Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

30/06/2011

Melhores Leituras

Junho de 2011
Batman - O Longo Dia das Bruxas – Edição Definitiva (Panini), de Jeph Loeb (argumento) e Tim Sale (desenho)

Dragon Ball #9 e #10 (ASA), de Akira Toriyama

E tudo Fernando Bento sonhou (CNBDI), de João Paulo Paiva Boléo

J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga #72 (Mythos Editora), de Berardi e Mantero (argumento) e Boraley (desenho)

J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga #74 (Mythos Editora), de Berardi, Calza e Ghè (argumento) e Piccioni (desenho)

Le Photographe #1, #2 e #3 (Dupuis), de Emmanuel Guibert (argumento e desenho, Didier Lefèvre (fotografias) e Frédéric Lemercier (montagem e cor)

Mágico Vento #102, #103 e #104 (Mythos Editora), de Manfredi (argumento) e Barbati, Di Vincenzo, Volante e Perovic (desenho)

Met le paquet! (CBBD+La Poste), de Merho

Mocifão - Dia a dia, com azia! (El Pep), de Nuno Duarte

Tintin #16 – Rumo à Lua e #17 – Explorando a Lua (ASA), de Hergé

29/06/2011

Le Photographe – Tome 3

Collection Aire Libre
Emmanuel Guibert (argumento e desenho)
Didier Lefèvre (fotografias)
Frédéric Lemercier (montagem e cor)
Dupuis (Bélgica, Fevereiro de 2006)
240 x 320 mm, 102 p., cor, cartonado
19 €

Resumo
No fim de Julho de 1986, Didier Lefèvre parte para a sua primeira grande missão fotográfica: acompanhar uma equipa dos Médecins Sans Frontières ao interior do Afeganistão, em plena guerra entre soviéticos e afegãos.
Guibert e Lemercier transformaram o seu relato, utilizando o desenho do primeiro e as fotos de Lefèvre, numa banda desenhada em três tomos que é a um tempo autobiográfica, documental e um relato de viagem.
Ler aqui o texto sobre os tomos 1 e 2.

Desenvolvimento
Depois de um álbum, o primeiro, dedicado à preparação e à viagem – sobre a organização – e de outro, o segundo, sobre a concretização no terreno do objectivo dos Médicos sem Fronteiras – sobre a missão – este terceiro tomo é sobre o homem - e o seu regresso a casa.
O homem é Didier Lefèvre, fotógrafo. Um homem para quem o propósito da sua ida ao Afeganistão – fotografar a missão dos MSF - se tinha esgotado após algumas semanas de permanência e que aspirava regressar ao seu país, à sua casa, aos seus entes queridos. Um homem que, possivelmente, se sobrevalorizou e que desvalorizou os perigos da viagem de regresso, atenuados pela ida em grupo. Por isso, no final do segundo tomo, encontramo-lo decidido, pronto a partir, para regressar, só, ao Paquistão, de onde poderia então seguir para França.
Este álbum, por isso, relata esse regresso feito, ao longo de algumas semanas, a solo – inicialmente sozinho com um guia, depois sozinho com quatro guias, depois sozinho com uma caravana – num país desconhecido mas que começa a sentir um pouco seu – há de lá regressar mais oito vezes! – cruzando-se com os seus habitantes, com as caravanas de traficantes de droga e de armas, desconfiados, curiosos…
Uma viagem a solo, num país cuja língua mal arranha, num país cujo contacto com os locais se torna difícil, onde qualquer conversa por mais simples que seja obriga à manipulação aturada do seu pequeno dicionário, onde tantas vezes coisas tão simples de dizer – como “deixem-me só, preciso de urinar”… - se revelam intensamente complicadas, como coisas aparentemente fáceis como equilibrar a carga no cavalo, orientar-se no meio da paisagem desoladora, equilibrar as caminhadas e os períodos de descanso se transformam em problemas quase irresolúveis…
Tudo agravado pela falta de solidariedade do primeiro guia, pela falta de vontade de andar do grupo de quatro que se lhe seguiu e o abandonou só, no meio de nada, pelas exigências constantes de dinheiro e mais dinheiro da caravana que o salvou de morrer gelado no meio de uma qualquer montanha afegã… A que se há-de juntar a exigência de suborno de um guarda já na fronteira...
Aos poucos, progressivamente, tudo isto começa a pesar, a pesar demais, a tornar-se incomportável, insuportável para Lefèvre. Sobre quem a solidão, o desespero, a desconfiança em relação aos que o rodeiam, o medo puro e simples de não chegar ao seu destino, de não deixar aquele país, se abatem pesadamente.
É nesses momentos, em que avança como que sozinho, num país imenso, no meio do nada, por paisagens desoladoras, sem saber se chegará nesse dia ao destino programado, sem saber – por vezes – se acordará do sono que devia ser retemperador, que a sua câmara fotográfica surge como refúgio, como forma de fixar, de guardar aqueles momentos aterradores, de deixar um testemunho do que foi, do que fez, do que lhe aconteceu, de passar o tempo, de se manter entretido, fotografando, fotografando sempre, fotografando tudo, fazendo fotos, mais fotos, cada vez mais fotos, “para uma reportagem já terminada”.
(E no final, uma vez de regresso, serão 130 rolos – esta é uma história do tempo em que não havia máquinas digitais…) – mais de 4000 fotos das quais apenas 6 – seis, tantas, dirá ele! – serão publicadas no jornal francês Libération…
A tudo o que atrás fica (d)escrito, a tudo o mais que não citei porque o livro é de leitura obrigatória, acrescente-se o progressivo e acentuado declínio físico: perda completa de reservas do corpo, uma furunculose em avanço, orelhas feridas pela armação dos óculos, gengivas inflamadas, diarreias, febres, o esgotamento físico e psicológico… Reflexos, consequências de uma experiência única cujos efeitos sentirá a longo prazo: de regresso a casa, sofrerá de furunculose crónica, no ano seguinte perderá 14 dos seus dentes…
E Guibert, Lemercier, Lefèvre, conseguem transmitir todas essas emoções através desta foto-BD, de forma tocante, próxima e sentida, pela utilização das imagens desenhadas, pelas fotos incluídas, pela montagem feita, pela planificação escolhida, pelo recurso a formas aparentemente simples de narrar, de que são exemplo a sequência das pp. 54 a 56, em que perde as estribeiras com o cavalo, ou a sequência de múltiplas e curtas vinhetas negras na p. 63, em que descreve de forma sucinta como passou uma noite só, no topo de um monte, sob neve…
Por isto, por tudo isto, por tudo o mais que convém descobrir, este é um relato pungente, emotivo, forte, profundamente humano – sobre o ser humano, a sua força, as suas fraquezas, os efeitos do desespero, do medo… mas também sobre a solidariedade, a amizade, a entrega, a disponibilidade... - que não deixa – não pode deixar – ninguém indiferente.

A reter
- A força do relato, real, realista, sentido, vivido, emocionante. Como poucas vezes uma BD conseguiu ser, o que se acentua ainda mais neste tomo final.
- A forma harmoniosa como texto, desenho e fotos se conjugam. Numa verdadeira Banda Desenhada, embora seja atípica na sua forma.
- As mini-biografias dos principais intervenientes contidas no final deste terceiro tomo, que acentuam e tornam (ainda mais) credível o relato.

Curiosidades
- Para saber mais sobre a obra e os autores recomendo uma visita ao site Le Photographe.
- Os três tomos originais desta obra podem ser encontrados em versão integral francesa da Dupuis ou inglesa da First Second Books.
- Um texto mais completo e aprofundado sobre estes dois volumes pode ser lido no catálogo do Salão Lisboa 2005.
- O terceiro tomo inclui um DVD com uma reportagem de 40 minutos filmada e montada por uma das médicas dos MSF.
- Didier Lefèvre faleceu vítima de um ataque cardíaco, em Janeiro de 2007.

28/06/2011

Mágico Vento

#102 – O retorno de Aiwass
Manfredi (argumento)
Barbati (desenho)
Di Vicenzo (arte-final)

#103 – Encontro em Providence
Manfredi (argumento)
Barbati (desenho)
Volante (arte-final)

#104 – Fugindo do Inferno
Manfredi (argumento)
Perovic (desenho)



Mythos Editora (Brasil, Dezembro de 2010, Janeiro e Fevereiro de 2011)
135x175 mm, 132 p., pb, brochado
4,00 €

Resumo
O roubo de um antigo artefacto – uma garra dourada - do Museu Smithsoniano de Washington, descoberto durante escavações arqueológicas Serpent Mound, desperta o interesse dos serviços secretos ao descobrirem que por detrás dele está a Cúpula Negra.
Poe é convidado a participar na investigação ao mesmo tempo que uma perturbadora visão põe Mágico Vento também no seu encalço, pois trata-se da chave que abre a porta do Inferno.


Desenvolvimento
Já o escrevi de alguma forma, Mágico Vento é uma longa saga cuja base é o western – e alguns episódios são western puro – mas que deambula por vezes – ou, especificando melhor, também – por outros registos como o ficcional histórico, a exploração das lendas indígenas, o tom conspirativo e o fantástico.
O ciclo narrado nos números #102 (actualmente nas bancas portuguesas) a #104 é um bom exemplo do último género citado, levando Mágico Vento a outra realidade – o Inferno…? – para evitar que Aiwass consiga regressar dos mortos. Ao mesmo tempo, o seu amigo Poe, por um lado, e Henry e Boris, agentes do serviço secreto norte-americano, por outro, perseguem, mais uma vez, os membros da Cúpula Negra tentando evitar que concretizem aquele as suas intenções.
Se o resumo acima escrito pode soar estranho para quem não está familiarizado com Mágico Vento – o que é uma pena, deixem-me referi-lo, pela qualidade da escrita de Manfredi e pela forma como ele tem desenvolvido este extenso fresco sobre o oeste americano – a verdade é que o desconhecimento do que está para trás, podendo originar algumas dúvidas, não impede a fruição da obra, podendo até funcionar como alavanca para levar o (novo) leitor a descobrir mais sobre Ned Ellis e o seu passado.
Maioritariamente passado num mundo fantástico, povoado de demónios – uns mais do que outros – em busca de redenção ou do castigo final, levantando uma série de questões sobre o que nos espera depois da morte e podendo ser lido como relato de pura acção, este ciclo – de quase 400 páginas – beneficia ainda do facto de a narração se situar a vários tempos: a vivenciada pelo protagonista e as que têm como epicentro a acção de Poe e a de Henry e Boris, concorrendo todas – sem que eles saibam – para um final – não apoteótico mas quase catastrófico – comum.
E Manfredi, tirando bom partido do aumento de páginas de que a edição beneficiou recentemente, gere com mestria estes diversos momentos, deixando sucessivamente a acção em suspenso num momento crucial – e com ela o leitor – para retomar a narrativa noutro local, aumentando assim o suspense e o seu tom dramático, explorando sentimentos e emoções.
Ao registo ficcional, o argumentista alia ainda uma base (por vezes …) histórica ao citar diversos casos inexplicados e lendas da época em que se situa a acção de Mágico Vento, contando várias histórias ao longo da história (!), aproveitando igualmente para citar e homenagear um dos mestres da literatura fantástica, H. P. Lovecraft.
Graficamente, embora reúna quatro assinaturas – Barbati, Di Vincenzo, Volante e Perovic – o relato não sofre com esse facto, revelando-se homogéneo, perfeitamente dinâmico e legível, com as personagens bem definidas, servindo o uso abundante de manchas de negro para acentuar o tom sombrio e fantástico do relato.
O conjunto assim criado revela-se denso, apelativo e bastante interessante e pode funcionar como uma boa porta de entrada num universo que aconselho a descobrir.

A reter
- A forma como Manfredi explora e equilibra os diversos locais em que o relato decorre.
- A interligação entre o tom fantástico e a base histórica.

27/06/2011

Met le paquet!

Merho (argumento e desenho)
CBBD (Bélgica, Setembro de 2000)
154 x 217 mm, 64 p., cor, cartonado

1. Em tempos – diferentes, consoante os países considerados… - a banda desenhada, primeiro cómica, depois de aventuras, sempre como forma de distracção, foi iminentemente popular, devido à forma como era veiculada: em jornais ou em edições economicamente acessíveis.
2. Parente próximo da BD franco-belga – bastante divulgada entre nós - a BD (belga) flamenga nunca teve o mesmo destaque, possivelmente devido à dificuldade da língua. Não obstante, calcorreou em muitos casos – em especial no que ao humor diz respeito – caminhos paralelos, oferecendo leituras similares.
3. Também iminente-mente popular – muitas vezes pré-publicada em jornais diários, a um ritmo infernal, traduzido em 4, 5 álbuns por ano que obrigavam ao recurso a trabalho de estúdio - nela destacaram-se autores como Willy Vandersteen ou Marc Sleen, primeiro, e Jef Nijs, Hec Leemans ou Jean-Pol, e séries como Bob & Bobette (das menos desconhecidas entre nós), Néron, Briochon ou Kiekeboe.
4. Se confesso também o meu desconhecimento quase total sobre estes quadradinhos, serve este texto para lhes fazer uma primeira (e breve) introdução, derivada da leitura de “Met le paquet!”.
5. Comprado pela sua associação à emissão de um selo belga com a família Quivoila, protagonistas da serie Fanny & Cie (ou Kiekeboe em flamengo), selo esse reproduzido na capa e incluído neste álbum de pequeno formato, foi uma agradável surpresa, enquanto leitura de pura distracção.
6. Tendo por base aquela família, a história encaixa na comédia tradi-cional, que tem por base o multiplicar de situações equívocas que se vão acumulando num crescendo imparável até desembocarem num final inesperado e grandioso.
7. No caso presente, esta banda desenhada combina um assalto com tomada de reféns, um bolo com um anel de diamantes no seu interior perseguido por várias pessoas por diferentes motivos, a compra de última hora de prendas relacionadas com um aniversário de casamento, um pintor infeliz à desfilada sobre um andaime com rodas e mais uma série se situações estranhas, que aos poucos confluem para um mesmo local, e que se tornam irresistíveis e obrigam o leitor a sucessivas gargalhadas.
8. O traço é simples e eficaz, as cores lisas, claras e agradáveis, as personagens bem definidas e facilmente identificáveis e o ritmo narrativo alucinante.
9. O todo, como já ficou claro, cumpre muito bem a sua função (única) de divertir e dispor bem, o que está longe de ser de alguma forma um defeito, bem pelo contrário.

26/06/2011

Selos & Quadradinhos (52)

Stamps & Comics / Timbres & BD (52)
Tema/subject/sujet: Philatelie de la Jeunesse – Kiekeboe
País/country/pays: Bélgica/Belgium/Belgique
Data de Emissão/Date of issue/date d'émission: 2000

25/06/2011

Smurf Global Day

Hoje é o Smurf Global Day, algo como Dia Mundial dos Smurfs, que é como quem diz, mais correctamente, Schtroumpfs. A iniciativa é da Sony and Colombia Pictures e enquadra-se na promoção da primeira longa-metragem dos simpáticos seres azuis, cuja estreia está prevista para 29 de Julho nos Estados Unidos.
A escolha do dia 25 de Junho serve ao mesmo tempo para assinalar o aniversário do nascimento de Peyo, o seu criador, em Bruxelas, em 1928. De seu verdadeiro nome Pierre Culliford, deu os primeiros passos num estúdio de animação onde conheceu Franquin (criador de Gaston Lagaffe) e Morris (Lucky Luke), tendo naturalmente transitado para a banda desenhada.
Em 1950, criou a série “Johan et Pirlouit” (João e Pirulito em Portugal) onde apareceram os Schtroumpfs (agora chamados Smurfs por via das versões televisivas e cinematográfica norte-americanas; ao menos não foram buscar a designação espanhola de Pitufos…).
O sucesso dos pequenos seres azuis levou Peyo a desenvolvê-los em série autónoma, dando-lhes um inimigo, o Feiticeiro Gargamel e explorando a sua linguagem típica, repleta do termo “Schtroumpf”, e as diferenças devidas às suas características e personalidades, que lhes dão nome: o sábio, o zangado, o cozinheiro, o dorminhoco, o brincalhão, etc. E no facto de na sua aldeia haver apenas uma personagem do sexo feminino.
Para assinalar o dia de hoje, estão previstas diversas iniciativas, a mais visível das quais a tentativa de bater o recorde de pessoas vestidas como Schtroumpfs: corpo pintado de azul e boné, calções e sapatos brancos. Haverá concentrações em Bruxelas, Atenas, Haia, Dublin, Cidade do México, Cidade do Panamá, Varsóvia, Moscovo, Joanesburgo, Nova Iorque e Londres, sendo 2510 o número a ultrapassar. Em Espanha, a vila de Júzcar, em Málaga, conhecida pelas suas casas brancas características da Andaluzia acordará completamente pintada de azul, e o famoso The O2, em Londres, vai transformar-se no The O Blue. Nas principais praças de Paris, Reiquiavique, Bogotá, Zurique ou Copenhaga vão ser implantadas Casas Azuis, habitadas por pequenos Schtroumpfs em tamanho real (cerca de 20 centímetros).
O salto da banda desenhada para a televisão, nos anos 90, apesar de descaracterizar os Schtroumpfs fez a sua popularidade passar as fronteiras francófonas.
O actual filme, dirigido por Raja Gosnell, que congregou esforços de duas das maiores produtoras, a Columbia Pictures e a Sony Pictures, assinala a sua chegada ao mundo real, para onde foram enviados por Gargamel e onde vão interagir com Neil Harris e Jayma Mays. Nas vozes originais encontram-se Hank Azaria (dos Simpsons), Kate Perry ou Jonathan Winters. A estreia portuguesa está marcada para 11 de Agosto.

(Versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 25 de Junho de 2011)

24/06/2011

O Porto aos quadradinhos

Rui Ricardo
Se a poesia canta que do Porto “houve nome Portugal”, foi também lá que nasceu o primeiro grande salão nacional dos quadradinhos e, por via dele, muita banda desenhada, rica na sua diversidade, sedutora nas suas ofertas, que tem mostrado a cidade sob diversos prismas gráficos, históricos e ficcionais.
Com uma longa história, não surpreende, por isso, que as primeiras referências à Cidade Invicta nos quadradinhos sejam anacrónicas. Hermínio, herói de Borges e Moreiras, nas suas demandas passou por Portucale onde os valorosos habitantes gritavam “Portucale ainda será uma naçon!”, e Tito e André, com as liberdades que a ficção permite, levaram Tónius, o lusitano - uma espécie de émulo nacional de Astérix - num intervalo dos seus confrontos com os mouros, a provar um precioso néctar, “colheita de 680", retirado de barris encontrados num barco rabelo perto da foz do “rio Durius”, junto a uma (então) pequena povoação.
André
Mas deixando o humor de parte, pode-se afirmar que as visões do Porto aos quadradinhos, sempre com a cidade a servir de palco da narrativa, seguem geralmente dois rumos. O das abordagens históricas, assinadas por autores de traço clássico, e outras, mais modernas e recentes, de tom ficcional.
Um dos exemplos do primeiro aspecto considerado é a “História do Porto em BD”, de Luís Miguel Duarte e José Garcês, lançada quando a cidade foi Capital da Cultura, em 2001, para tornar acessível “a um público diversificado os episódios marcantes da rica história da antiga, mui nobre e sempre leal, invicta cidade do Porto".
José Ruy
Outras abordagens históricas, mais generalistas, incluem geralmente episódios ocorridos no Porto, como as lutas liberais ou as movimentações que levaram à implantação da República, como acontece na “História de Portugal em BD”, de Carmo Reis e José Garcês.
A presença do Porto é maior em “Almeida Garrett e a Cidade Invicta”, em que José Ruy, com a sua técnica personalizada, traça a biografia do grande escritor, realçando a sua ligação à cidade,que retrata com rigor bem como alguns dos seus contemporâneos. O mesmo autor, em “As viagens de Porto BomVento”, tem uma abordagem curiosa em que combina ficção e realidade histórica, para contar o quotidiano de um piloto do Douro, nascido em 1462 e que participou nalgumas das viagens dos Descobrimentos, ao mesmo tempo que retrata o Porto do século XV.
José Ruy
Mais recentemente, Carlos Morgado e Luís Correia colocam algumas das “História e Estórias do ACP” em zonas conhecidas da cidade, mostrando a sede do ACP, o palácio de Cristal ou a emblemática Torre dos Clérigos.
Paulo Jorge
Este mesmo monumento, embora de forma satírica, a cair de velho, surgia num dos folhetos do 1º Salão de BD e do Fanzine do Porto, em 1984, génese do primeiro grande evento regular do género dedicado aos quadradinhos.
Na sua esteira e graças ao impulso que o evento deu também à BD local, surgiram obras como “Jogos Humanos” e “Canção do Bandido”, ambas de Paulo Patrício e Rui Ricardo,com um tom próximo da crónica urbana, em que o Porto era o local de vivência e de experiências de uma juventude agitada e inquieta.
Vítor Almeida
Já “Stad”, resultou do desafio feito a 10 autores nortenhos “para contarem em BD uma das muitas histórias que lhes surgem do convívio diário com o Porto”, passando pelas suas páginas figuras como o cauteleiro, a peixeira, o moina e o engraxador e um prato típico como a francesinha.
Ainda no âmbito do SIBDP, não deixa de ser curiosa a visão traçada no seu diário gráfico por James Kochalka, um autor norte-americano que foi seu convidado, sensível às ruas estreitas, gradeamentos e… belas mulheres e que a Quadrado reproduziu.
Maior conteúdo ficcional encontra-se em “BRK”, de Filipe Pina e Filipe Andrade, que se inicia com um atentado terrorista na baixa do Porto, e, a outro nível, “Uma viagem fantástica”, resposta de Manuel António Pina e Rui Azul ao desafio de uma das empresas que concorreu à adjudicação do metro do Porto, para imaginarem como seria a futura rede de transportes rápidos.
Rui Azul
Com a íntima ligação à cidade por todos (re)conhecida, o F. C. do Porto também teve direito ao seu momento de fama… aos quadradinhos!
Artur Correia
Isso aconteceu na década de 1990, quando o jornalista Manuel Dias e o desenhador Artur Correia juntaram talentos para criar “Era uma vez um Dragão ou a história do Futebol Clube do Porto contada às crianças” (Edições ASA) (a par de “Era uma vez um Leão” e “Era uma vez uma Águia”, dedicadas respectivamente a Sporting e Benfica).
O livro, em tom divertido e com um traço caricatural, traça o percurso portista desde as suas origens no início do século XX, até à conquista da Taça dos Campeões Europeus, em Viena, em 1987, frente ao Bayern de Munique. E onde, como não podia deixar de ser, são reconhecíveis não só os grandes jogadores que passaram pelo clube como também treinadores como Pedroto, Morais e Artur Jorge e, claro, o seu presidente, Pinto da Costa.
Para concluir este passeio pelos quadradinhos que têm o Porto como palco, uma história de Pitanga, publicada no Quadrado, escrita por Arlindo Fagundes e Pedro Sousa Diasleva-nos até à Ponte Luiz I e à Ribeira, para assistir a uma reflexão amarga sobre racismo motivado por reminiscências da guerra colonial e da ditadura, cujo título evoca o hino “oficioso” da cidade: “Quem vem e atravessa o rio…”
Pedro Sousa Dias
Filipe Andrade

Rui Ricardo

Artur Correia

Vítor Borges

José Garcês

Luís Correia

James Kochalka

Rui Ricardo

Rui Ricardo

Referências bibliográficas
Hermínio – Regresso a Portucale
Paulo Moreiras (argumento)
Victor Borges (desenho)
Pedranocharco, 1996

Tónius o lusitano – Uma aventura nas Astúrias
Tito (argumento)
André (desenho)
Editorial Pública, 1981




História do Porto em BD
Luís Miguel Duarte (argumento)
José Garcês (desenho)
Edições ASA, 2001

História de Portugal em BD
(4 álbuns compilados num volume)
Carmo Reis (argumento)
José Garcês (desenho)
Edições ASA, 2005

Almeida Garrett e a Cidade Invicta
José Ruy (argumento e desenho)
Âncora Editora, 1999

As Viagens de Porto Bomvento
(8 álbuns compilados em 2 tomos)
José Ruy
Edições ASA, 2005

História e Estórias do ACP
Carlos Morgado (argumento)
Luís Correia (desenho)
Edição da Revista ACP, 2009




Jogos Humanos
Paulo Patrício (argumento)
Rui Ricardo (desenho)
ASIBDP+Bedeteca de Lisboa, 1999




Canção do Bandido
Paulo Patrício (argumento)
Rui Ricardo (desenho)
Edições Polvo, 2001

STAD
Ágata Moreira, Isabel Carvalho, J.M. Saraiva, Manuel Cruz, Mário Moura,
Paulo Patrício, Pedro Nora, Rui Duarte, Rui Ricardo, Vítor Almeida
ASIBDP+Colectivo alíngua, 2001




BRK tomo 1
Filipe Pina (argumento)
Filipe Andrade (desenho)
Edições ASA, 2009




Uma viagem fantástica
Manuel António Pina (argumento)
Rui Azul (desenho)
Gec Alsthom, 1996

Era uma vez um Dragão ou a história do F. C. do Porto contada às crianças
Manuel Dias (argumento)
Artur Correia (desenho)
Edições ASA, 1992




(Versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 24 de Junho de 2011)
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