Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

31/01/2010

Entrevista com Baru

Nasceu em Thil, em 1947 e chama-se Hervé Barulea, mas este é um nome que não diz nada à maior parte das pessoas. Mas se falarmos em Baru, os que estão ligados à banda desenhada associam-no imediatamente a revistas como a "Pilote", "L'Écho des Savannes" ou "(A Suivre)" ou a obras multipremiadas como "Le Chemin de l'Amerique" ou "L'Autoroute su Soleil". Foi também um dos principais destaques da XI Edição do Salão Internacional de BD do Porto, em 2001, onde pode ser vista uma retrospectiva da sua obra, adequadamente enquadrada num cenário eminentemente suburbano, onde não faltaram sequer os destroços de alguns carros, e acabou de ser distinguido com o Grande Prémio do 37º Festival International de la Bande Dessinée de Angoulême 2010.
Nascido tardiamente para a banda desenhada, optou por esta arte, porque o cinema é "muito caro". Nascido numa família de operários, começou por experimentar um curso na área da física, que deixou para "se tornar professor de ginástica, até isso se tornar incompatível com a BD".
A banda desenhada permite-lhe "dizer o que quero a um círculo maior do que o dos meus conhecidos. Permite-me compartilhar as minhas ideias com uma audiência mais vasta. É através da banda desenhada que mostro o Mundo como o vejo. Que mostro que ele não está bem". Ou mais ainda: "Isto é um eufemismo. O Mundo está mesmo muito mal.". Porque "acho que o homem é naturalmente mau. Se aparece alguém bom é porque trabalhou muito nesse sentido. Ser bom é um combate permanente contra a nossa natureza que é má." E que pode fazer um autor de quadradinhos contra isso? "Modestamente, nas histórias que conto, mostro os podres que há no Mundo, não proponho soluções, todos as conhecemos, mas tento dar uma visão ética."
Convidado do XI Salão de BD do Porto, já tinha estado em "Portugal, nos três anos seguintes à Revolução de Abril". Já se interessava por Portugal "e antes por Espanha, porque tanto um país como outro viviam sob um regime fascista, que os oprimia. Nunca os tinha visitado, porque havia um Salazar e um Franco. Com o levantar desta hipoteca vim a Portugal para respirar o ar que então se vivia. Achei fantástica a enorme quantidade de pinturas murais que havia". E se algumas das utopias de então passaram, "assim como aquelas que França viveu após o Maio de 68, pelo menos uma coisa ficou: a possibilidade de as pessoas poderem dizer o que pensam. E já não há Salazar!".
Dos acontecimentos do passado dia 11 de Setembro diz não querer "falar numa conversa rápida e ligeira, pois o assunto é demasiado importante para isso". Estava na Alemanha e quando viu as imagens na televisão, "primeiro pensei que fossem montagens. Quando me apercebi que eram reais fiquei chocado. Mas algo deste género era inevitável, se virmos a política que os Estados Unidos desenvolveram ao longo de décadas, os desastres humanitários que provocaram na Argentina, no Chile, em África ou no Médio Oriente. Era impossível que não sofressem as consequências dos seus actos".
Autor atento à banda desenhada que se vai fazendo, entre os seus autores favoritos destaca "muitos velhos e alguns novos!" Velhos como Tardi, Pratt e Muñoz e Sampayo ("por causa de quem comecei a fazer BD") e entre os novos aprecia Blain, David B., David Mazzuchelli… No Salão do Porto destacou positivamente aspectos das obras de Rui Ricardo, Pedro Brito, Markus Huber, Jason Crane ou Marjane Satrapi.
O aparecimento de L'Association no panorama francófono e a influência que ele teve a nível europeu foram muito importantes, "pois, como são contemporâneos das facilidades das novas tecnologias de impressão abriram a porta a autores que têm uma mensagem a transmitir e interessantes e novas propostas gráficas, de renovação da própria linguagem da BD".
Para quem está a começar, diz que "não há segredos para ter sucesso em banda desenhada; para se progredir só há um processo: trabalhar, trabalhar, trabalhar; envelhecer, envelhecer, envelhecer".

(Versão revista e actualizada do texto publicado originalmente no Jornal de Notícias de 3 de Outubro de 2001)

30/01/2010

BD para Ver: Pedro Brito e João Fazenda na Mundo Fantasma

Pedro Brito e João Fazenda estão hoje no Porto para darem a conhecer diversas facetas da sua criatividade em banda desenhada, cinema de animação e ilustração.
O dia começa às 17horas, na Galeria Mundo Fantasma, no Centro Comercial Brasília, para autógrafos e a inauguração da exposição “Mosaicos suburbanos”, composta por pranchas dos livros “Pano Cru”, que tem texto e desenho de Brito, “Loverboy”, três tomos desenhados por Fazenda a partir de argumentos de Marte, e “Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos”, com texto de Brito e desenho de Fazenda. Este último, considerado o Melhor Álbum Português de BD no Festival da Amadora, em 2001, foi recentemente editado em França e na Polónia.
Depois, às 22 horas, estarão na Casa da Animação, onde serão projectados diversos filmes animados de sua autoria, entre os quais “A Estrela de Gaspar” e “Sem dúvida, amanhã” (de Brito) ou “Algo Importante” (de Fazenda e João Paulo Cotrim), seguindo-se uma conversa com os dois.
Finalmente, às 23h30, na Gesto Cooperativa Cultural, será inaugurada a mostra “Construção Civil”, uma selecção ilustrações de João Fazenda.
Pedro Brito nasceu no Barreiro em 1975, licenciou-se em Design Visual pelo IADE em 1998 e faz formação na área da animação, a que dedicou os últimos anos. Recentemente regressou à BD, com uma biografia dos UHF, a editar pela Tugaland, e tem em mãos a curta-metragem, “Fado do homem crescido”, com argumento de J. P. Cotrim.
João Fazenda, quatro anos mais novo, licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, dedica-se especialmente à ilustração para jornais e revistas, livros infantis, cartazes de cinema e capas de discos (Mariza, Carlos Paredes, Deolinda). Entre diversas distinções recebidas, conta-se o Grande Prémio Stuart de Desenho de Imprensa, em 2007.

(Versão revista e actualizada do artigo publicado originalmente no Jornal de Notícias de 30 de Janeiro de 2010)

29/01/2010

Ferd’nand retorna – Tiras de 1938

Mik (argumento e desenho)
Libri Impressi (Portugal, Setembro de 2009)
226 x 207 mm, 120 p., pb, brochado com badanas


Depois de “Surge Ferd’nand”, eis o segundo volume da edição integral das tiras diárias de Ferd’nand, criação do dinamarquês Mik, que o jornal O Comércio do Porto divulgou em Portugal durante muitos anos. Exemplo maior de tira diária muda – Ferd’nand ao longo da sua vida não pronunciou uma única palavra, o que até levou a que muitos jornais acrescentassem legendas por baixo das vinhetas para as explicar (!), o que na prática é absolutamente desnecessário – surge mais uma vez em edição bilingue (português/espanhol) – passe o contra-senso com a mudez das tiras – como forma de a tornar viável face à reduzida dimensão do nosso mercado.
Nele, reencontramos o protagonista em gags em torno de temas recorrentes como o mau tempo, cães, música, caça, pesca, tiro ao alvo ou excesso de peso, concluídos sempre de forma diferente e surpreendente, oscilando o humor entre o ingénuo, o inesperado e mesmo o nonsense.
Ferd’nand um autêntico faz-tudo, que assume as mais diversificadas profissões e cujo carácter varia de acordo com as necessidades cómicas do momento, tanto é passivo (a maior parte das vezes) como activo, engenhoso como desajeitado, citadino como campestre, corajoso como cobarde, o que possibilita uma maior liberdade criativa ao autor e constitui uma excepção à “regra” aplicada à maior parte das outras tiras diárias, de então ou de hoje. Ferd’nand, chega mesmo a falecer… para regressar incólume na tira seguinte, para nosso deleite e divertimento. Uma referência ainda para a sua relação com o belo sexo, em relação ao qual toma mesmo algumas liberdades, admirando mulheres jovens e bonitas, desejando que a sua (matrona) desapareça ou fazendo até alguns (tímidos) avanços… Mas, fruto da época - estas cenas passaram-se há 70 anos, recorde-se! -, Ferd’nand também é capaz de protestar pelo facto de a sua cara-metade usar calças…

Ao lado, com a devida vénia a Manuel Caldas, reproduzo um projecto para a capa, entretanto abandonado.

28/01/2010

Zagor #100

Burattini (argumento)
Ferri (desenho)
Mythos Editora (Brasil, Julho de 2009)
135 x 179 mm, 132 p., cor, brochada

Para o ser humano, amante de números redondos, uma publicação periódica atingir os 100 exemplares é sempre motivo de destaque. Tratando-se de uma revista de banda desenhada, ainda mais, seja qual for o país em que é editada.
É o caso da revista mensal “Zagor” que, na sua quarta “vida” brasileira, depois de passar pelas editoras Vecchi, RGE/Globo e Record, consegue atingir a centena de números na Mythos Editora. Para celebrar o facto, foi escolhida uma aventura de 2007, publicada originalmente no “Zagor” #500 italiano (outro número “redondo”, ainda mais invejável), intitulada “Magia Indígena”.
Para realçar o carácter especial deste número, que neste momento pode ser encontrado nas bancas portuguesas, o interior, ao contrário do que é habitual, é completamente a cores. Não a cor a que estão habituados os leitores de comics ou de BD franco-belga, mas um colorido mais plano, “aplicado directamente” sobre o preto e branco do desenho, mas que mesmo assim dá uma outra perspectiva de um dos heróis mais carismáticos da Casa de Ideias Bonelli, criado em 1961 por Guido Nolitta (pseudónimo do próprio Sergio Bonelli) e Gallieno Ferri. A edição é complementada com um dossier de 30 páginas, que revisita a história de Zagor, o seu percurso no Brasil, inclui depoimentos de Sergio Bonelli, Gervásio Freitas e dos editores e reproduz 21 capas “falsas” de Zagor, feitas por diversos autores em homenagem a Ferri, autor das quinhentas (!) capas da edição italiana.
A história deste número especial começa evocando o estatuto particular de Zagor junto dos índios, e ganha consistência quando um antigo inimigo do protagonista, supostamente morto, regressa para se vingar. Ela tem a particularidade de funcionar de alguma forma como uma celebração da série e dos seus diversos autores, com o herói a enfrentar – em condições especiais que convido o leitor destas linhas a descobrir – alguns dos vilões mais marcantes que derrotou ao longo dos anos, cada um deles criado por um argumentista diferente, dos vários que já assumiram as rédeas das aventuras do senhor de Darkwood.
Centrado especialmente em torno de Zagor – com Chico reduzido a um papel passivo de quase observador, o que contribui para reforçar o tom heróico da narrativa – é uma história que decorre em bom ritmo, com as peripécias, as situações perigosas e as surpresas a multiplicarem-se, até ao desfecho final. E não tendo mais pretensões do que ser uma banda desenhada de aventuras ligeira, cumpre a sua missão e pode ser um bom cartão de visita para quem não conhece o herói e pretende pôr de parte alguns preconceitos que estas edições populares (na temática, baixa qualidade gráfica e preço) geralmente provocam.


(Texto publicado originalmente no Blog do Tex, a 27 de Janeiro de 2010)

27/01/2010

Happy Living

Jean-Claude Gotting (argumento e desenho)
Delcourt (França, Outubro de 2007)
203 x 262 mm, 128 p., cor, cartonado com sobrecapa com badanas


E se o autor da terceira melodia mais tocada de sempre não tivesse escrito uma única nota dela, antes a tivesse "roubado" de ouvido ao seu alcoolizado compositor?
É esta confissão, motivada pelos remorsos, do autor de "Happy Living", tema fictício que dá título a mais uma edição da interessante colecção "Mirages" (Delcourt), que vai arrastar François Merlot, um jornalista francês que prepara o primeiro livro, sonhando com fama e sucesso, numa longa investigação pelos EUA, de Nova Iorque à Costa Oeste. Investigação que o vai levar a diversas descobertas - algumas bem surpreendentes - que ilustram o âmago do ser humano e as reais motivações por detrás de atitudes banais ou altruístas, espontâneas ou calculadas, e a questionar-se a si próprio e às suas opções de vida.
Este elegante romance gráfico, criado por Jean-Claude Gotting, é também um pequeno passeio pelo jazz de meados do século passado, traçado a negro, num estilo agreste, semi-realista, marcado pelo estatismo das personagens - fruto da dedicação do autor à pintura e à ilustração antes deste (conseguido) retorno à BD? - que faz com que cada vinheta se assemelhe a uma foto envelhecida…
O que não significa que falte ritmo à obra, sendo ele transmitido pelo texto, marcante, bem trabalhado, credível, envolvente - quase musical - e pela utilização sucessiva de diferentes planos na ilustração das muitas conversas que a pontuam.

(Texto publicado originalmente no Jornal de Notícias de 4 de Novembro de 2007)

26/01/2010

Mia

Man (argumento e desenho)
Dargaud (França, Janeiro de 2008)
240 x 130 mm, 80 p., cor, cartonado

Mia é uma adolescente que sofre de bulimia. Desde pequena, sente uma necessidade imperiosa de vomitar tudo o que come. Por isso, apesar de bonita e sensual (tem as medidas de uma top-model…) - e também porque os pais não a compreendem - sente-se só e abandonada por todos, e sente inacessível aquele por quem se apaixonou, por quem vai todos os dias à biblioteca da universidade (que ainda não frequenta) tentando ganhar coragem para lhe falar.
Ele, é Dany. Que parece ter tudo para ter sucesso na vida: atraente e rico, que mais desejar? A atenção do pai, que lhe dá tudo menos aquilo que ele deseja: companhia, solidariedade, interesse.O caminho de ambos vai-se cruzar, numa armadilha do destino, que leva a que Dany seja raptado no exacto momento em que Mia ganhou coragem para falar com ele - ainda que só para lhe perguntar as horas… E que faz com que Mia seja a única a reagir, acabando por ser também levada pelos raptores, interessados em receber um belo resgate pelo rapaz.
Finalmente juntos, numa situação extrema, encontram-se e encontram no fundo de cada um as forças desconhecidas que os farão dar as respostas necessárias e poderem encarar juntos (até quando) um futuro mais que duvidoso.
Porque apesar do aparente happy end, a verdade é que o catalão Man deixa bem claro que todos os problemas continuam. E somos obrigados a pensar que, às vezes, é mais fácil encarar situações extremas do que viver o dia-a-dia, igual e monótono, aceitando as diferenças dos outros. Porque num relato aparentemente de tom policial, é às relações humanas - e de cada um consigo mesmo - que o autor dá todo o destaque, arrastando-nos até ao âmago de Mia e Dany.
Graficamente atraente, com um traço limpo de pormenores desnecessários, em que as expressões fisionómicas são o mais marcante, com uma planificação multifacetada e dinâmica, a obra trilha um caminho que muitos, possivelmente, vão seguir nos próximos tempos: o cruzamento entre o grafismo asiático e a construção narrativa ocidental, embora sejam claramente inspirados naquele género algumas sequências mudas (ou quase), em que a imagem ganha toda a força da narração.

(Versão revista e actualizada do texto originalmente publicado no BDJornal #22 de Janeiro/Fevereiro de 2008)

Palhaço

Quentin Blake (argumento e desenho)
Caminho (Portugal, Outubro de 2009)
220 x 308 mm, 32 p., cor, brochado


Embora a data de nascimento da banda desenhada tenha sido (mediaticamente) estabelecida em função da utilização de balões de fala, este “Palhaço” é um belo exemplo de como uma BD muda – sem palavras escritas, entenda-se – pode ser tão eloquente e expressiva.
É verdade que a sua ideia base é simples e até pouco original: uma série de bonecos velhos (ultrapassados pela tecnologia?) são deitados ao lixo na sequência de uma arrumação – depreende-se porque, uma das características da banda desenhada é permitir ao leitor perceber/intuir/adivinhar, o que nela não está escrito/desenhado. Entre eles está um palhaço que – numa bela e maravilhosa efabulação – ganha vida e parte em busca de uma nova dona. A primeira escolha falha, devido ao seu pobre aspecto (de brinquedo de pobre). Mas, após algumas peripécias divertidas, com a ternura que os contos infantis (ainda) sabem ter, acaba por encontrar quem realmente precisa dele, conseguindo ainda resgatar os seus antigos companheiros de brincadeira para alegria geral, mostrando como a felicidade pode estar nas coisas simples.
O que faz a diferença nesta narrativa – galardoada com o prémio Bologna Ragazzi – é o traço do autor, próximo do cartoon, simples mas mais pormenorizado do que parece indicar uma leitura rápida, ágil, vivo extremamente expressivo, bem tingido – de forma parcimoniosa mas muito eficaz - por cores suaves e alegres.
E se esta é uma BD sem palavras, é também uma BD a cujas pranchas faltam também (quase todos) os enquadramentos, o que de forma alguma serve para dificultar a sua leitura, servindo para lhe conferir uma grande liberdade (também visual), dotando-a de movimento e acentuando o seu ritmo vivo e o seu tom maravilhoso.

(Texto publicado originalmente a 23 de Janeiro de 2010, na página de Livros do suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

25/01/2010

Efeméride – Quick e Flupke, dois diabretes octogenários


Se é normal associarmos o nome de Hergé a Tintin, a sua obra maior e uma das bandas desenhadas mais celebradas de sempre, o autor criou outros heróis, entre os quais Quick e Flupke, que há 80 anos eram vistos pela primeira vez em papel impresso. Tratava-se de dois pequenotes de Bruxelas – revisão ficcionada da própria infância de Hergé – juntos pela amizade, pela vontade de experimentar coisas novas e pela especial queda para provocar (pequenos) desastres.
A estreia ocorreu no “Le petit Vingtiéme” de 23 de Janeiro de 1930, pouco mais de um ano depois de Tintin, e as diferenças entre as duas criações eram significativas. Enquanto o repórter era (viria a ser…) longas aventuras, viagens, exotismo, justiça e ordem, Quick e Flupke não saíam da sua Bruxelas natal e viviam um quotidiano igual ao dos outros miúdos mas suas partidas provocavam o caos e desesperavam o Guarda 15, vítima recorrente das diabruras em duas pranchas.

O humor em Quick e Flupke, mais tarde decalcado em Tintin para os gags com Haddock ou Tournesol, raia muitas vezes o nonsense, pode ter conteúdos sociais ou politizados (como quando satirizam Hitler e Mussolini), representa-os como diabos (literalmente) e levava-os mesmo a chocar com os limites físicos das vinhetas ou a interagir com o desenhador.
E se o traço é o mesmo de Tintin, sente-se uma maior liberdade criativa e o privilegiar da eficácia estética e narrativa.
Com cerca de 250 pranchas publicadas (de forma irregular) durante uma década, Quick e Flupke tiveram uma nova vida nos anos 80, em versão animada e em álbuns redesenhados e coloridos pelos Estúdios Hergé, a partir das histórias originais. Esta última edição foi lançada em Portugal pela Verbo, com os heróis rebaptizados como Quim e Filipe.
(Artigo publicado originalmente no Jornal de Notícias de 23 de Janeiro de 2010)

22/01/2010

Bonne nuit les petits

Stéphane Lenglet (argumento)
Olivier Mau (desenho)
Casterman (França, Agosto de 2009)
226 x 323 mm, 80 p., pb, cartonado

“Bonne nuit les petits” é um conto urbano curto, (muito) negro e trágico, irónico, cruel e provocador sobre juventudes difíceis e vidas desperdiçadas. É narrado com textos directos e incisivos num preto e branco (e bem aplicados cinzentos), assente num traço generoso semi-caricatural e numa planificação heterogénea e dinâmica.
“Bonne nuit les petits” é a história de Jeanne, que sonha ser actriz, mas perde o seu quotidiano correndo do part-time na livraria para castings duvidosos, de dobragens mal (e tardiamente) pagas para trabalhos de publicidade desinterssantes ou o bar onde toca. Uma jovem de 18 anos, há dois a viver só - solitária - que o pai abusou na infância e que por isso (quase) foge dos homens, mas que continua a sonhar com o dia em que por uma vez se cruzará com a sorte que até agora nunca teve.
E é a história de Fabrice, filho de milionários que sempre lhe deram tudo - tudo menos a atenção e amor de que precisava - que cresceu sozinho apesar dos muitos amigos que as suas festas atraíam, que, no dia em que faz 18 anos, mais uma vez com o pai (sombra ameaçadora sempre) longe, pensa que é altura de (finalmente) fazer uma opção, tomar uma decisão…
Uma jovem esforçada, em muitos aspectos ainda presa à (inocência da chupeta da) infância. E um jovem arrogante, preso apenas à sua própria inutilidade.
Tão distantes em tantas coisas, mas tão próximos em muitas outras, Jeanne e Fabrice vão acabar por se cruzar, como desde o início o leitor intui, embora não vislumbre como. Em mais uma festa dele, em mais um part-time dela. De forma inolvidável para todos os que assistiram… mas que deixo ao leitor descobrir, para não estragar a surpresa do (happy-end?) final.

Jacques Martin (1921-2010)



Como nota de rodapé, fica a informação de que a ASA juntamente com o jornal Público vai em breve reeditar diversos títulos de Alix, escolhidos entre aqueles que a editora ainda não tem no seu catálogo.

21/01/2010

BD e Literatura - L’Obéissance

Frank Bourgeron
(argumento e desenho, a partir do romance de François Sureau)
Futuropolis (Novembro de 2009)
217 x 296 mm, 80 p., cor, cartonado

Resumo
Em plena Primeira Guerra Mundial, o governo belga solicita ao seu homónimo francês o empréstimo de uma guilhotina e de um carrasco para executar um condenado à morte, Préfaille, preso numa zona ocupada pelos alemães. A razão do pedido ? Há mais de 80 anos que não há execuções na Bélgica, pelo que também não existem profissionais – carrascos – habilitados para o efeito...
A França aceita o pedido e envia Deibler, o executor, com a sua preciosa máquina de matar devidamente desmontada e encaixotada, sob a escolta de um pequeno grupo comandado pelo tenente Verbruge, após conseguir os necessários salvo-condutos da parte dos diversos exércitos envolvidos (francês, belga, alemão, inglês).

Desenvolvimento
Embora soe a anedota de mau gosto, esta adaptação do romance homónimo de François Sureau (Gallimard, 2006), tem por base uma história verídica, que mostra como os governos envolvidos numa guerra fratricida, embora incapazes de chegar a um consenso para promover a paz, conseguem facilmente acordos para ceifarem uma vida a mais (mesmo que isso coloque em risco diversas outros seres humanos).
De qualquer forma, o cerne da história gira em torno da obediência cega que o exército impõe – e que tantos dos seus homens cultivam – de tal forma que Verbruge, que perdeu um braço na guerra, ao receber as suas ordens, nem sequer questiona porque foi condenado à morte Préfaille. E, dias depois não admite sequer questionar se elas se mantêm, quando alterações profundas na frente de batalha o aconselhavam.
O seu grupo, composto por voluntários, é heterogéneo e singular e é pena que não tenham sido aprofundadas as suas diferenças e motivações: Deibler, que só sai de Paris obrigado e que passa os dias a relatar ao pormenor em pequenos cadernos as suas execuções; o seu ajudante, Desfourneaux, que ama a lâmina da guilhotina mais do que a própria vida; o interesseiro Faucon, que não hesita em seduzir e possuir a esposa do carrasco mesmo antes da partida… Um grupo cujos pensamentos – que servem de fio condutor à narrativa - vamos conhecendo, embora por vezes seja complicado compreender quem “pensa” naquele momento, o que retira fluidez à banda desenhada que também é afectada por algum excesso de texto.
Juntos, mas não unânimes, com algumas tensões latentes mas contidas pela necessidade de obedecer, embrenham-se no campo de batalha, sofrem bombardeamentos – de oponentes e aliados - por duas vezes, cruzam as linhas inimigas e acabam por chegar a Fresnes, onde Préfaille, que denota algum atraso mental, aguarda numa cela, acusado de um crime (relativamente) menor e inexplicável e cuja única vontade é pôr rapidamente um fim aquela situação.
Este relato que seria burlesco, se não fosse tão trágico e pesado, é feito por Bourgeron com um traço grosso, não rude como aparenta mas elegante, que no entanto se revela pouco indicado para o tratamento da figura humana, em especial ao nível dos rostos que, por vezes, se torna difícil distinguir. Mas que se torna bem mais interessante quando aplicado de forma depurada aos cenários – urbanos ou não – como nas páginas 37, 38 ou 45, em que é realçado pela ausência de texto.
A utilização exclusiva de tons – escuros - verdes e cinzentos e a opção pela pintura das personagens com uma só cor, acentua o tom sombrio desta história interessante mas cujas limitações apontadas não deixam entusiasmar, sobre uma missão absurda criada para satisfazer caprichos de políticos que tomam decisões sentados nos seus gabinetes, longe da realidade.

A reter
- A elegância do traço de Bourgeron.
- O travo amargo que o absurdo da ideia base deixa.
- A forma subtil como o relato expõe temas incómodos, sempre recorrentes, como a obediência cega, a pena de morte ou o patriotismo.

Menos conseguido
- A dificuldade de distinguir as personagens e os seus pensamentos.
- A forma como isso obriga a parar e a voltar atrás na leitura, comprometendo a fluidez da leitura.

20/01/2010

Portugal aos quadradinhos (II) – MKM, Mega-krav-maga #1

Lewis Trondheim (ideia)
Mathieu Sapin e Frantico (argumento e desenho)
Delcourt (França, Janeiro de 2010)
120 x 180, 190 p., pb, brochado com sobrecapa com badanas

Resumo
Convidados para participarem no (fictício) Blogadores Festival de Lisboa, Frantico e Sapin acabam por se ver envolvidos numa mega-tramóia em torno do Mega-krav-maga, uma versão muito aperfeiçoada da arte de combate pessoal criada pelo exército israelita.

Desenvolvimento
A primeira meia centena de pranchas desta banda desenhada dizem respeito à presença dos dois autores no (fictício) festival português e apresentam, nos seus estilos peculiares, relativamente próximos, baseado num traço rápido, quase só esquemático, expressivo e legível, apesar de maioritariamente passadas em interiores (do hotel e de restaurantes) algumas paisagens da capital portuguesa que, possivelmente, não seriam reconhecíveis se não soubéssemos que ela servia de cenário à história. A isso, Sapin e Frantico, juntam alguns clichés e preconceitos pouco abonatórios dos portugueses, num inexplicável auto-convencimento de superioridade, postura também cultivada habitualmente por Lewis Trondheim em relação aos locais que a sua profissão obriga (!?) a visitar.
Este, é o mentor do projecto, publicado no formato Tankobon próprio dos mangas, agora adoptado para a colecção Shampooing que dirige na Delcourt e inicialmente publicado num blog criado para o efeito (http://www.megakravmaga.com/index.php?id=2009-12-16).
Se esta BD tem um início (aparentemente) autobiográfico (pois os dois autores vão intercalando pranchas desenhadas por um ou por outro com o relato da sua presença no festival português), transforma-se rapidamente num delírio ficcional em torno da eventual existência de uma versão melhorada do Krav-maga, a técnica de combate desenvolvida pelo exército israelita.
Mas tudo vai precipitar-se quando Sapin e Frantico são abordados numa rua lisboeta por um ucraniano (!) que num anterior contacto lhes propusera droga próximo de uma esquadra de polícia. Neste segundo encontro propõe-se revelar-lhes os segredos do Mega-Krav-Maga, uma técnica de combate pessoal até hoje desconhecida por ser mantido em grande segredo pelos que o praticam, para atraírem maior atenção para o seu blog.
Seduzidos pela demonstração do ucraniano, os autores exemplificam-na nas suas pranchas, divulgadas na net, ficando assim sob ameaça de morte por revelarem os segredos daquela arte, tão ciosamente mantidos até então.
Começa então um périplo rocambolesco (quase) planetário, pontuado por segredos, confrontos, fugas e mortes, que leva os dois autores por percursos separados, cada um mantido cativo por uma das sociedades rivais que defende o MKM, que em tom leve e descontraído, apresenta alguns momentos divertidos mas peca pela extensão do relato, que só se concluirá num segundo tomo, a publicar já em Fevereiro.

A reter
- A maneira como os autores conseguem subverter o espírito do Krav-Maga, exagerando no uso da capacidade de antecipação como sua principal arma.
- Alguns momentos bem conseguidos, como a sequência em que Frantico simula a fuga por diversas vezes, sem nunca a concretizar.
- As divertidas “cartas” MKM que ilustram a contracapa e o interior das badanas.

Menos conseguido
- A extensão do relato.
- Alguma confusão inicial na identificação das personagens, devido às diferenças entre o traço dos dois desenhadores que, no entanto, se atenua com o decorrer do relato.

Curiosidade
- O Krav Maga ("combate próximo, fechado" em hebraico) é um sistema de defesa pessoal criado na década de 1940 para capacitar os grupos que lutavam pela independência do Estado de Israel. Não é considerado um desporto porque não tem uma vertente competitiva uma vez que não existem regras que limitem esta arte de combate. Todos os golpes são permitidos e treinados de forma a ultrapassar todo e qualquer tipo de situação de violência do modo mais rápido e eficaz possível.

19/01/2010

Nas bancas – Janeiro

Segundo o Blog do Tex, durante este mês estarão nas bancas portuguesas, para além de títulos de qualidade garantida, como J. Kendall ou Mágico Vento, a conclusão de “El Muerto”, uma das melhores histórias de Tex e também “Oklahoma!”, outra emblemática aventura do ranger, bem como a centésima edição de Zagor, integralmente a cores.
Eis a rlação completa das edições da Mythos Editora:

- TEX 451 - Fuga na Neve (Mauro Boselli e Miguel Angel Repetto)
- TEX COLEÇÃO 243 - A Colina dos Pés Juntos (Continuação da aventura El Muerto, Guido Nolitta e Aurelio Galleppini)
- TEX OURO 35 - Oklahoma! (Giancarlo Berardi e Guglielmo Lettèri)
- ZAGOR 100 - Magia Indígena (Moreno Burattini e Gallieno Ferri)
- ZAGOR EXTRA 64 - Caça ao Lobo (Capone e Polese)
- J. KENDALL - AVENTURAS DE UMA CRIMINÓLOGA 57 - Os Guerreiros (Giancarlo Berardi, Maurizio Mantero e Enio Legisamón)
- MÁGICO VENTO 86 - O Filho de Nuvem Vermelha (Gianfranco Manfredi, Giovanni Talami e Stefano Biglia)

Entretanto, as edições da Panini também já começaram a chegar às bancas, sendo de assinalar que a Turma da Mónica Jovem entra no seu segundo ano de publicação, a revista do Homem-Aranha traz o arco completo de A primeira Caçada do Kraven, com este último numa versão feminina, e que a saga Batman - RIP está no seu prólogo na revista do Homem-Morcego.
Segundo o site da editora, eis a data de chegada às bancas dos vários títulos distribuídos este mês:

- 14/01/2010 - Mónica nº 31, Cebolinha nº 31, Cascão nº 31, Homem-Aranha nº 90;
- 15/01/2010 - Magali nº 31, Chico Bento nº 31, Saiba Mais Turma Mónica nº 23, X-Men nº 90;
- 18/01/2010 - Almanaque Mónica nº 16, Almanaque Cebolinha nº 16, Almanaque Cascão nº 16, Novos Vingadores nº 65;
- 19/01/2010 - Ronaldinho Gaúcho nº 31, Turma da Mónica Parque nº 31, Almanaque Temático Cebolinha nº 11, Superman & Batman nº 47, Avante Vingadores nº 29;
- 20/01/2010 – Turma da Mónica Jovem nº 13, Mauricio Apresenta nº 7, Batman nº 79, Superman nº 79, Wolverine nº 54;
- 21/01/2010 – Colecção Histórica Mónica nº 12, Almanaque Astronauta nº 5, Almanaque Tina nº 6, Universo Marvel nº 47, Contagem Regressiva nº 13, Liga da Justiça nº 78.

The Squirrel Mother

Megan Kelso
Fantagraphics Books (Estados Unidos, Junho de 2006)
165 x 216 mm, 136 p., cor, cartonado


"The Squirrel Mother" é uma compilação de histórias criadas por Megan Kelso entre 2000 e 2005, de que a Fantagraphics Books, fiel à sua tradição, fez um belo objecto, que delicia os olhos antes da mente. Porque este é um daqueles livros que dá prazer só pelo ver e sentir, desde a textura levemente rugosa da capa às cores suaves e aconchegantes utilizadas, complemento ideal do traço fino, pormenorizado e expressivo da autora. Que contrasta, depois, com a crueza - o realismo… - de algumas histórias.
Porque o que Megan Kelso nos conta são vidas. Melhor, pedaços, pedacinhos de vidas. Dela ou de outras com quem se cruzou ou que a sua imaginação criou. Uma mãe (esquilo?) que trocou os filhos pelos seus sonhos - ilusões? Umas férias - sonhadas e de sonho - mostrados como que em slides (ainda alguém os usa?). Ou outras férias que, embora mais sonhadas - não é a adolescência a idade de todos os sonhos? - foram bem menos felizes. Adolescência que é tema recorrente, com as dificuldades, erros e dúvidas próprias da idade.
Pedacinhos de vida que mostram também a crueldade inocente (?) das crianças, a magia da dança, o valor de certos objectos. Pedacinhos de vida a que Megan Kelso faz uma abordagem simples e delicada, quase só expositiva, sem (falsas) morais nem (pretensiosas) lições, em histórias curtas que se lêem num ápice mas que, às vezes, nos deixam a pensar.

(Texto publicado originalmente no Jornal de Notícias de 27 de Agosto de 2006 )

Fora das Livrarias - Surdos, 100 piadas!

Marc Renard (argumento)
Yves Lapalu (argumento e desenho)
Surd’Universo (Portugal, Outubro de 2009)
163 x 236 mm, 112 p., cor e pb, brochado


Depois da edição de “Leo, o puto surdo”, em 2006, a Surd’Universo (www.surduniverso.pt/) volta a apostar na BD e no cartoon para chamar a atenção para as dificuldades que os surdos vivem no seu dia-a-dia, num mundo feito para ouvintes.
Lapalu – também ele surdo - com um traço humorístico, vivo, dinâmico e agradável, típico da BD humorística franco-belga, quase sempre a preto e branco, mas que ganha quando utiliza cor, revisita anedotas conhecidas, casos reais ou histórias divertidas, em que os surdos e aquilo que lhes diz especificamente respeito (aparelhos auditivos, linguagem gestual, etc.) são os protagonistas.
O todo, de leitura agradável, mas que obriga a (re)pensar como é importante ouvir, está recheado de situações bem humoradas, provocadas pela falta de audição que implica, muitas vezes, desfechos inesperados para situações vulgares, como um intercomunicador avariado ou um simples jogo de futebol.
E concluída a leitura, o trocadilho com o título do livro é inevitável: não são surdos sem piadas, são até bem divertidos.

(Versão revista do texto publicado originalmente a 14 de Novembro de 2009, na página de Livros do suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

15/01/2010

L’Ancien temps – I. Le roi n’embrasse pas

Joann Sfar (argumento e desenho)
Gallimard Jeunesse (França, Novembro de 2009)
230 x 310 mm, 144 p., cor, cartonado

Resumo
Num país desconhecido, povoado de estranhos seres, onde o ciclo da água acontece ao contrário, com os rios a correrem da foz para a nascente e a chuva (e as lágrimas) de baixo para cima, encontramos Pape, um velho feiticeiro, que, por vezes, funciona como narrador da história, despoletada por uma mentira sua. Os protagonistas são a sua neta, Nadége, uma jovem feiticeira com o poder de se transformar em raposa, que não quer prender-se para poder conhecer mundo - e outros amor(es) -, e o seu apaixonado, Cassian, um jovem de coração puro, que quer casar e ter filhos com ela, encarregado da missão de a seguir e proteger com uma serpente-espada. Involuntariamente causa a morte do rei (do título, que não quis abraçar Nadége) e origina os acontecimentos que dão corpo a uma saga épica e fantasiosa assinada por Joann Sfar.

Desenvolvimento
Tudo se desenrola num universo medieval fantástico, que Sfar vai desenvolvendo prancha a prancha, povoando-o de seres estranhos mas cativantes (a rainha viúva, a árvores falante, o gigante que gosta de dormir, o Deus Único que só alguns conseguem ver, o licorne, o dragão…) e acontecimentos espantosos, leis surpreendentes e magia poderosa.


Com eles, dá corpo a uma busca misteriosa e filosófica, por vezes dramática, durante a qual discorre – ou as suas criações por si… – sobre amor, paixão, dever e religião, o medo do abandono e da solidão, cruzando referências (infantis, da literatura, da BD, do fantástico e da heroic-fantasy), apontando pistas e caminhos, questionando postulados, insinuando dúvidas, invertendo estereótipos, fugindo das certezas e do que habitualmente é tido como absoluto e imutável. Mas deixando ao leitor a decisão final.
E apesar disso, fá-lo sem que a banda desenhada em si, sofra em termos de dinamismo, ritmo ou capacidade de prender o leitor pelo que, ao fim de quase centena e meia de pranchas que se lêem de um fôlego – embora por vezes seja preciso relê-las ou voltar atrás, para apreender todo o sentido que Sfar dá a palavras e situações, uma vez que este relato aparentemente infanto-juvenil é em muitas passagens extremamente adulto e complexo, com uma linguagem com duplo sentido – fica o desejo de que o segundo tomo venha depressa. O que só torna mais surpreendente saber – ou aperceber, porque isso é notório nalguns trechos - que o relato foi escrito ao correr da pena, sem plano prévio.
Com o seu traço personalizado, em que as vinhetas não assumem forma definida e em que a forma humana (ou não) e o funcionamento anatómico dos corpos é menos importante do que aquilo que estão a representar, desta obra emerge mais uma vez o dom narrativo que Sfar possui, a sua necessidade de contar e transmitir, a invulgar capacidade de ligar traço e palavras nesta arte a que se chama banda desenhada.

A reter
- A premência narrativa de Safar que exala da obra e obriga o leitor a correr atrás dos protagonistas, querendo saber sempre mais e mais deles.
- A forma como a história, falsamente simples, num universo regido por leis estranhas (absurdas?) prende e cativa o leitor e o prende página após página.
- O dinamismo da planificação e do traço.
- A perfeita interligação texto/desenho.

Menos conseguido
- Sfar, como outros autores da sua geração, dificilmente venderá obras pelo desenho, pouco propício a ser apreciado pelos cultores do traço clássico. São eles que perdem.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...