Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

28/02/2011

Scenes from an Impending Marriage

A prenuptial memoir
Adrian Tomine (argumento e desenho)
Drawn & Quarterly (EUA, Janeiro de 2011)
135 x 150 mm, 56 p., pb, cartonado, 9,95 $USA


De entre os muitos autores – muitos deles então ainda a começar nos quadradinhos – que conheci e descobri no Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto – Miguelanxo Prado, Seth, Roberta Gregory, Chester Brown, Bezian, Dave McKean, Ed Brubaker, Étienne Davodeau, Lewis Trondheim, Marjane Satrapi… - alguns há cuja carreira tenho acompanhado (mais ou menos) de perto. Adrian Tomine é um deles.
Dono de um traço limpo, fino e delicado, expressivo e bastante pormenorizado, onde se adivinha mais trabalho do que espontaneidade, revelou-se em Optic Nerve, um mini-comic auto-editado, que seria depois compilado em “32 stories”, pela Drawn & Quarterly, editora onde o autor retomou o título.
Pouco social, um tanto ou quanto obsessivo compulsivo, a par das suas ilustrações para, entre outros, The New Yorker, tem narrado também em obras como Sleepwalk and Other Stories e no (aclamado) Shortcomings, aspectos corriqueiros (ou nem tanto) do seu dia-a-dia, dando uma visão sensível, algo crítica e, por vezes, mesmo mordaz da sua intimidade e da forma como (não?) se relaciona com os outros, num exercício onde se adivinha muito muito de catarse e que fez dele um dos expoentes mais interessantes da autobiografia em quadradinhos.
Agora, com este (mini-)livro, continuando fiel à temática e à linha condutora que sempre o tem norteado, revela uma faceta menos presente nos títulos anteriores, um sentido de humor ácido e irónico, com o qual narra (e de certa forma desmonta) os preparativos para o seu casamento iminente, numa série de curtos episódios, directos e incisivos. Com os quais ilustra bem, por vezes mesmo de forma incómoda, o grande negócio que é hoje a organização de (qualquer) casamento, onde não podem faltar convites, fotógrafos e cameramen, refeições de arromba, bailaricos, fogo de artificio, DJs e sabe-se lá que mais, transformando num autêntico arraial impessoal aquilo que na origem deveria ser um momento significativo e marcante da vida de um casal.
Se Tomine mantém o seu traço habitual, que funciona perfeitamente apesar do reduzido tamanho das páginas, não deixam de ser curiosos dois piscares de olhos a dois clássicos dos quadradinhos americanos: Familly Circus, de Bill Kean, nalguns gags de imagem única que surgem por entre as curtas narrativas que compõem este livrinho, e o seu choro (p. 29) “à la Peanuts”, de Schulz, que não deixa de fazer pensar que os preparativos para um eventual casamento de um Charlie Brown trintão não andariam muito longe daqueles que Tomine narra.
Se, pessoalmente, não sou grande fã de casamentos (menos ainda dos actuais casamentos…), confesso que sinto alguma inveja dos convidados de Tomine, pois levaram como recordação do evento um comic original com a maior parte das bandas desenhadas agora incluídas neste livro.

27/02/2011

Selos & Quadradinhos (28)

Stamps & Comics / Timbres & BD (28)
Tema/subject/sujet: Centro Belga de Banda Desenhada / Belgian Centre for Comics Strip Art / Centre Belge de Bande Dessinée
País/country/pays: Bélgica / Belgium / Belgique
Data de Emissão/Date of issue/date d'émission: 1991

26/02/2011

Selos & Quadradinhos (27)

Stamps & Comics / Timbres & BD (27)
Tema/subject/sujet: Silver Surfer – Through the Ages
País/country/pays: Madagascar
Data de Emissão/Date of issue/date d'émission: 1999

25/02/2011

Delcourt, 25 anos

A editora francófona Delcourt completa 25 anos em Maio próximo. Algo difícil de imaginar para quem olha para o mercado nacional (de BD).
25 anos de um trajecto de sucesso, se não ímpar, pelo menos raro. Possivelmente porque, à sua frente, está Guy Delcourt, desde a infância apaixonado por quadradinhos, fantástico, aventura e cultura contra-corrente.
Jornalista de profissão, em 1986, quando a BD enfrentava uma violenta crise económica, decidiu fundar a sua própria editora, para explorar novas ideias - criação de pontes com a música, o cinema, a pintura, a literatura, novos conceitos de BD infantil - a par da aposta no manga e nos comics de autor.


Deste percurso, longo e apaixonante, ressaltam alguns números:
- 25 anos de vida
- 2004, ano em que foi editado o 1000º álbum com o selo Delcourt
- 3ª maior editora francófona de BD
- 118 %, o crescimento do valor de vendas entre 2003 e 2010
- 42 000 K€, o seu volume de negócios
- 44 nomeações para os prémios de Angoulême
- 400 000 exemplares vendidos de Happy Sex, o seu best-seller
- 2 000 000 exemplares vendidos da série Les Blagues de Toto
- 33 álbuns recenseados em As Leituras do Pedro (!)

Para assinalar a efeméride, a par da manutenção da actividade editorial regular (o mais importante), eis algumas das iniciativas mais mediáticas: um concerto de desenhos em Angoulême, uma exposição no Centre Belge de BD (até 29 de Maio), tiragens de luxo de alguns álbuns ao longo do ano - Jour j7, Sillage #14, De Cape et de Crocs #10, Golden City #9 e Le Chant des Stryges #14 - e edições especiais de 12 obras (algumas das quais hei-de trazer aqui) que, “pela sua qualidade e pela sua audácia” marcaram o percurso da editora – L’Origine, Happy Sex, Donjon Monsters #10, Pourquoi j’ai tué Pierre, New York Trilogie, From Hell, Les Mauvaises Gens, Trois Ombres, Chroniques Birmanes, Île Bourbon 1730 et Ayako.
Agora 25 anos depois, como leitor regular dos seus títulos, mais do que muita verborreia – que acho mais útil substituir para um convite para visitar o seu site – ocorrem-me três palavras: Parabéns, obrigado, continuem!

24/02/2011

Leituras Novas

Fevereiro 2011

Booksmile
Scott Pilgrim e a Tristeza Infinita
Bryan Lee O’Malley (argumento e desenho)
O novo amor de Scott Pilgrim, Ramona Flowers, tornou-lhe a vida um pouco mais complicada. Ela tem sete ex-namorados maléficos que estão a aparecer, um por um, para o desafiarem a ganhar o direito de estar com ela.
E o ex-namorado n.º 3, Todd Ingram, chega com uma surpresa extra: a sua actual paixão é o antigo amor da vida de Scott Pilgrim! Envy Adams despedaçou o coração de Scott há um ano e meio. Agora está de volta, com a sua banda de art-rock maléfico, The Clash At Demonhead.
Ela quer que a banda de Scott faça a primeira parte do seu concerto, dentro de dois dias – tempo mais do que suficiente para Scott lutar com Todd, esquecer a Envy, fazer a Ramona feliz, esquivar-se aos avanços de ex-namoradas descontroladas e ensaiar o novo alinhamento. Certo?

ASA
Bórgia #4 - Tudo é Vaidade
Alejandro Jodorowsky (argumento) e Milo Manara (desenho)

A expedição a Itália do Rei Carlos VIII de França termina em Nápoles com o afogamento do soberano nas lavas incandescentes do Vesúvio. Liberto do compromisso sacerdotal pelo seu pai, César Bórgia sonha reconquistar o país…


Tintin – As 7 Bolas de Cristal
Hergé (argumento e desenho)
Uma misteriosa doença afecta os membros de uma expedição arqueológica recentemente regressada dos Andes, onde descobriram uma múmia. Um por um, os membros da expedição ficam em estado de letargia. As únicas pistas são uns estilhaços de cristal encontrados perto de cada vítima, pertencentes a bolas de cristal. Preocupados com a situação, Tintin, o Capitão Haddock e o Professor Girassol visitam um amigo do último, o Professor Hipólito Bergamotte, o único membro da expedição ainda de boa saúde. É em casa deste que se encontra a múmia do inca Rascar Capac a qual desaparece misteriosamente. A situação complica-se ainda mais quando o professor Girassol descobre uma pulseira de ouro pertencente à múmia e a coloca no seu pulso…

Tintin – O Templo do Sol
Hergé (argumento e desenho)

Trata-se da continuação da aventura iniciada em As 7 Bolas de Cristal. Tintin, Haddock e Milu, chegam ao Peru antes do Pachacamac, o navio que levava o professor Girassol. Quando o cargueiro entra na baía, é posto em quarentena pelas autoridades sanitárias. Tintin resolve entrar clandestinamente no navio onde encontra o professor, que dorme sob o efeito de drogas. Tintin tem de fugir a nado, mas de madrugada vê desembarcarem o professor. Com Dupont e Dupond, enviados pela polícia francesa para os ajudar, o capitão, Tintin e Milu seguem a pista do professor pelo interior do Peru…

Tintin no País do Ouro Negro
Hergé (argumento e desenho)

Em o Tintin no País do Ouro Negro, tudo o que usa gasolina como combustível explode em série. Para investigar o caso, Tintin embarca num petroleiro rumo ao Médio Oriente. Dupont e Dupond seguem-no, disfarçados de marinheiros. Chegando ao destino, Tintin e Milu perdem-se no deserto, sempre seguidos pelos dois detectives. Acabam todos por se encontrar e já na capital, o jovem repórter descobre que o que estava em jogo era a exploração do petróleo do país, que atraía a cobiça de poderosos interesses internacionais, representados pelo sinistro doutor Müller.

Dragon Ball #6 – O Grande Erro de Bulma
Toryiama (argumento e desenho)

Para salvar o presidente da aldeia, mantido como refém no último andar da Torre Músculo, Goku vai ter de enfrentar outros aliados da Red Ribbon como o Ninja Murasaki e o Andróide nº 8. Será que vai conseguir vencê-los?


Afrontamento
Peanuts - Obra Completa 1961/62
Charles Schulz (argumento e desenho)

Peanuts são uma das mais famosas tiras cómicas da história aclamadas pelo público leitor de todo o mundo. As personagens de Charles M. Schulz - Charlie Brown, Snoopy, Lucy, Linus, Schroeder e muitos outros - tornaram-se ícones mundiais. Em 1999, um júri americano de peritos em comics afirmou os Peanuts como as segundas melhores tiras cómicas do século XX. Em 2002, um estudo identificou os Peanuts como um cartoon reconhecido por 94% do total do público leitor americano, sendo apenas suplantados pelo rato Mickey. Os Peanuts nasceram em 1950 e foram publicados em cerca de 2600 jornais e em 21 línguas diferentes. Neste volume editam-se-se as tiras publicadas em 1961 e 1962.

Gradiva
Manual Zits® para Viver
Jerry Scott (argumento) e Jim Borgman (desenho)
Primeiro Manual do Utilizador para pais adolescentes.
Paciência não incluída.

Às Quintas falamos de BD (I)

E Tudo Fernando Bento sonhou
João Paulo de Paiva Boléo (texto)
CNBDI (Portugal, Fevereiro de 2011)


Hoje, às 21 horas, no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI), na Avenida do Brasil, 52A, na Amadora, será apresentado o livro “E Tudo Fernando Bento Sonhou“, da autoria de João Paulo de Paiva Boléo, no seguimento da (magnífica) exposição com o mesmo nome que comissariou e esteve patente no Amadora BD 2010.
Este evento inaugura o programa de encontros mensais “Às Quintas falamos de BD”, que terão lugar no CNBDI, na última quinta-feira de cada mês, de Fevereiro até Maio

23/02/2011

L’orfèvre

Collection Les Intégrales
Warnauts (texto e desenho)
Guy Raives (texto, desenho e cor)
Glénat (França, 9 de Fevereiro de 2011)
180 x 243 mm, 240 p., cor, cartonado, 15,00 €


Resumo
L’orfèvre (o ourives), é o apelido de Charles-André Lafleur, um agente ao serviço do estado francês, que encontramos envolvido em inquéritos de contornos políticos, numa qualquer república da América Central, Nova Iorque, Paris ou no Cambodja.
Ambientado nos anos 30, este álbum recolhe os 5 tomos que Lafleur protagonizou – La Mort commme um piment, La maison sur la plage, K.O. sur ordonnace, Le sourire de Bouddha e Les Larmes de la Courtisane, originalmente publicados entre 2000 e 2004.

Desenvolvimento
Comecemos por falar da colecção. Ao contrário da maior parte doutros volumes integrais que aqui tenho referido, geralmente dedicados à recuperação de séries clássicas, a colecção Les Intégrales da Glénat – tal como esta da Dupuis – tem uma orientação diferente. Assim, agrupa num único volume, no formato geralmente designado como de ‘livro’ – seja lá isso o que for… - alguns tomos de uma série (ou toda a série como neste caso), mais ou menos recente e de algum sucesso.
No caso presente, “L’orfèvre” compila os inquéritos de Lafleur, agente ao serviço do estado francês, envolvido em casos com contornos políticos, relacionados com tráfico de influências, contrabando de droga ou de objectos de arte. A apimentar cada um deles encontram-se elementos mais comuns em relatos policiais, como relacionamentos dúbios, racismo, sexo, traição e alguma violência.
Lafleur, cujo passado, algo nebuloso, vai sendo aflorado ao longo dos relatos, ao contrário de muitos dos seus pares detectives, privilegia a dedução, a intriga e a actuação na sombra em detrimento da acção directa, o que se traduz em narrativas de ritmo moderado que os autores aproveitam para definir e aprofundar o carácter dos principais intervenientes, bem como para tornar mais complicados os contornos de cada caso, cujos desfechos nem sempre são os esperados, o que por vezes obriga a uma releitura para que o leitor se aperceba de todos os pormenores disponibilizados (em texto, expressões, cenário…).
E também, importa dizê-lo, porque essa é uma das principais características deste álbum – bem como de outros da dupla Warnauts/Raives – pois esse ritmo pausado (apesar da diversidade da planificação) permite-lhes demorarem-se e aplicarem-se nos (belos) retratos de cada um dos lugares, exóticos (ou não) onde a presença de Lafleur é exigida, enquanto mostram apontamentos de como foram os agitados anos 30 do século passado. E, igualmente, em contraste com o tom algo caricatural usado para os homens, nos belos e chamativos retratos das belas mulheres que são outra constante nas suas obras.

A reter
- As belas mulheres de Warnauts e Raives.
- As soberbas cores que pintam cada prancha.
- A possibilidade de o leitor comprar 5 tomos pelo preço de um só, poupando na carteira - e no espaço de prateleira!

Menos conseguido
- Algum estaticismo das figuras humanas.
- O menor à vontade revelado pelos autores na representação das cenas de maior acção, como a perseguição automóvel das páginas 75 a 77.
- A redução do formato em relação aos tomos originais que, se não prejudica a leitura em si, não permite apreciar da mesma forma a arte de Warnauts e Raives.

22/02/2011

Armazém Central

#3 – Os homens
Régis Loisel e Jean-Louis Tripp (argumento e desenho)
Edições ASA (Portugal, Janeiro de 2011)
227 x 302 mm, 80 e 72 p., cor, capa cartonada, 15,95 €

Resumo
Com o regresso dos homens à aldeia, uma vez terminada a campanha de Inverno que os ocupava na floresta, o novo equilíbrio estabelecido na pequena povoação de Notre-Dame-des-Lacs com a chegada de Serge e a abertura do seu restaurante vai ser posto em causa, bem como a presença deste último.
É tempo, então, de mulheres e homens assumirem posições, se bem que isso nem sempre seja fácil nem compreensível para uns e outros.

Desenvolvimento
Loisel e Tripp, neste último tomo da primeira trilogia de Armazém Central, continuam a explanar o pequeno universo de uma povoação canadiana do início do século passada, (quase) isolada do resto do mundo e fechada sobre si própria, os seus relacionamentos, os seus problemas, as suas questões, as suas certezas (nunca questionadas). E, principalmente, abalá-lo profundamente pela chegada de Serge – e pelas reacções distintas que ela provoca - que representa, aqui, a novidade, a inovação, a diferença.
Não obrigatoriamente o verme que entra na maçã e a apodrece – como se pode ler ao longo do álbum, nas reflexões do (falecido) marido de Marie, mas um elemento estranho que abala a comunidade, o seu equilíbrio, a sua estabilidade, que desperta dúvidas e sentimentos que até aí nem sequer se sabia que existiam – ciúme, inferioridade, dúvida, temor de perda do que era dado por certo…
Não sem alguma ironia - que os autores reforçarão de forma inesperada no final deste tomo, de uma forma que eu não vou revelar – são as mulheres quem melhor aceita essa diferença, tentando tirar (tirando mesmo) – a vários níveis – o melhor partido dela.
As mulheres e Gaëtan, o imbecil da aldeia…
Nesse pequeno universo, se nos dois primeiros tomos parecia ter-se estabelecido um novo equilíbrio, a chegada dos homens – até aí donos e senhores - vai, mais uma vez, alterar tudo. Receosos do desconhecido, incomodados pelas mudanças que descobrem na aldeia, desconfiados do que é novidade, vão tomar uma atitude de força. Só que, ao contrário do esperado, as mulheres fazem-lhes frente, recusam obedecer; um clima de quase guerra civil – mais guerra de sexos, sem sexo! – instala-se então na aldeia. E afecta todos: o pároco que enfrenta uma crise de fé, afogada em bom licor de ameixa; Marie, desejosa de avançar na sua relação com Serge; as mulheres que querem alguma independência; os homens, de súbito perdido, inseguros e impotentes.
E é dos sentimentos e reacções de cada um – e do todo que resulta num conjunto heterogéneo – que o álbum avança, num tom profundamente humano, reforçado pelo cuidado – o tempo – empregue na descrição de cada episódio – de cada pequeno nada, atrevo-me a dizer – seja a festa surpresa para Gaëtan, seja o parto de Alice, seja…
Por isso, também, neste volume, mais uma vez longo e pausado, as diversas cenas decorrem a um ritmo calmo e ameno, que permite ao leitor meditar sobre o que se passa, tentar antever o que se seguirá, surpreender-se com o que afinal acontece.
Se – juntos? - vão conseguir ou não reencontrar um equilíbrio – o antigo ou um novo que satisfaça a todos – não o vou dizer. Prefiro deixar o convite para que leiam esta bela BD, uma verdadeira análise sociológica a uma época em que havia tempo para pensar e reflectir – o que não é sinónimo que tudo fosse feito de forma pensada e reflectida!
Uma chamada final de atenção para o desenho, onde a par das personagens semi-caricaturais mas credíveis, reconhecíveis, expressivas, há um fabuloso trabalho de iluminação em cada cena, tornada sombria ou luminosa conforme as necessidades narrativas, o que constitui (mais) uma mais-valia para um dos melhores títulos editados no nosso país nos últimos anos.

A reter
- A notável sequência – quase muda – das páginas 58 e 59 em que Marie, relutante, hesitante, insegura, se oferece a Serge. Expressiva, sentida, emocionante, bela, comovente.
- A riqueza expressiva da narrativa, não tanto nos textos escritos, que são relativamente poucos, mas naquilo que se pode ler e inferir nos rostos e nas atitudes de cada um dos intervenientes.

Menos conseguido
- Os quatro anos que intermediaram entre o primeiro tomo e este. Esperemos que não seja necessários esperar tanto pelos três volumes restantes.

21/02/2011

O Livro do Buraco

Peter Newell (texto e desenho)
Libri Impressi (Portugal, Dezembro de 2010)
172 x 228 mm, 60 p., cor, cartonado, 13,00 €


1. Numa época de buracos – orçamentais, futebolísticos, nas ruas, etc. - da próxima vez que for à livraria, não se assuste se, ao folhear um livro, encontrar nele um buraco. Ou melhor vários buracos, um em cada página do livro, todos perfeitamente alinhados.
2. Buracos, literalmente, no sentido de orifício, de furo, de falta de (um bocadinho de) papel, permitindo espreitar através das páginas.
3. Dirão os mais optimistas, que são pequeninos, apenas uns 5 ou 6 milímetros de diâmetro, mas, mesmo assim, não deixam de ser buracos em páginas de livros. O que não é normal, convenhamos.
4. E não se ponham os mais exaltados a declarar já guerra a ratos, peixinhos de prata ou caruncho - provocando a habitual reacção exacerbada dos amiguinhos dos animais, defendendo o seu direito à alimentação, à livre circulação e, até quem sabe, ao acesso à cultura…
5. Se o livro em questão tem um buraco, é porque o autor o fez.
6. Quer dizer, não foi mesmo o autor - ele até já morreu, em 1924 – o buraco foi da responsabilidade da gráfica – está escrito no livro!
7. Mas não, também não é isso, não interprete mal; não foi acidente, defeito de fabrico ou de produção. Se a gráfica fez um buraco no livro, foi porque o autor quis. Quer dizer, o autor já não quer nada - morreu há 86 anos, mais coisa menos coisa, acho que já o tinha referido - mas quando Peter Newell criou esta obra, imaginou-a com um buraco. Sim, com um buraco – b-u-r-a-c-o - leram bem.
8. Aliás, até acho que deviam ter percebido logo que assim é, já que ela se intitula precisamente "O Livro do Buraco"!
9. (O que não quer dizer que “O Grande Livro dos Dinossauros” tenha criaturas pré-históricas autênticas lá dentro…)
10. Até porque é mais fácil encontrar buracos do que dinossauros… Aliás, se a moda pegar, talvez as Estradas de Portugal pudessem exportar alguns dos muitos que possuem, equilibrando (o buraco das) contas, entregando pás e picaretas a alguns especialistas neles e até para benefício de quem circula…
11. Adiante. Esclarecida (?) a questão do buraco, falemos um pouco de Peter Newell, um norte-americano nascido em 1862, que dá a impressão que embirrava um pouco com os livros – ou pelo menos com o seu conceito tradicional tout-court – pois, para além de os furar (como já vimos), também gostava deles inclinados…
12. …pois também foi ele o autor de “O Livro Inclinado” (da Orfeu Negro), que pode igualmente ser encontrado nas livrarias nacionais, para desespero de quem gosta das obras bem alinhadas nas prateleiras, que narra o que acontece quando uma ama larga inadvertidamente um carrinho com um bebé por uma ladeira abaixo.
13. Para além disso, Newell criou anedotas ilustradas com texto em rima, fez banda desenhada – “The Naps of Polly Sleepyhead” – e ilustrou diversas obras…
14. … para além de ter criado uma mão cheia de livros que se destacaram pelas razões menos convencionais: os dois já citados, “The Rocket Book” que não, não traz um foguetão lá dentro, narra isso sim o que acontece quando um foguete é lançado na cave de um imóvel com 20 andares, que ele atravessa com resultados desastrosos... ou nem tanto!...
15. ... e ainda “Topsys and Turvys” 1 e 2, cujas imagens têm dupla leitura, conforme são vistas na posição normal ou de cabeça para baixo...
16. Abordando agora “O Livro do Buraco” – sem cair no dito cujo… - começo por resumi-lo: tudo começa quando o descuidado Tomás Potts, dispara inadvertidamente uma pistola, levando a poderosa bala a furar a parede de sua casa e, a partir daí, todos os obstáculos que encontra pelo caminho. Com tal força e determinação que, quem sabe, pode até voltar ao local de origem e matar o miúdo, por trás… Ou não, isso só saberá quem ler o livro, porque não basta espreitar pelo (seu) buraco. É mesmo necessário (e aconselhável) voltar página após página; tarefa facilitada, neste caso concreto, pelos já citados buracos, que diminuem o peso de cada uma.
17. E se é verdade que esta não é uma BD, o género que monopoliza aqui as minhas leituras, nem uma anedota ilustrada com texto em rima, não será de todo impossível encontrar nele características de uma e outras: a sequência narrativa, no percurso da bala, a rima em todo o texto do livro e as anedotas em cada página ilustrada do mesmo.
18. O traço de Newell, semi-caricatural, simples, legível e dinâmico, adapta-se na perfeição à narrativa - preenchendo perfeitamente o espaço em volta do furo, dirão os mais maldosos….
19. Da edição, mais uma de Manuel Caldas, só se pode dizer bem, como é habitual. Ou seja, que não furou as expectativas (apesar de furada). Desde a excelente tradução (igualmente em rima) à reprodução dos desenhos, na dimensão exacta em que foram criados, da encadernação ao acabamento. Onde se inclui o buraco. Geometricamente irrepreensível e com funcionalidade (de buraco) nos dois sentidos. Por estranho que possa soar. Mas sobre ele, já escrevi.
20. Claro que de um ponto de vista comercial, de markting, faria mais sentido que o dito orifício atravessasse também as capas, mas do ponto de vista narrativo só pode mesmo trespassar a maior parte das páginas do volume.
21. Posso ainda acrescentar, sem furar o segredo que deve ser inerente a qualquer resenha/crítica, que apesar da sua modernidade e inventividade, o livro tem mais de 100 anos – foi criado em 1908 – sendo o seu humor algo ingénuo, próprio daquela época.
22. Apesar disso – por isso? – confesso que me diverti bastante com a sua leitura – tal como o meu filho de 5 anos, prova de que poderá agradar a todas as gerações e a leitores com as mais variadas exigências – razão pela qual, sem medo de cair nele, aconselho vivamente a compra do livro (com o buraco).
23. E com uma vantagem, que este tomo também exalta: por muito que se esforcem, nenhum e-book conseguirá apresentar o tal buraco. Mesmo eu, nas páginas que aqui mostro, não consegui reproduzi-lo…. Os meus leitores podem sempre utilizar um berbequim ou prego e martelo no ecrã, mas, com franqueza, não me parece o mais aconselhável… Se querem o buraco, comprem mas é o livro!

20/02/2011

Selos & Quadradinhos (26)

Stamps & Comics / Timbres & BD (26)
Tema/subject/sujet: Sunday Funnies Stamp - Beetle Bailey, Calvin and Hobbes, Archie, Garfield, Dennis the Menace
País/country/pays: Estados Unidos da América / United States / États Unis
Data de Emissão/Date of issue/date d'émission: 2010

19/02/2011

Leituras de Banca

Fevereiro 2011
Títulos que já estão ou estarão em breve disponíveis nas bancas portuguesas.

Mythos
Tex #464 – Dinheiro sujo
Tex Colecção #256 – Os rebeldes do Canadá
Tex Edição Histórica #77 – Mescaleros!
Os Grandes Clássicos de Tex #24 - Drama na Pradaria / Rastros no Deserto
Zagor #113 - O Bando do Caolho
Zagor Extra #77 – Tragédia em Silver Town
Zagor Especial #27 – O Último Vicking
J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga #70 – O Grande Mar de Relva
Mágico Vento #99 – Custer: Morre Uma Lenda

Panini
Turma da Mónica
Este mês chegam pela primeira vez às bancas portuguesas três novas revistas de periodicidade semestral - Almanaque do Bidu e Mingau, Almanaque do Horácio e Piteco e Almanaque do Papa Capim e Turma da Mata – que permitem conhecer melhor algumas personagens criadas por Maurício de Sousa com aparições esparsas nas revistas regulares.
Almanaque da Magali #22
Almanaque da Tina #8
Almanaque do Bidu e Mingau #1
Almanaque do Chico Bento #22
Almanaque do Horácio e Piteco #1
Almanaque do Papa Capim e Turma da Mata #1
Almanaque sem Palavras #1
Cascão #44
Cebolinha #44
Chico Bento #44
Magali #44
Maurício Apresenta #10 – Turma da Mônica em Todas as Copas do Mundo (parte 2 de 2)
Mônica #44
Ronaldinho Gaúcho e Turma da Mônica #44
Turma da Mônica – Clássicos do Cinema #21 – O Galodiador
Turma da Mônica – Histórias de 3 páginas #5
Turma da Mónica – Saiba mais #35 – Leonardo da Vinci
Turma da Mônica – Uma aventura no parque #44
Turma da Mônica Jovem #26

Marvel
Avante Vingadores #42
Homem-Aranha #103
Os Novos Vingadores #78
Wolverine #67
X-Men #103
Universo Marvel #1
Universo Marvel #2
Está previsto que estas duas últimas revistas sejam distribuídas em Fevereiro, com um intervalo de cerca de 15 dias.

DC Comics
Batman #92
Liga da Justiça #91
Superman #92
Universo DC #2

18/02/2011

True grit

Christian Wildgoose (argumento - baseado no romance homónimo de Charles Portis e no argumento cinematográfico dos irmãos Cohen - e desenho)
Paramount (Fevereiro de 2011)

27 p., pb, digital

Apesar de True Grit já ter estreado nos EUA no final de 2010, só há dias é que a Paramount disponibilizou esta banda desenhada inspirada numa das cenas-chave da película dirigida pelos irmãos Cohen, ou seja, a tempo de o promover na maior parte dos países europeus, asiáticos e sul-americanos onde só agora estreia (como aconteceu ontem em Portugal, onde recbeu o título "Indomável").
Embora seja óbvio (e assumido) o intuito promocional da BD, a verdade é que ela funciona bem autonomamente, introduzindo os leitores no universo do filme, em particular dando a conhecer o Marshall Rooster Cogburn (interpretado por Jeff Bridges).
O seu autor é o britânico Christian Wildgoose, que conta que tudo começou quando editou no seu site um sketch da personagem de Bridges, feito após o visionamento do trailler do filme. De alguma forma a imagem chegou às mãos de um responsável da Paramount que o convidou para fazer desenvolver uma BD, partindo do filme.
Agora, estão disponíveis gratuitamente online duas dúzias de pranchas, apenas a preto e branco (e cinzento para realçar os volumes), nas quais Cogburn narra num tribunal como encontrou duas vítimas dos irmãos Wharton e partiu em sua perseguição. O traço de Wildgoose, duro e agreste, revela-se ideal para o tom duro e violento da trama, não se coibindo de mostrar algumas cenas mais fortes, e para retratar o cenário em que ela decorre, deixando sem dúvida o leitor desejoso de conhecer o resto da história…
Para isso, terá que ir ao cinema… ou esperar que Wildgoose seja convidado a desenhar o restante deste western.
O que não impede que este comic, também disponível em versão francesa, esteja nomeado para os Eagle Awards, nas categorias de “Best British Black and White Comic” e “Bets Letterer” (Jim Campbell).



(Versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 17 de Fevereiro de 2011)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...