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04/10/2011

Dick Tracy, 80 anos

O primeiro detective da história dos comics americanos nasceu há exactamente 80 anos, nas páginas do "Chicago Tribune", na forma de prancha dominical. Era a concretização de quase uma década de esforços por parte do seu criador, Chester Gould (1900-1985) que pretendera chamá-lo Painclothes Tracy (algo como "agente à paisana" Tracy) mas que foi rebaptizado pelo editor com o nome – Dick Tracy - com que se tornou uma das obras de referência da chamada Época de Ouro dos comics americanos.
Mas a originalidade da série não se ficava pela profissão do herói - assumida logo à 10ª tira, para encontrar os raptores da sua noiva e assassinos do seu futuro sogro - vinha também da sua fonte de inspiração, as notícias dos jornais que reflectiam a criminalidade crescente num país que tentava a todo o custo deixar para trás os efeitos da Grande Depressão, ocorrida dois anos antes.

A seu favor "Dick Tracy" tinha ainda mais dois aspectos inovadores. Por um lado, um grafismo original, baseado num estilo caricatural feito de preto e branco contrastante, expressionista e brutal, apresentando o herói o célebre "queixo quadrado" e os vilões quase sempre um aspecto aberrante devido às faces disformes. Por outro lado, as histórias eram bem urdidas e traziam para as tiras de jornal um realismo até então desconhecido neste suporte, alicerçado num ambiente de tensão e suspense - por vezes, mesmo terror - e em doses generosas de violência, revelada especialmente no fim dos criminosos, raramente julgados, antes quase sempre abatidos pela polícia ou falecidos em estranhos e brutais acidentes de percurso, em especial durante a década de 40, na qual alguns dos mais notórios gangsters da série perderam a vida.
Chester Gould, sem qualquer formação artística, dotou Dick Tracy com uma rica galeria de personagens secundárias (Tess Trueheart, com quem casaria em 1949, Bonny Braids, a filha de ambos, o Chefe da polícia Brandon, Pat Patton, o seu fiel assistente, Júnior, o seu filho adoptivo, ou a longa lista de marcantes vilões entre os quais Big Boy, Pruneface ou Mumbles. Nos anos 60, a tira entrou na “era espacial”, tendo o herói pilotado naves, encontrado extraterrestres e ido até à Lua.
O criador do detective à paisana, adepto das técnicas forenses e utilizador de um famoso rádio-relógio-transmissor de pulso, manter-se-ia ao leme da sua criação até 1977, tendo assinado a série pela última vez no Dia de Natal. Rick Fletcher, seu assistente desde 1961, assumiria o desenho, e Max Allan Colins o argumento. Actualmente o detective continua a viver aventuras – de traço menos agreste e bem menos violentas do que na sua melhor fase - diariamente nos jornais, sendo os seus responsáveis Joe Staton e Mike Curtis que ontem começaram a recontar o primeiro caso do detective, como pode ser acompanhado aqui.
A partir de 1942, Dick Tracy seria alvo de uma bem conseguida e divertida paródia, na pele do também detective Fearless Fosdick, personagem de uma outra série famosa, "Li'l Abner", criada por Al Capp em 1934.
Graças às suas características originais, Dick Tracy, que em Portugal foi publicado principalmnete pelo Mundo de Aventuras, mas também no suplemento Quadradinhos de A Capital e no Lobo Mau, rapidamente granjeou uma forte popularidade, o que levou a que fosse transposto para um folhetim radiofónico, entre 1934 e 1948, e para o cinema, logo em 1937, quando estreou o primeiro de diversos filmes protagonizados por Ralph Byrd que assumiria a pele do detective até falecer, em 1952. Seria no entanto esperar até 1990, durante a primeira onda de adaptações de BD para a 7ª arte, para encontrar a mais fiel versão de celulóide da obra de Gould, num filme da Disney, realizado e interpretado por Warren Beaty, que contava ainda com Madonna, Al Pacino e Dustin Hoffman nos principais papéis.
As bodas de diamante de "Dick Tracy", há cinco anos, foram assinaladas nos Estados Unidos com a edição do primeiro volume de “The Complete Chester Gould’s Dick Tracy”, pela IDW Publishing, que entretanto já editou mais 11 tomos, estando o 12º já anunciado. 





(Versão revista e actualizada do texto publicado no Jornal de Notícias 4 de Outubro de 2006)

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