, com diversas nuances na linha condutora da trama e com um final que se revela lógico e coerente mas que, apesar disso, consegue surpreender o leitor.

28/09/2009

Appoline

Jean David Morvan (argumento)
TBC (desenho)
Casterman (França, Setembro de 2009)
242 x 321 mm, 64 p., cor, capa cartonada


Resumo

Numa pequena cidade – que pode ser qualquer uma, até a nossa – um pasteleiro é selvaticamente assassinado mesmo à hora de fecho do seu estabelecimento, sem que haja qualquer sinal de roubo. Encarregado da investigação do crime, o inspector Wimms vai fazer uma incrível descoberta…

Desenvolvimento
De forma cáustica, Morvan e TBC abordam – embora involuntariamente – um tema que faz(ia) as primeiras páginas jornais e abria os noticiários na data de publicação deste álbum: o rapto e/ou violação e/ou sequestro de crianças/adolescentes/jovens, devido à descoberta, na Califórnia, no final de Agosto, de Jaycee Lee Dugard, 18 anos depois de ter sido raptada com apenas onze anos.
A história de Morvan, que começa apenas como um assassinato violento, previsivelmente devido a alguma vingança, com o avançar do inquérito de Wimms, um homem solitário, fechado sobre si mesmo – com problemas de relacionamento, portanto – revela outros contornos, bem mais complicados, mesmo que o inspector descubra e prenda o assassino. Só que, a história não termina assim pois Wimms, ao revistar a casa do suspeito, aparentemente recebe a sorte grande, se assim se pode dizer, pois nela encontra sequestrada (…?) Appoline, uma adolescente raptada anos atrás, com apenas 11 anos, que entretanto se transformou numa mulher atraente e manipuladora.
Chegado aqui, não vou adiantar muito mais, para não retirar à narrativa o efeito surpresa de que eu próprio beneficiei, acrescento apenas que Morvan, com a cumplicidade gráfica do esloveno TBC, desenvolve uma estranha narrativa em que explora (aliena…) o chamado Síndroma de Estocolmo, mostrando como – às vezes – a vítima não é quem parece…
Numa narrativa burlesca e mordaz, com um lado cruel, o traço semi-caricatural e algo rude de TBC, cheio mas pouco pormenorizado o que permite ao leitor um ritmo de leitura mais rápido e consequente com o tom da narrativa, assume bem as despesas, apesar de um ou outro exagero, ilustrando bastante bem facetas menos agradáveis e recomendáveis presentes, mas nem sempre visíveis, nos seres humanos. E não deixa de ser irónico, na sua representação iconográfica, o facto de Appoline ser a única personagem “bonita” (bem desenhada), em contraste com a fealdade dos restantes intervenientes.

A reter
- A forma como Morvan consegue subverter a ideia base apresentada no primeiro quarto da história – e na própria capa do álbum -, dando-lhe depois uma direcção totalmente diferente.

Menos conseguido
- Se o traço de TBC agarra e representa bem a ideia central inerente ao relato de Morvan, a mãe de Antoine surge, mesmo assim, demasiado caricaturada.

25/09/2009

Primal Zone – volume 1

Gabrion (argumento e desenho)
Delcourt (França, Setembro de 2009)
167 x 237 mm, 120 p., pb, capa brochada


Resumo

Descoberto aos 10 anos junto do cadáver da mãe, assassinada, foi julgado, considerado culpado e internado numa instituição especializada. Ao longo de 15 anos, foi alvo de todos os estudos e testes psicológicos imagináveis, mas o seu instinto de sobrevivência ensinou-o a dar as respostas esperadas, respeitando a hierarquia, tornando-se dócil, mostrando-se pronto a reentrar na sociedade como um elemento válido.
Só que, no seu interior, o demónio Ortog continua bem vivo e faminto, disposto a esperar pela sua oportunidade.

Desenvolvimento
Partindo daqui, Gabrion desenvolve uma narrativa tensa, num tom entre o policial e o terror, mergulhando no mais fundo da mente conturbada do protagonista, dividido entre várias personalidades: um frio e insensível assassino por contrato, um pacato vendedor de seguros ou o insaciável Ortog, sempre faminto de sangue e carne, de preferência humana.
Por isso, a par das actividades normais (?!) de cada um deles, assistimos também à sua luta interior, surgindo a realidade que tem lugar no nosso mundo a par das visões imaginárias de mundos ocultos povoados por demónios, entre as quais existe apenas uma ténue linha divisória que facilmente é atravessada pelo protagonista.
Gabrion nesta obra, como não podia deixar de ser, optou por um preto e branco duro e agreste, com as zonas escuras a predominarem, reflectindo a escuridão interior do hospedeiro de Ortog, onde se adivinha a influência do Frank Miller dos bons velhos tempos.

A reter
- A forma como Gabrion equilibra os vários registos da narrativa.

Menos conseguido
- Nalgumas sequências no mundo real, o traço está demasiado preso às referências fotográficas utilizadas.

Curiosidade
- Este álbum foi pré-publicado em tempo real no Facebook e encontra-se disponível gratuitamente em versão integral em http://www.bdprimalzone.net/, onde estão já disponíveis as primeiras pranchas do segundo tomo, a publicar em Setembro de 2010.
- O livro conclui com um caderno a cores de homenagem a Jorge Eish, amigo de Gabrion, que sofria de doença bipolar e se suicidou, que esteve na origem desta abordagem em quadradinhos à esquizofrenia.

24/09/2009

Morte e vida dos Dalton

Os Grandes Clássicos de Tex #8
Gianluigi Bonelli (argumento)
Galep (desenho)
Mythos Editora (Brasil, Abril de 2007)
135 x 177 mm, 274 p., pb, brochado

Lucky Luke #06 – Hors la Loi
Morris (argumento e desenho)
Dupuis (Bélgica, Janeiro de 1987)
215 x 299 mm, 48 p., cor, cartonado

Lucky Luke #53 – Os primos Dalton
René Goscinny (argumento)
Morris (desenho)
Edições ASA (Portugal, Maio de 2009)
222 x 295 mm, 48 p., cor, cartonado

Se a relação entre banda desenhada e História, assume as mais variadas formas, desde a total independência – quando a ficção impera - até ao retratar rigoroso e documental daquela, passando por obras ficcionais com base histórica, casos há, em que a verdade dos acontecimentos reais é adulterada – quando não completamente deturpada. Um daqueles acasos em que a vida é fértil – apesar de gostarmos de dizer que não para os valorizarmos – fez com que em poucas horas, na leitura de duas obras díspares, assistisse à morte e ressurreição dos tristemente célebres irmãos Dalton.


No primeiro caso, vi-os morrer às mãos de Tex, então ainda não pertencente ao corpo dos Rangers, na história “A Quadrilha dos Dalton”, originalmente publicada em 1951, em Itália, e uma das duas incluídas no oitavo tomo de “Os Grandes Clássicos de Tex” – a outra é “Os chacais do Kansas”.
Com o traço inconfundível de Aurelio Galleppini, é uma história típica de Bonelli, escrita ao correr da pena, com as situações limite a multiplicarem-se ao longo da narrativa, rica em confrontos e, neste caso, com uma grande liberdade no tratamento de factos históricos comprovados. Marcante pelo facto do índio Jack Tigre fazer nela a sua estreia absoluta, é um western tradicional em que Tex Willer assume mais uma vez o papel de juíz e carrasco, matando os chefes e alguns elementos da célebre quadrilha liderada por Bob, Emmett e Grat Dalton.

Curiosamente, poucos anos depois, corria o ano de 1954, esses mesmos irmãos Dalton - Bob, Grat e Emmett, mas também Bill – eram de novo mortos, num dos mais lamentáveis assassinatos que a banda desenhada já conheceu: isso aconteceu no álbum “Hors-la-loi”, sexto título das aventuras de Lucky Luke, então ainda assinado a solo pelo seu criador, Morris, com os fora-da-lei a perderem a vida às mãos do cowboy que viria a “disparar mais rápido que a própria sombra”, durante o ataque ao banco de Coffeyville, assim acompanhando (de longe…) a realidade histórica, como sempre aconteceu no mais célebre dos westerns humorísticos.

Entre estas duas interpretações, fica no ar a pergunta: quem os terá realmente abatido? Lucky Luke ou Tex Willer? E – talvez inspirado em Goscinny – acrescento: em que ano morreram, afinal?

Mas a história dos Dalton, no que a Lucky Luke diz respeito, não se ficaria por aqui. Quatro anos depois, em 1958, René Goscinny, argumentista do cowboy de fresca data, intuindo o enorme potencial cómico dos quatro irmãos feios, burros e maus, aparentemente gémeos mas de alturas diferentes, corrigia o erro de Morris, ressuscitando-os… sob a forma dos seus primos – Joe, Jack, William e Averell, no álbum “Os primos Dalton”.
Eram igualmente feios e maus e tornaram-se os grandes inimigos de Lucky Luke. E eram muito, mas muito mais burros, de uma imbecilidade a toda a prova, o que os tornou uma fonte inesgotável de gags e piadas irresistíveis, que começam logo na vinheta em que fazem a sua primeira aparição e se prolongam ao longo de todo este álbum – em que multiplicam os esquemas e estratagemas para tentar abater Lucky Luke e fazer jus ao nome de família que herdaram dos primos falecidos.
Neste álbum, em que Lucky Luke ainda fumava e bebia Coca-Cola, sinais de tempos idos e de uma doce ingenuidade que (também) a banda desenhada entretanto perdeu, como nos muitos mais em que viriam a participar, terminam atrás das grades, após muitas e boas gargalhadas proporcionadas ao leitor.

(Texto publicado originalmente no Blog do Tex, em 22 de Setembro de 2009)

22/09/2009

Le Tour des Géants

Nicolas Débon (argumento e desenho)
Dargaud (França, Maio de 2009)
242 X 320 mm, x p., cor, capa cartonada

Resumo
Há 99 anos, iniciava-se a 8ª Volta à França em Bicicleta, a primeira a levar os ciclistas aos Alpes e aos Pirinéus. A sua história, de forma ficcionada, é recontada em “Le Tour des Géants”, uma BD editado em França pela Dargaud.

Desenvolvimento
O tiro de partida teve lugar a 3 de Julho, no Pont de la Jatte, à noite, e foram 110 os ciclistas que lá se apresentaram, entre os quais os principais favoritos: Faber, “Tatave” Lapize (que viria a vencer), Garrigou ou Petit-Breton. Partiram para três duras semanas em cima das suas bicicletas, bem diferentes das apuradas máquinas que os atletas hoje utilizam, apesar de este ser um “Tour” marcado pelas inovações técnicas, entre as quais travões (“às vezes mesmo dois”), uma alavanca de velocidades que permitia mudar entre as duas disponíveis sem “pôr o pé no chão” e a redução de peso das bicicletas, algumas das quais “não passavam os 13 quilos”! Ao fim dos 4735 quilómetros da prova, percorridos em 28 dias e 15 etapas, algumas com mais de 400 quilómetros (!), chegaram apenas 41 destes verdadeiros “gigantes” da estrada.
Estas informações, que podem ser lidas nas primeiras pranchas desta obra de Nicolas Débon, nascido na Lorraine em 1968, formado em belas-artes e que hoje se dedica exclusivamente à ilustração e à BD, mostram o seu lado rigoroso e documental, que é equilibrado com apontamentos de humor que atenuam o seu peso.
No entanto, é antes de tudo dos homens que fala esta bela banda desenhada, feita a traço firme, semi-realista e elegante, e pintada com cores suaves, em tons de azul, cinzento e sépia, que definem locais e ambientes. É o lado humano dos ciclistas, a forma como ultrapassaram obstáculos naturais – chuva, frio, neve, quedas, estradas quase inexistentes - em épicos duelos com a natureza, mecânicos – avarias que eles próprios tinham que reparar (o vencedor terminou uma etapa em cima da jante!) -, pois esta era uma prova à qual não se aplicava o conceito de equipa, e humanos – ameaças, sabotagens, alimentação mal doseada -, a forma como se ultrapassaram a si próprias, aos seus medos e limitações, que constitui o essencial de um relato que prende e empolga, tanto os aficionados do ciclismo quanto o leitor normal.

A reter
- A boa convivência entre as vertentes documental e ficcional do álbum.
- Os tons utilizados para o colorir.

(Versão revista do texto publicado a 4 de Julho de 2009 no Jornal de Notícias)

20/09/2009

Romance da Raposa

Artur Correia (argumento e desenho)
a partir da obra de Aquilino Ribeiro
Bertrand Editora (Portugal, Setembro de 2009)
166 x 245 mm, 220 p., cor, capa cartonada

Na moda (de novo…) nos mercados francófonos e norte-americano, a adaptação em banda desenhada de obras literárias, quase sempre clássicas, vai tendo também alguma expressão entre nós. Um dos (bons) exemplos recentes é este “Romance da Raposa” em que Artur Correia transpõe para a 9ª arte o romance homónimo de Aquilino Ribeiro, depois de já o ter usado como base para uma (celebrada) série de desenhos animados de 13 episódios, nos anos 80.
Transpõe ou adapta, sim, o que pressupõe a introdução de diversas mudanças e alterações ou não surja a obra agora num meio narrativo com características próprias, completamente diferente da literatura, o que implica que o labor do argumentista/desenhador vá bem mais além do que o de simples ilustrador, que é o que vem referido na capa deste (belo) livro (enquanto obra e enquanto objecto) – pois é esse o formato escolhido pela editora, que até beneficia o traço de Correia.
Mantendo o espírito da obra, um conto para crianças protagonizado pela raposa Salta-Pocinhas, astuta e sagaz, que ao longo de toda a existência consegue enganar homens e bichos, sempre com o propósito de encher a barriga, Artur Correia, um dos poucos cultores de banda desenhada infanto-juvenil e humorística em Portugal, com a mestria que se lhe reconhece, transformou-a numa sequência gráfica narrativa desenvolta, ritmada pela planificação e pelos diálogos, concisos e do tamanho ajustado, a que se pode apontar apenas a opção (sempre discutível) de manter alguns termos e construções frásicas, hoje em desuso...
A isso, acrescente-se um traço expressivo, ágil, dinâmico – onde se notam influências do percurso paralelo do autor no cinema de animação – e, acima de tudo agradável e atractivo, recheado de pormenores divertidos, que contribui para fazer desta uma obra de leitura agradável e muito aconselhável, para miúdos… e graúdos!

A reter
- O ritmo, a vivacidade, o humor, a legibilidade...

Menos conseguido
- Numa edição cuidada e com óptimo aspecto, é de lamentar a omissão da biografia e da bibliografia do autor.

Curiosidade
- A primeira versão (incompleta) em banda desenhada do “Romance da Raposa” iniciada por Artur Correia, tinha como base os desenhos utilizados no desenho animado.
- Apesar de se intitular “Romance da Raposa”, na net é possível encontrar fotos de uma capa em que se lê “O Romance da Raposa”, inclusivé no site da editora.

(Versão revista do texto publicado no suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

18/09/2009

Sugestão de Leitura: As Tiras Clássicas da Turma da Mônica – vol. 4

Maurício de Sousa
Panini Comics (Brasil, Fevereiro de 2009)
203 x 203 mm, 130 p., pb, capa brochada


Já está disponível nas bancas e quiosques nacionais o quarto tomo das Tiras Clássicas da Turma da Mônica, que tem vindo a compilar por ordem cronológica as aventuras originais criadas por Maurício de Sousa para os jornais brasileiros no início da sua carreira, na década de 60 do século passado.Uma oportunidade rara de (re)descobrir como surgiram e se desenvolverem Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e companhia, e de apreciar as diferenças em relação ao que são hoje.

BD para ver - The Nam

A galeria Mundo Fantasma, no Centro Comercial Brasília, no Porto, inaugura amanhã, dia 19, uma mostra com 20 originais de Wayne Vansant, pertencentes à série “The Nam”, que estão também à venda. Escrita por Doug Murray, ex-combatente e veterano do Vietname, e editada entre 1986 e 1993, mostra o conflito na óptica dos soldados que nele combateram (e em tantos casos, perderam a vida), abordando quer os factos históricos, quer o relacionamento dos soldados entre si ou com os habitantes locais.
Em Portugal, a série chegou a estar disponível no final da década de 80, nas revistas brasileiras “O Conflito do Vietnã” e “Aventura e Ficção”, da Editora Abril.
Para marcar o primeiro aniversário das novas instalações, a Mundo Fantasma celebra este fim-de-semana o seu Free Comic Book Day, pelo que todos os que visitarem a livraria receberão um comic grátis.
Duas outras exposições - portuguesas - estão já anunciadas para o mesmo local: Esgar Acelerado, de 10 de Outubro a 1 de Novembro, e Alex Gozblau, de 7 de Novembro a 6 de Dezembro.

17/09/2009

3 fois rien

Frédéric Féjard (argumento)
Benjamin Jurdic (desenho)
Casterman/KSTR (França, Agosto de 2009)
167 x 242 mm, 152 p., cor, capa cartonada

Resumo
Seth, recém-saído da cadeia, e Matt, seu amigo de sempre, com a ambiciosa companheira deste, Liza, planeiam roubar uma mala com diamantes a um advogado de poucos escrúpulos, o que deixará bem na vida este trio de delinquentes de quarta categoria. Só que o destino diverte-se a colocar alguma areia na engrenagem e, como é normal nestas coisas, o plano que parecia simples e infalível começa a complicar-se quando pelo meio surgem dois polícias corruptos que completam o seu salário com pequenas chantagens e protecção imposta a traficantes e prostitutas. E que se agravam ainda mais quando o dono dos diamantes roubados, por acaso (?!) um mafioso, põe na pista dos ladrões um assassino contratado.

Desenvolvimento
Uma vez concretizado o roubo, inicia-se então uma perseguição a vários níveis, com cada um dos intervenientes a fazer pela vida, tentando ao mesmo tempo enganar parceiros e adversários, com os diamantes algumas vezes a não estarem onde era esperado e a mudarem de mão várias vezes, até ao final que, se não é apoteótico, reúne grande parte dos intervenientes no mesmo local, esclarecendo o papel de cada um e culminando num final se não de todo surpreendente, pelo menos algo inesperado, em que o destino, o acaso ou o que lhe quiserem chamar, impõe mais uma vez a sua lei, como o fizera em vários momentos do relato.
Relato fresco e agradável que, ao longo de centena e meia de páginas mantém um ritmo alto, assente em cenas com mais acção e menos diálogos – apenas os necessários para a narrativa avançar – não deixando ao leitor muito tempo para se recompor das diferentes surpresas que Féjard lhe preparou, mas que nem assim tiram consistência e credibilidade à obra, apesar de personagens e situações não serem de toda originais.
Por seu lado, Jurdic, com um traço linha clara, caricatural e geralmente expressivo, com uma planificação variada em que se sucedem diferentes planos, privilegia a legibilidade em detrimento de belas pranchas, sendo por isso perdoáveis alguns pormenores de somenos importância, diluídos num conjunto bem servido em termos de cores, quase sempre quentes e fortes, que contribuem também para dar vida ao relato. Mas que falha de forma mais evidente nos momentos de maior tensão, em que se sente alguma falta de emoção.
Se a leitura é sempre um prazer – para mim, pelo menos - por vezes o corpo (ou a cabeça) pede algo ligeiro, agradável, que permita desfrutar no momento, ajudando a passar algum tempo, sem pretensões de maior. “3 fois rien”, cumpre bem esse propósito.

A reter
- O tom divertido do relato, a sensação de descompressão que a leitura provoca.

Menos conseguido
- Apesar de tudo, a história e as personagens, demasiado tipificadas, deixam a impressão de que já as conhecemos/vimos/lemos em qualquer lado…

16/09/2009

BRK – Tomo 1

Filipe Pina (argumento)
Filipe Andrade (desenho)
ASA (Portugal, Setembro de 2009)
190 x 274 mm, 80 p., cor, capa brochada com badanas

Em 2008, escrevi o texto seguinte (que agora actualizei) para o catálogo do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja:


"BRK" é o diminuitivo de break, designação de uma organização antiglobalização internacional na história mas simboliza também a vontade dos autores de "quebrar com o molde da BD em Portugal", justificando também o inglês pela vontade de "a de vender internacionalmente".
Anunciada no "BDJornal", onde foi publicada desde o #14, de Agosto/Setembro de 2006, (com excepção do #21), como "uma saga que vai deixar marcas na BD portuguesa", sendo necessário o passar do tempo para o confirmar, não tenho, no entanto, dúvidas de que, em muitos aspectos, "BRK" é (e será), sem dúvida, uma marca nestes tempos que vão correndo.
Sem ordenação de razões por importância, desde logo pela forma como foi sendo publicada, regularmente, em episódios, ao longo de vários meses, retomando um formato que durante muito tempo imperou, o da história em continuação, que prendia e deixava o leitor suspenso, ansiando pelo número seguinta da revista/jornal para conhecer cada nova peripécia da narrativa. E Filipe Pina, o argumentista, soube gerir bem este aspecto, conseguindo criar momentos de suspense em cada suspensão da história, surpresas, dúvidas, falsas certezas até, criando mais e novas razões para que a leitura fosse retomada posteriormente, dois meses depois.
"BRK", explicavam os seus autores no início, é a história de "David, um rapaz" (sub)urbano "de 17 anos, bastante diferente dos outros". Porque, ao contrário da maior parte dos adolescentes de hoje, é bastante consciente de si e do mundo, responsável e interessado, com vontade de mudar e provocar mudanças. Embora como quase todos os adolescentes - só os adolescentes? - perdido num mundo em constante mudança, cada vez menos propício à actuação individual e menos receptivo aos que querem fazer inflectir o curso dos acontecimentos globalizadores.
O retrato traçado de David - bem como daqueles que lhe são próximos - é bastante realista e credível. Para além de David ser bem trabalhado a nível psicológico, o tom realista é aprofundado pelo facto de os cenários da acção serem também reais: do Porto a Almada ou Lisboa, e de algumas situações - a repórter da RTP que faz a reportagem do atentado, … - apelarem para o Portugal real e existente, que todos conhecemos e onde tudo se passa. Realismo extendido pela ancoragem à realidade actual - para lá das questões e vivências da adolescência, a boleia dos perigos do terrorismo mundial e das questões antiglobalização. Destes dois tópicos, alimenta-se boa parte da trama; do primeiro, sobram razões para as duas situações mais espectaculares da BD até agora: o atentado no "MkDonaldes" (é mesmo assim), na Avenida dos Aliados, no Porto, logo nas primeiras pranchas, e a (surpreendente) falta de gravidade, que encerra o 3º capítulo.
A contrastar com estes dois actos espectaculares, que por isso ganham maior relevância, o tom do resto da narrativa é voluntariamente contido, pausado, lento até, feito principalmente de diálogos e monólogos, para aprofundar dúvidas e sentimentos, que justificam as hesitações e as acções. Como em qualquer ser humano.
Tom, já escrevi, apenas entrecortado com as tais duas cenas espectaculares e pela morte, a tiro, de um familiar de David, na página 67, a última que eu li… E que, apesar de menos impactante que as outras duas citadas, de um ponto de vista global - tem mais condições para provocar mudanças e inflexões, que, com sinceridade, fico a agurdar com interesse, porque interage directamente com David, protagonista mas não herói - afirmando, mais uma vez, o lado humano da narrativa, que é sobre gente, não sobre sítios ou grupos.
Graficamente, em "BRK", Filipe Andrade percorre caminhos que cada vez mais autores experimentam e que eu acredito cada vez mais serão seguidos neste milénio há pouco iniciado. Fazendo a síntese entre a banda desenhada tradicional franco-belga (em especial no que à forma narrativa diz respeito), os comics norte-americanos (de super-heróis, que com certeza, inspiram as cenas mais espectaculares e arrojadas) e os mangas japoneses (no desenho da figura humana e na expressividade dos rostos), numa mescla harmoniosa que assenta numa planificação que embora algo tradicional, não deixa de ser variada no que a ângulos e planos diz respeito, e plenamente capaz de ajudar a marcar o ritmo que interessa aos dois autores.

A abrir este texto, fazia uma ressalva: Escrevo conhecendo apenas as primeiras 67 pranchas de "BRK". Desconheço, portanto como a história vai terminar. Mais, fico suspenso numa altura em que uma inflexão importante na narrativa, até no seu tom, é introduzida.
Agora, ano e meio depois, conhecendo o final deste primeiro volume, acho que pouco há a acrescentar. Confirma-se que o tom inicial do relato, que privilegiava os relacionamentos e as dúvidas de David foi progressvamente evoluindo até transformar num relato de acção, com um toque até de antecipação científica. A surpresa final, acrescentada a algumas mudanças significativas, deixa tudo em aberto para o segundo tomo. Resta saber qual o caminho que os dois Filipe vão seguir e esperar que o conheçamos mais depressa do que o tempo que este primeiro álbum demorou a ver a luz do dia.

A reter
- O tom certo dos diálogos.
- O ritmo da obra
- A forma como os autores prendem e mantem o interesse do leitor.

Menos conseguido
- O (muito) tempo que transcorreu entre a suspensão da publicação no BDJornal e a edição em álbum.

Curiosidades
- Quando o restaurante de fast-food do Porto explode, vêem-se na imagem claramente as letras “aldes” (p. 8); quando o facto é referido no noticiário da TV (p. 16), é designado por “MkDonalds”. Não sendo raros – longe disso – os erros – escritos, de pronúncia, … - nas nossas televisões, afinal em que ficamos? MkDonalds ou MkDonaldes?
- Personagens reais em obras de ficção, geralmente são uma mais valia. E o que acontece com a aparição da reporter Rita (Marrafa) de Carvalho. Tornada mais credível por possuir um dos tiques da maior parte dos reporteres televisivos portugueses, ou seja, fazer perguntas em catadupa, sem deixar o entrevistado responder. Pena é que tão poucos respondam como o comandante dos bombeiros faz em BRK…!

15/09/2009

Sugestão de Leitura: Wednesday Comics

Vários autores
DC Comics (EUA, Julho/Setembro de 2009)
175 x 250 mm, papel jornal, cor

Vai contra os meus princípios, mas confesso-me rendido a estes Wednesday Comics, que aconselho mesmo sem ler, apenas pelo prazer de apreciar a arte exposta em gigantescas pranchas (350 x 500 mm), que se revelam uma vez desdobrada duas vezes a publicação. Porque o princípio que presidiu à sua criação foi evocar a “grande banda desenhada” clássica, que os jornais norte-americanos publicavam aos domingos nos anos 30, 40 e 50 do século passado, nuns imensos 50 x 70 cm. Daí, tabém, a opção pelo papel de jornal.
S(er)ão 12 números, publicados à quarta-feira desde 8 de Julho, com 16 enormes páginas a cores, com a nata dos heróis da DC Comics – Superman, Batman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, Flash, etc. – em histórias autónomas, desligadas de sagas e confusões de universos paralelos, assinados por alguns dos maiores nomes do momento: Brian Azzarello, Eduardo Risso, Paul Pope, Neil Gaiman, Dave Gibbons, Kurt Busiek, Kyle Baker, Adam e Joe Kubert, entre outros.
Voltarei a eles, quando completar a colecção e ler todas as histórias.

Sugestão de Leitura: Romance da Raposa

Artur Correia (argumento e desenho)
a partir da obra de Aquilino Ribeiro
Bertrand Editora (Portugal, Setembro de 2009)
166 x 245 mm, 220 p., cor, capa cartonada


Uma deliciosa adaptação do clássico de Aquilino, transformado numa sequência gráfica narrativa desenvolta, ritmada pela planificação e pelos diálogos por Artur Correia, um dos poucos cultores de banda desenhada humorística em Portugal.
A distinção vale o que vale, mas é forte candidato ao “troféu” de melhor álbum português do ano.
Fica garantida uma análise mais detalhada para breve, que já poder ser lida aqui.


13/09/2009

11/9 – Aquele Onze de Setembro

Nuno Duarte (argumentos)
Jorge Coelho, Patrícia Furtado e Ricardo Venâncio (desenho)
Jornal i, 11 de Setembro de 2009

Confesso que contava terminar esta série de posts com bandas desenhadas sobre o 11 de Setembro com a entrada anterior, mas a descoberta – via portal Central Comics – desta história publicada no jornal i na passada sexta-feira e rapinada no blog Almirante Fujimori, de um dos autores, o Jorge Coelho, levou-me a prolongar o tema.
Se os traços de Jorge Coelho e Ricardo Venâncio são (no mínimo) eficientes – o de Patrícia Furtado é menos espontâneo, mais estático - e as histórias bem legíveis, se a opção por diferentes tons cromáticos para distinguir as quatro sequências é bastante feliz, elas agradaram-me sobretudo, pela simplicidade com que em quatro conjuntos de quatro vinhetas Nuno Duarte conseguiu mostrar o impacto e a influência que os atentados tiveram, a forma como afectaram, de tantas formas díspares, tantas vidas de tantas pessoas, um pouco por todo o mundo.

11/09/2009

11/9 – Vários títulos

Como era de esperar, a poderosa indústria de "comics" norte-americana não ficou indiferente aos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001, multiplicando-se em edições evocativas ou de homenagem, quase todas elas com as receitas a reverterem para os fundos de apoio às vítimas ou aos familiares dos atentados terroristas que destruíram as torres gémeas.
Assinado por alguns dos nomes maiores da Casa das Ideias – Bagley, Bendis, Scott Morse, Quesada, ou Romita Jr. -, A Momento of Silence reúne quatro ilustrações de página inteira e quatro bandas desenhadas curtas, quase completamente mudas, silenciosas, o que torna mais forte o impacto das suas imagens que retratam a tragédia que se abateu sobre a América no 11 de Setembro de 2001. Duas delas focam a forma como as famílias sentiram, sofreram, à distância, a possível (nalguns casos efectiva) morte de alguém, e as outras duas realçam o trabalho desinteressado (em muitos casos fatal) das equipas de salvamento.
Esta é, aliás, uma constante nestes títulos, em que os autores, mais do que utilizar os (seus super-heróis, optaram por homenagear o trabalho de polícias, bombeiros e voluntários, cujo anonimato contrasta com a visibilidade que as grandes façanhas dos super-heróis recebem. E por isso, um outro título da Marvel, Heroes, tem como subtítulo "Os maiores criadores de super-heróis do mundo honram os maiores heróis do mundo". Neste caso são apenas ilustrações de página inteira, várias dezenas delas, onde encontramos nomes como Neal Adams ou Kevin Smith. E se a maioria optou por retratar os anónimos heróis das equipas de socorro, na sua missão desesperada, desinteressada, humanitária, é impossível ignorar, logo a abrir um Incrível Hulk que nos habituou a incontroláveis e violentos acessos de raiva, a revelar insuspeitada delicadeza e ternura ao levantar dos escombros o capacete de um bombeiro... Há até uma premonitória gravura que mostra duas brilhantes torres de luz no espaço vazio antes ocupado pelas Twin Towers, antecipando a homenagem real do passado dia 11 de Março...
Da DC Comics, tivemos dois volumes - 9-11Artists Respond e 9-11, The world’s finest comic book writers and artists tell stories to remember. Numa das capas, de Eisner, temos um autor de BD a desenhar no topo de um arranha-céus, enquanto que na outra, de Alex Ross, podemos ver um Super-Homem admirativo que contempla a imagem de bombeiros, polícias e outros membros das equipas de salvamento. As histórias curtas ou as ilustrações foram agrupadas tematicamente em capítulos como "Pesadelos", "Heróis" ou "Recordações". Mais uma vez, são os socorristas os novos heróis, o que não impede que também haja espaço para observarmos os super-heróis a reconstruírem torres maiores e mais altas... nos sonhos de uma criança. Uma análise um pouco mais cuidada, revelará - possivelmente sem surpresa - como são quase nenhumas as histórias ou ilustrações que falam do direito à diferença ou da necessidade da convivência harmónica entre os povos, sendo proporcionalmente mais as que falam de vingança. O maior exemplo de chauvinismo é a narrativa do veterano Stan Lee, que metaforicamente transforma os EUA num paraíso de igualdade, justiça e fraternidade, governado imparcialmente por elefantes, que é traiçoeiramente atacado por ratos de esgoto, prontamente esmagados sem piedade...
De todas, a mais interessante, em minha opinião, é, no entanto, 9-11, Emergency Relief, editada pela Alternative Comics, que agrupa clássicos como Will Eisner ou Harvey Pekar, quase desconhecidos da BD alternativa e underground, ou Frank Cho, James Kochalka, Jessica Abel, Peter Kuper, Scott Morse e Jeff Smith, que optaram maioritariamente por passar ao papel os sentimentos e emoções que viveram, contando as histórias na primeira pessoa, o que dá um cunho muito especial à obra.
Globalmente, de todas estas obras, fica a mensagem de que o sonho americano continua vivo. E que assim continuará enquanto houver quem continue a contar as aventuras dos heróis (de papel ou de carne e osso) que o personificam.

10/09/2009

11/9 - Septembre en t'attendant

Colecção écritures
Alissa Torres (argumento)
Sungyoon Choi (desenho)
Casterman (França, Setembro de 2009)
170 x 240 mm, 224 p., cor, capa brochada com badanas


Resumo

Segunda-feira, 10 de Setembro de 2001. Após um mês no desemprego, Luís Eduardo Torres, um colombiano naturalizado americano, cumpre o seu primeiro dia de trabalho na Cantor Fitzgerald, uma financeira de Manhattan, cuja sede se encontra numa das Torres Gémeas. Um verdadeiro balão de oxigénio para ele e a sua esposa, Alissa, desempregada e grávida de sete meses e meio, com uma casa recém-adquirida e um empréstimo para pagar.
No seu segundo dia de trabalho, 11 de Setembro, num atentado terrorista, dois aviões comerciais atingem as Torres Gémeas – causando o seu posterior desmoronamento. Luís Eduardo Torres foi um dos que escolheu saltar pela janela e um dos 650 empregados da Cantor Fitzgerald que perderam a vida no atentado.
Avisada por telefone, sem outra hipótese devido ao trânsito cortado, Alissa vai a pé até ao local dos atentados, chegando no exacto momento em que uma das torres se desmorona. Depois de um dia de completo caos, segue-se a ronda pelos hospitais e pelas listas de sobreviventes, na esperança de encontrar o marido, e, mais tarde, a procura de ajuda financeira entre as organizações, governamentais ou não, que criaram fundos para o efeito.

DesenvolvimentoEsta novela gráfica, testemunho pungente e autobiográfico de uma situação que foi vivida por centenas, milhares de outras pessoas após o atentado, narra a vida de Alissa – a argumentista do livro – após a perda do marido, um parto prematuro e uma enorme (e compreensível) depressão , pondo o acento na situação desesperada, na falta de informação, primeiro, depois, na burocracia e desorganização que pautou a ajuda às vítimas. Que esqueceu, muitas vezes, a sua situação de vítimas, transformando-as em números ou em valores estatísticos, complicando o que deveria ser fácil, muitas vezes aproveitando-se delas para se promoverem, entregando-os à curiosidade mórbida da comunicação social... Pelo meio – e talvez seja o aspecto mais interessante, embora tratado no livro de forma acessório – fica a forma como parentes, amigos, conhecidos ou simples anónimos, progressivamente se foram afastando de Alissa – das outras vítimas colaterais também – deixando de perceber (esquecendo…?) as suas razões, o seu sofrimento, a sua necessidade de ajuda.
O relato de Alissa, apesar de se espraiar demasiado nas sequelas do trama vivido, é bastante contido e retrata com uma força invulgar, por vezes capaz de emocionar o leitor, o desespero de quem, de repente, vê a sua vida completamente transformada, devastada, perdendo a hipótese de concretizar tantos sonhos, que nos vão sendo revelados na forma de flashbacks.
Flashbacks que servem também para recordar como Eduardo e Alissa se conheceram e, mais do que isso, para contar como ele chegou aos Estados Unidos, perseguindo o sonho americano, como conseguiu sobreviver e impor-se num mercado de trabalho adverso. Flashbacks que servem à autora para rever momentaneamente o seu marido vivo, e que justificam como ela conseguiu, no final do ano negro da sua existência que o livro cobre, encontrar na força e no exemplo de Eduardo, a força e a inspiração para reencontrar a vontade de viver.
Entregue a Sungyoon Choi, ilustradora e banda-desenhista do New York Times, o desenho, de traço fino e realista, com a base fotográfica bem diluída no todo, apesar de uma planificação variada e de uma boa legibilidade, não deslumbra nem prende especialmente, apesar de um ou outro pormenor mais conseguido. Se o tom azul utilizado em quase todo o livro, juntamente com o preto e branco, não cativa, acima de tudo, falta-lhe a emoção, os sentimentos, que o relato pedia.

A reter
- A força documental do relato, mostrando que este é um campo em que a BD (também) pode ser utilizada.
- Se soa estranha a quase total ausência do filho de Alissa no relato, especialmente como razão para continuar a viver e como (quase) única recordação (palpável) do marido, isso é – interpreto eu – mais um sinal da situação desesperada que ela viveu.

Menos conseguido
- Possivelmente a obra ganhava – em ritmo e capacidade de prender o leitor – se fosse menos extensa.
- O desenho de Sungyoon Choi.

09/09/2009

11/9 - The 9/11 Report: A Graphic Adaptation

Sid Jacobson (argumento)
Ernie Cólon (desenho)
Hill and Wang (EUA, Agosto de 2006)
152 x 229 mm, 128 p., cor, capa cartonada


A Hill and Wang, uma divisão da editora norte-americana Farrar, Straus & Giroux, anunciou para Agosto o lançamento do primeiro título da sua nova colecção "Novel Graphics", que publicará adaptações em banda desenhada de obras de não-ficção. E o primeiro título, cuja repercussão nos media americanos é já relevante, será "The 9/11 Report: A Graphic Adaptation", que recupera aos quadradinhos o relatório da comissão governamental norte-americana que reuniu e analisou todos os dados sobre os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001.
Esta novela gráfica, com 128 páginas a cores, mostra ao pormenor a crise vivida naquele dia nos EUA, devido aos ataques às Torres Gémeas e ao sequestro do voo 93. O resumo das mais de 500 páginas da versão original é da autoria de Sid Jacobson, ex-editor da Harvey Comics e da Marvel, sendo os desenhos da autoria de Ernie Cólon, que tem no seu currículo o desenho de heróis como Lanterna Verde, Mulher Maravilha, Flash ou Homem-Aranha.

(Versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias 24 de Julho de 2006)



08/09/2009

11/9 - Le 11e jour

Sandrine Revel (argumento e desenho)
Delcourt (França, Julho de 2002)
240 x 240 mm, 48 p., cor, cartonado


9 de Setembro de 2001. Sandrine Revel, jovem francesa, nascida a 3 Outubro de 1969, autora da série infantil de BD “Un drole d’ange gardien”, está no topo de uma das Torres Gémeas. De férias em Nova Iorque com um casal amigo, fá-lo pelo fascínio que sobre si exercia a cidade e também como concretização tardia de um desejo do irmão, falecido alguns meses antes. Dois dias depois, na manhã da tragédia que abalou o mundo, Sandrine acorda após sonhar com o irmão desaparecido. É isto que nos narram as primeiras pranchas de “Le 11e jour”, mais um exemplo de como a banda desenhada pode ser “um instrumento formidável para realização de reportagens ou documentários”, como afirma o também autor Étienne Davodeau. “O acaso colocou Sandrine no centro de um acontecimento histórico e, onde os media nos encheram de imagens espectaculares e de declarações tonitruantes, Sandrine conta-nos de forma íntima e ínfima o seu 11 de Setembro em Nova Iorque”.
E este é o grande trunfo de “Le 11e jour”, é uma obra muito pessoal: nele não encontramos qualquer análise político-social, qualquer reflexão sobre os motivos que terão levado aos atentados do 11 de Setembro, nem sequer foi escrito na óptica da homenagem à vítimas ou às equipas de socorro; ele conta-nos, apenas, a angústia que Sandrine viveu durante dias numa cidade estranha: “Falo muito mal o inglês, e o americano menos ainda! Quando tudo aconteceu, era verdadeiramente uma estrangeira em todos os sentidos do termo: na língua, em relação a tudo o que se estava a passar. Apercebi-me de alguma coisa, mas não compreendia”. Ou não queria compreender “de tal forma eram fortes as imagens que se viam por toda a parte”. E é este sentimento subjectivo de incompreensão que domina o álbum, servido por belíssimas cores da autora, que utiliza de forma exemplar a planificação para pontuar o ritmo da história – do exercício quase terapêutico de partilha – que nos conta. As páginas, servidas por um desenho agradável, podem ir do mais tradicional, à dispersão de desenhos sobre um mapa do metro nova-iorquino, assistir à multiplicação de pequenas vinhetas que adaptam a leitura ao seu ritmo cardíaco, ou assumir um registo quase fotográfico, que se transforma para nos transmitir a sensação de solidão, isolamento, quase delírio que a autora viveu.
“Le 11e jour” foi algo muito difícil de concretizar “porque não tenho o hábito de falar de mim, das minhas emoções, foi muito duro...” Como duro foi viver a tragédia que não vai esquecer – que não quer que seja esquecida – daí o “ter feito o álbum de BD, algo que me acompanhará, que me ajudará a construir-me, a ajustar algumas contas comigo”. Embora outras fiquem ainda por regular, como o seu medo (pavor?) de andar de avião, exemplarmente ilustrado nas últimas pranchas do álbum que marcam o regresso a casa.
Da experiência, “do grande prazer que senti a concretizar este álbum”, fica a vontade de voltar a entrar “pela porta que agora se abriu”, de voltar a experimentar o registo autobiográfico para adultos. “Achei muito excitante falar de mim, pôr-me em cena, remexer no que me toca. Transmitir emoções que podem ser muito fortes porque fui eu que as vivi...”. Que quis partilhar com os outros, como forma de terapia, porque “foi um dia muito traumatizante para todo o mundo, não apenas para mim”.

(Versão revista e actualizada do texto publicado no Jornal de Notícias de 12 de Setembro de 2002)
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