Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

31/05/2010

Fábio Moon e Gabriel Bá na Mundo Fantasma


Vindos do VI Festival Internacional de BD de Beja, os gémeos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá estarão amanhã, dia 1 de Junho, às 17 horas, na Galeria Mundo Fantasma, na livraria com o mesmo nome, no Centro Comercial Brasília, no Porto, para uma sessão de autógrafos e para a inauguração de uma exposição de originais, que ficará patente até 11 de Julho e que foi complementada com a edição de um giclée original de Fábio Moon, aqui reproduzido.
Nascidos em 1976, formados em Artes Plásticas, em apenas 10 anos passaram do anonimato do fanzine autobiográfico e auto-editado “10 pãezinhos” a autores em destaque no competitivo mercado norte-americano, graças a títulos como “Casanova”, "Pixu", “Umbrella Academy” (escrita por Gerard Way, vocalista dos My Chemichal Romance) ou “BPRD 1947” (de Mike Mignola, criador de Hellboy).
A conquista de diversos troféus Eisner – os mais importantes da indústria norte-americana de quadradinhos – possibilitou-lhes continuarem a desenvolver obras mais pessoais (e mais estimulantes) como a tira semanal “Quase nada” (no Brasil) ou a mini-série “Daytripper” (em curso nos EUA, numa edição da Vertigo) em que abordam questões do quotidiano, mostrando como as escolhas que se fazem (ou não) são determinantes para a vida.

Tex em cores #1 – O Totem Misterioso

Gianluigi Bonelli (argumento)
Aurelio Galleppini (desenho)
Mythos Editora (Brasil, Outubro de 2009)
160 x 210 mm, 252 p., cor, brochada


Resumo
Esta edição, já nas bancas e quiosques nacionais) compila as primeiras tiras de Tex*, dando assim a possibilidade de (re)descobrir, mais de 60 anos depois, agora numa edição colorida, as primeiras histórias de Tex Willer, o mais antigo cow-boy dos quadradinhos ainda em publicação

Desenvolvimento
Se não vou aqui debruçar-me sobre o início de Tex – já outros o fizeram melhor – há alguns aspectos que quero realçar.
Desde logo, a variedade temática das diversas histórias, todas westerns, é evidente, mas com pontos de partida e enredos diferentes.
Depois, o seu ritmo intenso e envolvente, devido aos muitos assaltos, emboscadas, raptos, tiroteios e mortes que se sucedem, numa evocação dos melhores westerns cinematográficos.
Ainda, a forma ágil e dinâmica como estão desenhadas, como frequentes mudanças de ponto de vista e até alguns efeitos surpreendentes, como a trajectória da bala que passa entre duas vinhetas, logo na tira 7 da primeira história.
Finalmente, o invulgar número de mulheres presentes neste volume, com protagonismo e de forma interveniente. E que são belas, sedutoras (graças à mestria de Galep) e – oh, surpresa! – (muito) interessadas em Tex! A começar por Tesah, e no seu provocador vestido “sobe-e-desce”, que surge num terço das vinhetas do primeiro capítulo. E continuando com Joan, Florecita, outra Joan, Marie Gold… Simples vítimas ou não, de um ou outro lado da lei… Como não seria hoje o ranger, se esta tendência se tivesse perpetuado ao longo dos anos?!

A reter
- A edição, de maior formato, igual ao italiano, com bom papel, boa impressão e dois (interessantes) textos introdutórios, de Júlio Schneider e do próprio Sergio Bonelli.
- A cor, por permitir levar Tex a leitores que de outra forma não o descobririam.

Menos conseguido
- A cor, inferior aquela a que estão habituados os leitores de banda desenhada franco-belga e de comics norte-americanos. Por ser lisa, sem tons intermédios e não fazer jus ao traço original de Galleppini.
- O facto de o último capítulo ter sido interrompido a meio, na tira 16. Aceitando o argumento de que por razões técnicas é necessário ter um número fixo de páginas, seria com certeza possível (e preferível) ter preenchido as últimas 5 com textos sobre o herói, os autores ou a colecção, em lugar de deixar o episódio a meio.

Curiosidades
- * Tex, nasceu no formato comummente chamado de “talão de cheque” no Brasil, em edições “deitadas”, com 32 páginas, correspondentes a outras tantas tiras, com 2 a 4 vinhetas.
- Esta edição baseia-se na Colezione Storica a Colori, lançada em 2007 em Itália para ser vendida com o jornal “La Reppublica” e a revista “L’Espresso”, com capas originais de Cláudio Villa. Inicialmente pensada para 50 volumes, depois alargada para 80, hoje vai já no nº 174 (e mais de 10 milhões de exemplares vendidos), devendo terminar no nº 200, numa clara demonstração de que o ranger continua a ser um enorme sucesso no seu pais de origem.

- A colecção da Mythos tem garantidos seis tomos bimestrais, estando a sua continuação dependente do volume de vendas; bom sinal é o facto de o primeiro número ter esgotado, tendo sido necessário proceder a uma reedição.

28/05/2010

Ananke

Noirgaley (argumento)
Erwin Madrid (desenho e cor)
Delcourt (França, Maio de 2010)
226 x 298 mm, 48 p., cor, cartonado


Resumo
Lilou é uma menina de uns seis a oito anos que se sente sozinha, desde que a mãe está doente no hospital. Anita, é uma velha senhora, atacada pela artrite, que se sente cansada e também sozinha, apesar de continuar a gostar muito da vida.
O acaso vai fazer com que ambas vão à mesma praia, no mesmo dia, à mesma hora, acabando por se encontrar e partilhar uma estranha e longa viagem.

Desenvolvimento
Metáfora sobre a vida e aquilo que podemos fazer dela, mais do que aquilo que dela devemos esperar, Ananke – designação daquela que personificava o destino, a fatalidade, na mitologia grega - é um pequeno conto poético, possivelmente mais indicado para leitores (um pouco mais) maduros do que aqueles que contempla a colecção Jeunesse em que está integrada, apesar da sua simplicidade.
Nela, juntamente com Lilou e Anita, somos levados numa viagem iniciática (cuja razão para a partida no entanto não se percebe no relato), por uma dimensão desconhecida (aquela que poderá existir entre a vida e a morte?), por vezes maravilhosa, por vezes assustadora, que irá criar entre elas um forte laço e ajudá-las a tomar decisões e a escolher (novos) rumos para as suas vidas.
Narrativa linear, de tom leve, a que se pedia (alguma) emoção, Ananke tem como principal base de sustentação o desenho, claramente inspirado no cinema de animação, agradável e trabalhado digitalmente, ou não tenha o filipino Madrid trabalhado na Dreamworks em filmes como Shreck 2 e 3, Madagáscar ou Megamind.

27/05/2010

VI Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja

Começa sábado e prolonga-se até dia 13 de Junho este certame já incontornável no panorama nacional dos quadradinhos. Como habitualmente, o primeiro fim-de-semana congrega todos os (muitos) convidados, sendo por isso o mais indicado para quem queira falar com eles ou conseguir alguns autógrafos.
Depois, durante duas semanas, ficam as exposições, que este ano são 21: Aldeia das Amoreiras, Dame Darcy, Fabio Civitelli, Fábio Moon & Gabriel Bá, Hippolyte, Igor Hofbauer, Jorge Coelho, João Fazenda, Miguel Rocha, Niko Henrichon, Regina Pessoa, Rufus Dayglo e Zona (na casa da Cultura / Bedeteca de Beja), Avenida Marginal (Instituto Politécnico), Greetings from Cartoonia e NCreatures (Museu Jorge Vieira – Casa das Artes), The Lisbon Studio (Galeria dos Escudeiros), Kingpin Books (Conservatório Regional do Baixo Alentejo),
João Vaz de Carvalho e Jorge Miguel (Museu Regional de Beja) e Toupeira (Galeria do Desassossego).
E, claro está, também os lançamentos – bastantes, (quase) todos de portugueses – que perdurarão ao longo do tempo: Splaft! nº 6 - catálogo do Festival; Venham + 5 nº 7 (Bedeteca de Beja); Colecção Toupeira nº 6, de André Oliveira e Maria João Careto (Bedeteca de Beja); Hans, O Cavalo Inteligente, de Miguel Rocha (Polvo); The Lisbon Studio Mag nº 1 (El Pep); Março Anormal, de João Tércio (El Pep); Seitan Seitan Scum, colectivo de autores portugueses e brasileiros (El Pep e Chili Com Carne); BDJornal #25 (pedranocharco) e Zona Gráfica #1 e #2 (Zona).
Se o programa pode ser consultado no site do festival ou no suplemento In’ da revista NS, distribuída no próximo sábado juntamente com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias, não quero deixar de indicar os meus destaques: Gabriel Bá e Fábio Moon, os gémeos brasileiros, mais pela sua obra de autor (10 pãezinhos, Quase nada), do que pelos mais mediáticos trabalhos para o mercado norte-americano, como Casanova, Pixi ou Umbrella Academy; Hermann, que infelizmente não tem exposição; Civitelli, a comemorar 25 anos com Tex; o Lisbon Studio, colectivo que lança revista própria; e Niko Henrichon, o soberbo desenhador da Fábula de Bagdad.
Mas como há mais, muito mais, o desafio é que cada um visite Beja e faça as suas escolhas.

26/05/2010

Geronimo Stilton #1 – À Descoberta da América

Geronimo Stilton (textos)
Lorenzo de Pretto e Sílvia Pianalto (desenho)
Davide Corsi (cor)
Planeta Júnior (Portugal, Março de 2010)
225 x 290, 48 p., cor, cartonado

Nascido em livros infanto-juvenis e entretanto também estrela de desenhos animados televisivos, Geronimo Stilton é o director do Eco dos Roedores, o jornal mais famoso da Ilha dos Ratos. A essa vertente profissional associa – embora contra sua vontade – as de detective e aventureiro, em companhia de alguns amigos.
Neste álbum que inaugura as suas aventuras em banda desenhada e também a chancela Planeta Júnior que a editora Planeta criou para os mais novos, Geronimo tem que enfrentar mais uma vez os Gatos Piratas, os seus inimigos de sempre, que viajaram no tempo até ao passado, mais concretamente à Espanha de 1492. O seu objectivo é incorporarem-se na tripulação de Cristóvão Colombo, para enriquecerem à custa da descoberta do que haveria de vir a ser a América. Para frustrar os seus planos, Geronimo e os seus companheiros têm também que embarcar a bordo do Santa Maria, o navio almirante de Colombo, o que provoca alguma tensão a bordo na sequência de algumas tentativas de sabotagem e uma série de situações divertidas.
Com um registo entre o aventuroso e o cómico, e alguns apontamentos didácticos que ajudam a compreender o contexto histórico, este é um relato leve e descontraído, (bastante bem) desenhado num estilo próximo da série televisiva, com tudo para agradar aos leitores a quem é destinado (e que quanto antes convém conquistar para a leitura…), em especial aos que já são fãs do rato jornalista.

A reter
- Mais uma aposta - inteligente - nos leitores mais novos.

Menos conseguido
- A edição, "demasiado cuidada" (?), com o consequente agravamento de preço, que poderá (?) afastar potenciais compradores...

Curiosidades
- Em simultâneo, a Planeta Júnior lançou também o segundo tomo de Geronimo Stilton, “O Segredo da Esfinge”, passado no Egipto…
- … e também os dois primeiros volumes das aventuras de Tea Stiltin, irmã de Geronimo: “O Seredo da Ilha das Baleias” e “A Desforra do Clube das Lagartixas”, mais vocacionadas para um público adolescente feminino.

(Versão revista e aumentada do texto publicado originalmente a 22 de Maio de 2010, na página de Livros do suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

25/05/2010

A República e a Banda Desenhada

Se a banda desenhada nacional – os seus autores – foram muitas vezes empurrados para o nicho dos relatos históricos – quer por força das limitações que a censura impôs, quer por ser uma área onde a concorrência estrangeira não se fazia sentir – a verdade é que raramente essas abordagens se deram na época contemporânea. Por isso, períodos tematicamente muito ricos – e até com grande potencial para relatos ficcionais de base histórica – como o 25 de Abril ou a resistência ao fascismo durante a ditadura, são quase virgens no que aos quadradinhos diz respeito. O mesmo se passa também com o período conturbado que levou à proclamação da República, em 1910. E para a qual a BD e, principalmente a caricatura e o cartoon, também contribuíram com a sua quota-parte, através das críticas desenhadas por autores como Celso Hermínio, Leal da Câmara ou Francisco Valença.
Assim, se os acontecimentos que antecederam o 5 de Outubro de há um século atrás, já foram várias vezes mostrados nos quadradinhos lusos, foram-no sempre numa perspectiva histórica. É o que acontece no quarto tomo da “História de Portugal em B.D. – A revolução da Liberdade” (Edições ASA, 1989), em que o historiador A. Do Carmo Reis e o desenhador José Garcês, um veterano da 9ª arte, cultor de um estilo realista rigoroso, dedicaram algumas pranchas aos acontecimentos que antecederam a sublevação dos republicanos, concretizada depois no capítulo “Viva a República!”.
O mesmo fizeram Oliveira Marques e Filipe Abranches num episódio de seis pranchas no segundo volume da sua “História de Lisboa” (Assírio & Alvim e C.M. Lisboa, 2000), mas desta vez num estilo mais moderno e arrojado, em que a legibilidade das imagens predomina sobre o texto, reduzido ao mínimo para enquadrar os acontecimentos, mais mostrados na sua crueza do que relatados.
Mas, sobre este tema, sem dúvida que a obra mais significativa é “Mataram o Rei!... Viva República” (reedição da Âncora Editora em 2008), que abarca o período de 1880 a 1910, explorando não só a revolução em si como os diversos aspectos que levaram a que ela fosse desencadada. Assinado pelo veterano José Ruy, que conta mais de 60 anos no exercício da BD, assenta na habitual pesquisa documental, rigorosa e exigente, traduzida depois numa correcta representação de edifícios, veículos e indumentárias e na completa descrição dos factos.
Isto acaba por secundarizar um pouco a base do enredo, que aborda, que parte de três jovens – Manuel, monárquico, João, republicano, e Madalena, a sua irmã - para a descrição dos eventos, onde participarão de forma activa, o primeiro por despeito, pois Madalena, sua namorada há-de ter uma relação com o rei D. Carlos, e o segundo por convicção.

(Versão revista e aumentada do texto publicado originalmente no Jornal de Notícias de 23 de Maio de 2010)

24/05/2010

Turma da Mônica Jovem #15 a #17

Estúdios Maurício de Sousa
Panini Comics (Brasil, Novembro de 2009 a Janeiro de 2010)
160 x 210 mm, mensal, 128 p., preto e branco, brochada

Odiada por alguns, bem recebida pela (maior parte da) crítica, amada pelos (seus muitos) leitores, a Turma da Mónica Jovem é um dos maiores sucessos aos quadradinhos de sempre no Brasil.
Se o efeito curiosidade – saber como seriam os elementos da Turma da Mónica uns anos mais velhos - poderá ter servido para o desencadear, a verdade é que só por si não seria suficiente para o manter ao longo de mais um ano. Por isso, as razões para o explicar devem ser procuradas nas próprias histórias.
Uma delas, é a forma coerente como Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali se tornaram adolescentes, sem se descaracterizarem, não perdendo as qualidades e defeitos que lhes eram (re)conhecidas enquanto crianças, mas adaptadas à sua nova idade. Outra é porque o tom leve e despretensioso habitual nas histórias, a naturalidade dos diálogos, o sentido de humor de Maurício de Sousa, continuam presentes, mostrando porque é um dos autores de quadradinhos mais lidos de sempre. Depois, porque a temática e os cenários vão mudando de história para história: por isso podem narrar o quotidiano adolescente (que é igual ao do seu público-alvo – mas onde estão longe de se esgotar os seus leitores), ou pode emular os ambientes fantásticos de tantas criações de referência – dos manga, do cinema, da TV –, caras aos adolescentes, o que serve para aumentar a cumplicidade de quem lê e de quem é lido. E também, porque se (indiscutível e assumidamente) há algum tom pedagógico e educativo nas histórias da TMJ, ele surge com naturalidade, sem incomodar nem afastar os leitores.
A chegar às bancas portuguesas, o 17º número da revista mensal, traz a terceira e última parte da saga “Monstros do ID”, para mim, uma das mais consistentes e conseguidas até agora protagonizada pela TMJ. O seu tema são os “monstros” que existem dentro de nós, que nos levam a fazer o que não queremos, a ter reacções despropositadas, a magoar aqueles de quem gostamos, a eixar de gostar de nós...
Monstros a que a equipa que produziu esta saga da TMJ conseguiu dar corpo e substância, com equilíbrio e credibilidade, conseguindo dessa forma mostrar com uma outra força e intensidade as consequências dos confrontos que normalmente são interiores e que se sentem com mais força exactamente na adolescências, na fase de formação do carácter, quando as solicitações são maiores.
A utilização de duas cores – vermelho e azul - para distinguir o “lado bom” e o “lado mau” de cada um – tantas vezes na BD representados por um anjo e um diabo – é um recurso simples mas muito eficaz que ajuda à compreensão do enredo e dá uma outra vida a estas pranchas em estilo manga que, por vezes, parecem mesmo estar a pedir cor

21/05/2010

Fagin, o judeu

Will Eisner (argumento e desenho)
Gradiva (Portugal, Abril de 2007)
190 x 250 mm, 128 p., branco e sépia, brochado


E de repente, sem muito bem se saber porquê, a banda desenhada voltou a descobrir os clássicos da literatura. Quer no mercado franco-belga, onde editoras como a Delcourt, a Soleil, a Casterman e a Glénat estão a lançar títulos ou colecções dedicada às suas adaptações aos quadradinhos, quer nos EUA, onde a Marvel, detentora do Homem-Aranha ou do Quarteto Fantástico, anunciou também uma colecção com as mesmas premissas. Ou até no Brasil, onde se estão a multiplicar as versões “en quadrinhos” dos clássicos da literatura locais, muitos deles apontados ao “Plano Nacional de Leitura” de lá.
Mas estas adaptações não se anunciam como as maçudas e maçadoras versões de tempos idos, que muitas vezes nem BD eram, quando desenhadores anódinos ilustraram (mal) os textos integrais; hoje, elas estão entregues a autores de créditos firmados, que as escolheram como projectos pessoais, em que se empenharam, transmitindo através de uma forma de expressão diversa o espírito da obra original, os sentimentos e as emoções que a sua leitura lhes proporcionou.
É, apesar de tudo, o caso deste "Fagin, o judeu", obra da velhice (data de 2003, tinha o grande mestre norte-americano já 86 anos), na qual Eisner pretende desmontar a visão estereotipada dada dos judeus na versão original do romance clássico de Charles Dickens, "Oliver Twist". Para isso, não (re)conta aos quadradinhos aquele drama vitoriano, mas sim a vida (inventada…) do seu vilão, Fagin ("o judeu"). Sem intenção de o absolver dos crimes que cometeu nem sequer para o justificar; divergindo de Dickens, traça um retrato díspar de Fagin, mostrando-o não como a incarnação do mal mas como um ser humano como outro qualquer, com dúvidas, contradições e incertezas, empurrado para o crime pelas vicissitudes de uma vida que lhe foi por demais madrasta, equiparável, afinal, ao retrato delicodoce que Dickens nos deixou de Oliver Twist, com o senão de que a Fagin a fortuna nunca sorriu… ou sorriu demasiado tarde.
Para isso, aproveita a história base, num interessante diálogo com a literatura, para fazer um retrato expressivo da opressiva Londres vitoriana onde ela decorre e para onde transporta o leitor, das vielas lúgubres e esconsas às ricas mansões, através da riqueza, precisão e expressividade do seu traço, aqui servido por tons sépia, que nada retiram da força dos jogos de luz e sombra em que se mostra mais uma vez mestre incontestado, bem como no domínio do ritmo narrativo marcado à custa da forma como compõe as pranchas, construindo uma narrativa forte e bem estruturada através da qual defende o seu ponto de vista e tenta suavizar a imagem exageradamente anti-semita que o texto original de Dickens transmite, mesmo que involuntariamente.
E constrói, assim, uma obra de crítica social e de costumes e também histórica, na qual contextualiza a presença judaica numa Londres tolerante e liberal mas fechada, mostrando como os judeus da Europa Central (os asquenazitas, judeus de segunda, atrás dos (mais ricos) judeus ibéricos, sefarditas), eram empurrados para vidas feitas de esquemas e expedientes nada honestos, que estiveram na origem da imagem estereotipada dos judeus, ainda hoje comum.

(versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 13 de Maio de 2007)

20/05/2010

Níquel Náusea #7 – Em boca fechada não entra mosca

Fernando Gonsales (argumento e desenho)
Devir Livraria (Brasil, Novembro de 2008)
212 x 282 mm, 48 p., cor, brochado


Era uma vez um rato (quase) analfabeto, cuja leitura hesitante facilmente adormecia a sua ninhada. Não! Era uma vez um rato que servia de provador a Mickey Mouse. Não, outra vez! Era uma vez um rato com bom olfacto… o que é insuportável para quem vive num esgoto… Não e não! Era ainda outra vez…
Aquele rato existe mesmo (desde que os heróis de papel sejam reais…) e tem nome: Níquel Náusea. Evocação de sarjeta do astro Disney, evidente no trocadilho óbvio e satírico, que dispensa mais comentários, mas aponta já para o que é a tira de imprensa que protagoniza e a que dá nome, de origem brasileira.
Aquele rato tem amigos. Ratos, como ele, também: Rato Ruter, o rato mutante (sem super-poderes, porque aqui falamos de coisas sérias!); o Sábio do Buraco, que sabe e conhece tudo… às vezes; a rata Gatinha, por quem se apaixonou, parideira profícua (de 10 em 10 minutos, exageram alguns…), mãe das suas muitas proles, que educa com amor e bofetões (que tanta falta fazem a tantos hoje em dia – o amor e, principalmente, os bofetões…); um rato canalha, com chapéu de orelhas de Mickey (vá lá saber-se porquê, gostava de se fazer passar por ele), que não passa de um Pateta (e não, este trocadilho não é meu, está mesmo no site do Níquel (http://www2.uol.com.br/niquel/index.shtml), que convém visitar regularmente, para acompanhar o dia-a-dia do rato.
Por isso, era uma vez um, dois, três, mais ratos – aqueles, os citados, e outros mais. E também um elefante de nariz sensível, uma minhoca com medo de ser enterrada viva, pulgas de classe que só mordiam cães de raça, cupins que fazem buracos na(s portas de) madeira para espreitarem as boazonas do prédio, um super-cão cuja visão de raio X o leva a atacar todos os (esqueletos de) humanos, traças viciadas em naftalina e insecticida, moscas que caem na sopa para… ler as letrinhas, um lobo mau com demasiado fôlego para soprar velas de aniversário, abelhas que delegam a produção de mel em moscas (a mão de obra mais barata…), uma formiga e um elefante apaixonados apesar das diferenças… religiosas, morcegos fãs de… Batman, caracóis que se divertem a tocar às campainhas e a… fugir… a… toda… a… velocidade…
E…
E mais uma enorme galeria animal (com tanto de humano, com tantos humanos… os maiores animais…?) com a qual o doutor (veterinário, claro está) Fernando Gonsales, faz sorrir, rir, gargalhar abertamente, há quase um quarto de século, que se completa no próximo ano, em tiras que somam já milhares.
Com elas, ele não só explora o conhecimento animal básico que faz parte da cultura geral, como também critica e satiriza a sociedade humana, desconstrói verdades (que julgávamos) absolutas, é cáustico com tantas personagens reais e/ou imaginárias que fazem parte do imaginário colectivo e cultiva um sentido de nonsense indescritível.
Nascido em São Paulo, em 1961, é um dos grandes humoristas brasileiros, publicado diariamente na Folha de S. Paulo e em vários outros jornais de todo o Brasil. Cartoon, ilustração, publicidade e argumentos para TV fazem também parte do seu currículo, onde se contam numerosos prémios e distinções e oito álbuns de Níquel Náusea editados pela Devir Brasil, alguns deles distribuídos em Portugal, estando o sétimo neste momento disponível.
Níquel Náusea que vive em tiras de poucas vinhetas, pintadas com cores lisas, de tons neutros, para salientar o seu traço falsamente simples, enganadoramente feio, uma vez que vive de imagens deformadas (por si só capazes de fazer rir) de animais (para tantos) nojentos. Mas um traço também dinâmico, expressivo, capaz de traduzir de forma directa, muitas vezes sem palavras – desnecessárias -, o gag que Fernando Gonsales imaginou.

Nota: As imagens que ilustram este artigo não pertencem necessariamente ao álbum referido.



(Versão revista e alterada do texto publicado no catálogo do V Salão Internacional de Banda Desenhada de Beja)

19/05/2010

Piratas do Tietê – A saga completa – Todas as histórias em 3 volumes – Livros 1 e 2

Laerte (argumento e desenhos)
Devir Livraria (Brasil, Novembro de 2007)
210 × 280 mm, 112 p., cor+pb, cartonado
1985, um Brasil recém-saído da ditadura, descobria nas bancas a Chiclete com Banana, uma revista de BD “underground” a resvalar para o anarquismo.
Nela, Angeli, o seu criador, depois com Laerte, Glauco ou Luís Gê, traçava um retrato cínico e mordaz das misérias do país, visto através das suas franjas mais marginais. A publicação tornou-se um marco, vendeu três milhões de exemplares numa década, teve até uma versão para Portugal (onde agora há nas livrarias pacotes com a “Edição definitiva para coleccionadores”) e lá nasceram anti-heróis como Rê Bordosa, os Skrotinhos, Bob Cuspe ou os invulgares Piratas do Tietê.
As aventuras destes últimos, traçadas por Laerte com detalhe e pormenores deliciosos, num preto e branco contrastante muito bem trabalhado, e dotadas de uma planificação multifacetada que lhes transmite uma grande dinâmica e ritmo, desenvolvem-se ao longo do rio Tietê, que atravessa a cidade de São Paulo. Recheadas de acção e nonsense, partem dele para as mais diversas paródias ou para libelos anti-economistas, anti-ecologistas ou anti-outra-coisa-qualquer, com base na estranha combinação dos estereótipos das narrativas de corsários com uma crítica exacerbada da actualidade brasileira, utilizando com frequência citações da literatura (Pessoa é protagonista involuntário de uma BD no segundo tomo, onde também se encontram Batman, Fantasma ou a Virgem Maria), cinema, pintura ou mesmo banda desenhada.
Agora, estão compiladas numa bela edição de luxo em três volumes – o segundo foi recentemente distribuído entre nós -, que incluem notas biográficas e comentários do autor, que enquadram melhor e possibilitam um outro nível de leitura de cada narrativa.

(Versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 20 de Outbro de 2008)

18/05/2010

Banda Desenhada comemora Centenário da República

Os presidentes da Câmara Municipal da Amadora, Joaquim Raposo, e da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, Artur Santos Silva, assinaram hoje, no Auditório dos Recreios da Amadora, um Protocolo de Colaboração com vista à realização da programação de Banda Desenhada no âmbito das Comemorações dos 100 anos da República, a desenvolver até Agosto de 2011.
Após a cerimónia protocolar foram divulgadas as iniciativas previstas neste âmbito, entre as quais se destaca a exposição “A primeira república na génese da BD e no olhar do século XXI”, que será inaugurada no Centro Nacional de BD e da Imagem da Amadora a 2 de Junho, e será composta por cinco núcleos: “A 1ª República e a Amadora” (organizado por João Castela Cravo), “A Caricatura Modernista e a 1ª República” (Osvaldo de Sousa), “O primeiro filme de animação português” (Paulo Cambraia), “A Génese da Moderna BD Portuguesa” e “A 1ª República na BD portuguesa contemporânea” (ambos concebidos por João Paulo de Paiva Boléo).
Este será também o mote do 21º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora – Amadora BD ’11, entre 22 de Outubro e 7 de Novembro, que acolherá a mostra “É de Noite que Faço as Perguntas”, baseada no álbum homónimo escrito por David Soares e desenhado por Richard Câmara, André Coelho, Daniel Silvestre, João Maio Pinto e Jorge Coelho, a lançar durante o certame, onde também será apresentada uma reedição das “Aventuras de Quim e Manecas”, criados por Stuart Carvalhais, publicadas inicialmente entre 1915 e 1918, no Século Cómico, e que são, segundo Paiva Boléo, um “exemplo de pioneirismo e modernidade no panorama artístico da sua geração”, que retrataram “com arte, argúcia e uma alegria contagiante o contexto político e social e as personalidades da época que seduziram miúdos e graúdos”.
Quim e o Manecas, redesenhados por Richard Câmara, serão os anfitriões das comemorações nacionais do Centenário da República.

14/05/2010

Mmmnnnrrrg comemora 10 anos no Porto

A editora independente de banda desenhada alternativa Mmmnnnrrrg, a comemorar 10 anos de existência, assinala a data com um programa diversificado que tem por centro o bar Maus Hábitos, no Porto, hoje e amanhã.
Como principal aspecto, fica o lançamento do livro “Pénis Assassino”, do portuense Janus, curiosamente também autor de “O Macaco TóZé”, o primeiro livro com que esta editora de nome impronunciável “começou a agredir o mercado emergente e optimista da BD portuguesa”, refere o seu responsável, Marcos Farrajota. Com tiragens “entre os 100 e os 1500 exemplares”, afirma que os seus livros estão “sempre disponíveis”, pois “eles não se vendem mas também não se queimam”, ao contrário dos de outras editoras…
Face “a um panorama desolador, de falta de respeito pelo livro e pela BD”, cuja “situação nos últimos anos piorou,” uma vez que “no seu âmago ela desistiu de existir e fora do seu meio é renegada porque deixou de haver espaço para tal fraca criatura, graças à aceleração da exploração capitalista no mercado do livro”, a Mmnnnrrrg aposta nos autores nacionais e no intercâmbio com editoras estrangeiras similares, tendo no seu catálogo obras como “Prison Stories”, do croata Igor Hofbauer (que estará presente com uma exposição no Festival de BD de Beja, de 29 de Maio a 13 de Junho), “Caminhando com Samuel”, do finlandês Tommi Musturi ou ”Já não há maçãs no paraíso”, de Max Tilmann, este ano distinguida com o Prémio Titan, atribuído pela ESAD
As comemorações incluem também um Mercado de Edição Independente (dia 15, à tarde), com a presença da própria e “de outros editores responsáveis e autónomos” como a Chili com Carne, Ruru Comix, Soopa, Marvellous Tone, Plana Press, Edições Mortas, Thisco, Opuntia Books, Braço de Ferro, Latrina do Chifrudo, Gajos da Mula, Reject’zine, Dama Aflita e Durty Kat, muita “música maldita” com os Kanukanakina, Claiana, dj Shree Svasthistana (dia 14) e Ghuna X, Rudolfo, Yoshi o puto dragão e undj Mmmnnnrrrg (dia 15) e a “exibição de filmes marados”.

13/05/2010

Animal’z

Enki Bilal (argumento e desenho)
ASA (Portugal, Novembro de 2009)
240 x 320, 104 p., cor, cartonado


Nesta obra, que marcou o seu regresso à banda desenhada no ano passado, Bilal retorna a alguns dos temas políticos que desenvolveu nos seus trabalhos mais recentes: os totalitarismos, (a falta de) futuro da humanidade ou a ecologia. Fá-lo, num registo mais neutro do que tem sido habitual, afastando-se um pouco do pessimismo de álbuns anteriores mas mesmo assim tendo como ponto de partida um planeta devastado por um fenómeno natural designado como “Golpe de Sangue”, que provocou brutais alterações climáticas e funcionais na Terra, reduzindo drasticamente as fontes de água potável e limitando a uns quantos (e ilusórios?) “eldorados” as zonas habitáveis do planeta. Devido a esse acontecimento, a par da redução da população mundial e do desmoronamento da economia mundial, o dia a dia tornou-se uma luta constante pela sobrevivência na qual todos os expedientes são válidos.
Mas Bilal opta por deixar estes contornos (estimulantes) apenas como pano de fundo e desencadeadores das acções da meia dúzia de protagonistas com que dotou este relato de antecipação científica num futuro não muito distante, marcado por progressos científicos que permitiram uma maior proximidade entre homem e animal, traduzida na possibilidade de fusão temporária entre ser humano e golfinho ou em mutações genéticas. A sua opção foi antes para um relato humano, aprofundando o lado psicológico, as motivações e a forma como cada um se relaciona com os restantes seres e se adequa (ou não) à nova situação e ao meio.
A opção por enquadramentos cinematográficos e vinhetas grandes – geralmente apenas duas ou três por prancha – destaca o magnífico traço a carvão sobre papel de tom cinza, que acentua o tom a um tempo sombrio e orgânico da narrativa, apenas tingido aqui e ali por raios de vermelho vivo, o que desvaloriza a sensação que a leitura deixa de que temos na nossa posse apenas um fragmento isolado de um todo maior e mais abrangente.

A reter
- O livro/objecto em si; as co-edições também têm vantagens…

(Versão revista e aumentada do texto publicado originalmente a 8 de Maio de 2010, na página de Livros do suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

12/05/2010

Zobo et les fleurs de la vie #1 – Sakura

Nie Jun (argumento e desenho)
paquet (Suíça, Janeiro de 2010)
240 x 322 mm, 48 p., cor, cartonado


Mais do que uma narrativa, este é um poema em banda desenhada, protagonizado por Zobo, uma marionete que ganha vida quando a jovem Ryoko lhe coloca no lugar do coração um ramo de flor de cerejeira, planta que no Japão está associada ao amor e ao carácter efémero das alegrias deste mundo. Com esse gesto, desperta a paixão de Zobo – de certa forma um Pinóquio à maneira oriental - que o leva a uma entrega total para a tentar concretizar. Só que, o coração nem sempre faz as escolhas mais óbvias, apesar de todos os sacrifícios que o amor se dispõe a fazer.
Com esta base, a que acrescenta ainda o enigmático Doku, Nie Jun, chinês e não japonês como se poderia pensar, num tom assumidamente romântico, com protagonistas (utópicos e) puros, desenvolve uma história terna e simples, recheada de simbolismos, uns mais evidentes do que outros, sobre amores juvenis, paixões não correspondidas, entrada na idade adulta, diferenças sociais e a necessidade de fazer sacrifícios para atingir a felicidade (ainda que de forma passageira).
E se o desenrolar deste conto – com muitos dos ingredientes dos de fadas que encantam os mais pequenos - é mais ou menos previsível, a verdade é que o seu lirismo, o tom agradável e melancólico, onde paira uma certa magia, o traço delicado e as belas cores a aguarelas, acabam por cativar e seduzir o leitor, por momentos afastado do mundo real, bem menos atractivo.

11/05/2010

Frank Frazetta (1928-2010)

Frank Frazetta, o homem que revolucionou a ilustração fantástica e de ficção-científica faleceu ontem, aos 82 anos, num hospital da Florida, na sequência de um derrame cerebral.
Norte-americano, nascido em Brooklyn, Nova Iorque, a 9 de Fevereiro de 1928, Frazetta começou a sua carreira aos 16 anos, como desenhador de quadradinhos, que o ocuparam nos anos 1940 e 1950, durante os quais ilustrou histórias de todos os géneros – terror, ficção-científica, western, super-heróis - mas entre as quais se destacam as colaborações nas tiras diárias de imprensa de L’il Abner e nas aventuras de Little Anne Fanny para a revista Playboy, bem como diversas bandas desenhadas de estilo humorístico, que levaram Walt Disney a convidá-lo para o seu estúdio, oferta que ele declinou.
O desenho do cartaz para o filme “What’s New Pussycat” (1965) levou-o a descobrir um novo (e mais rentável) mundo, passando a dedicar-se especialmente à ilustração de capas de livros e discos, posters, cartazes cinematográficos e quadros, nos quais revelou um grande sentido estético e de composição, um traço dinâmico e vigoroso, servidos por uma paleta de cores diversificadas, com os quais deu nova vida a personagens como Conan, Vampirella ou Tarzan. Os seus trabalhos, maioritariamente de temática fantástica, de terror ou de ficção-científica, distinguem-se pelos homens fortes e vigorosos e pelas belas e sensuais mulheres, na maior parte das vezes em cenas de combate, em ambientes hostis, perante monstros ameaçadores.
Informação mais detalhada disponível aqui.

(Versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 11 de Maio de 2010)

A herança de Bois-Maury - Vassya

Yves H. (argumento) e Hermann (desenho)
Vitamina BD (Portugal, Outubro de 2009)
222 x 300, 48 p., cor, cartonado


O ano é 1604 e o contexto histórico a guerra pelo poder na Rússia entre o Czar Boris Godunov e Grigori Otrepiev, apoiado pelos cossacos polacos, um impostor que se faz passar por herdeiro e que ficou na História como o “falso Dimitri”. Mas a história – para lá da História – é um relato de desejo e vingança.
Vassya, um dos cossacos, dá título ao livro, mas na verdade – como sempre nesta série, aliás, em torno dos descendentes do cavaleiro Aymar de Bois-Maury, protagonista do ciclo inicial “As Torres de Bois- Maury”, parcialmente editado em Portugal - o protagonismo é vivido no feminino, através de Douniachka, uma mulher à frente do seu tempo, por ter (e exercer…) opinião(, desejos) e vontade própria. Porque se é ela o objecto de desejo – de Vassya, o marido demasiado ausente, de Aymar, o descendente do seu homónimo original, e de Kolya e os seus zaporogas – ela também sente e quer. Numa época em que à mulher cabia um papel de subserviência e de pouco mais do que objecto ao serviço dos homens.
E, também por isso, vai ser Douniachka quem está na origem dos desejos de vingança de Kolya e dos seus companheiros, quando Aymar os impede de consumarem a sua violação. Num relato em que as personagens se vão cruzando, aumentando as animosidades e a tensão.
Por isso, esta é, antes de mais, uma história humana, sim – aspecto reforçado até pelo papel (falsamente) secundário do avô de Douniachka – embora menos estimulante do que seria desejável, reconheço, porque algo previsível. E também crua – como têm ultimamente sido quase todos os relatos desenhados por um Hermann desencantado com os seus semelhantes – porque testemunho de onde o ser humano pode chegar quando os (piores) sentimentos se impõem à razão.
Fica, mais uma vez, como principal atractivo, o extraordinário trabalho gráfico de Hermann, com um traço realista assente em soberbas cores directas – a que a impressão não faz inteira justiça –, num notável jogo de luz e sombras, em especial nas cenas nocturnas ou ao entardecer, e numa planificação sóbria mas muito eficiente, de que é bom exemplo a cena muda inicial.

(Versão revista e aumentada do texto publicado originalmente a 1 de Maio de 2010, na página de Livros do suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)
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