Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

24/10/2011

Portugal

Collection Aire Libre
Cyril Pedrosa (argumento e desenho)
Dupuis (Bélgica, 16 de Setembro de 2011)
235 x 330 mm, 264 p., cor, cartonado
35 €

Resumo
Simon Muchat é um autor de banda desenhada cuja relação com Claire e a carreira estão em crise. Durante uma visita a Portugal, como convidado de um festival de BD, sente-se estranhamente familiarizado com o país, as pessoas e a língua, partindo daí para a descoberta das suas raízes lusas, pois o seu avô era português.

Desenvolvimento
Portugal é a história de três gerações. Melhor, são histórias de três gerações. Histórias contada a três tempos por Simon - o neto -, Jean – o pai -, Abel – o avô – em cada um dos capítulos do livro. Embora o protagonista seja (quase) sempre Simon na sua busca pelas raízes familiares e de si próprio.
Com eles, através deles, Pedrosa – também ele neto de emigrantes portugueses, por isso o livro tem uma forte componente auto-biográfica, embora ficcionada – traça retratos distintos que se vão cruzar a vários níveis.
O retrato das relações (degradadas ou pelo menos descuidadas) de Simon com a sua arte, a sua companheira, o seu pai, a sua família. Simon, a quem a tal vinda a Portugal força, empurra, obriga a colocar ordem na sua vida. A reencontrar-se para se encontrar com os outros. Para isso terá de fazer opções, abraçando uns, afastando outros, tudo numa busca (por vezes em desespero) de si próprio, das suas origens, das motivações perdidas, de um sentido para a sua existência.
Para o conseguir, terá que fazer uma longa introspecção, reatar a relação com o pai e a família, relembrando ou descobrindo histórias passadas, quando o nome da família ainda era Mucha, percebendo os motivos para tantos choques familiares, para tantos silêncios, para tantas ausências.
E terá também que partir em busca do Portugal que o seu avô deixou, de descobrir porque ele nunca voltou à aldeia de Marinha da Costa de onde era natural e onde deixou família.
Uma procura íntima, com muito de iniciático, durante a qual, com uma mestria que só a experiência directa permite, Pedrosa traça um retrato notável de um certo Portugal e de uma certa forma de ser português. O retrato de uma geração (ou mais?) que teve de abandonar o seu país – por razões diversas – e encontrar longe das raízes formas de subsistência ou razões para viver. Mas também o retrato de uma geração mais próxima no tempo, perdida entre a ruralidade natural e a urbanidade forçada, que, na ausência de terreno, por viver na cidade, faz da varanda terreno de cultivo e é capaz de percorrer dezenas de quilómetros apenas para ir à terra buscas as batatas ou as pencas. Mas que é também uma geração dada e prestável - ainda não imbuída da maldade, da frieza citadina? – capaz de se dar e de dar o pouco que tem por um (primo afastado) desconhecido…
Um retrato terno, um retrato sincero, um retrato sentido, um retrato íntimo, sem nada de bilhete postal, cliché ou estereótipo, que não julga nem parodia, mostra apenas, com uma sinceridade desarmante e um realismo inegável.
Obra madura e complexa, profunda e muito pessoal, que a espaços se adivinha sofrida, grave na temática e no conteúdo mas também ligeira na forma desarmante como expõe, como se expõe, Portugal, ao longo das suas intensas 260 páginas, que ocuparam Pedrosa durante quase três anos, revela um autor de excelência, que brilha a vários níveis. Desde logo graficamente, pelo soberbo uso de cores directas, em aguarelas com efeitos de transparências, pontuadas aqui e ali por um traço fino, que, sem se impor ou sobrepor, ajuda à sua definição, pelo grafismo que parece dotado de movimento constante e que parece transportar o leitor através das páginas, obrigando os seus olhos a seguir a acção e os protagonistas.
Cores com as quais não só traça as suas personagens e os cenários em que elas evoluem, mas também define a língua em que falam, os seus estados de espírito e as ambiências que as rodeiam, tão capazes são de recriar as sombras da noite, um dia cinzento ou o sol português, e, acima de tudo, a própria evolução de Simon, do seu sentir.
A par disso, Pedrosa construiu, de forma linear mas elaborada, com base em diálogos, credíveis, sinceros, fortes, (mais uma vez) sentidos, um longo romance gráfico – sem princípio nem fim definidos – que prende o leitor ao mesmo tempo que o vai introduzindo no seio dos segredos – ou simplesmente omissões – da família Mucha/Muchat.

A reter
- A força deste soberbo romance, de razões difíceis de definir, mas inegável. Se há obras que deviam ser traduzidas em português, esta é uma delas.
- O magnífico trabalho gráfico de Pedrosa.
- A edição da Dupuis, que faz do livro um objecto desejável por si só.

Menos conseguido
- Alguns erros nos diálogos em português, sem dúvida evitáveis mas mesmo assim menores.

Trailer

Making-off

2 comentários:

  1. Embora a despropósito do tema deste post que estou a comentar, só para lhe dizer que fiz um texto mais completo sobre o Dic. de Nomes Próprios do Tintin de que lhe falei há dias.
    O texto é este:
    http://oculpado.blogspot.com/2011/10/dicionario-do-tintin.html
    Espero, sinceramente, que lhe crie vontade de o ler (o livro, claro).
    Tenho ideia, pelo que leio aqui, que é uma pessoa séria. Não me importo de lhe emprestar o livro. Caso tenha interesse, no perfil do meu tasco (blog) está o meu e-mail.

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  2. O livro Portugal ganhou o Prix de la BD du Point 2011.
    Merecido.

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