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26/09/2012

Fun Home

Uma tragicomédia familiar
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Alison Bechdel
Contraponto (Portugal, Setembro de 2012)
150 x 230 mm, 240 p., pb, brochada com badanas
16,60 €
 
 
Resumo
Banda desenhada autobiográfica, Fun Home narra a relação entre a autora, Alison Bechdel, e o seu pai, revista à distância, após a morte (ou suicídio?) daquele.
 
Nota prévia
O título original – Fun Home – apesar do que possa parecer, tem menos a ver com uma casa divertida – embora o trocadilho seja propositado e o conceito esteja presente (embora deturpado) – do que com a casa funerária – Funeral Home – local de trabalho do pai da autora, onde ela e os irmãos passaram muitas horas - muitas delas divertidas. Sabê-lo é importante.
 
Desenvolvimento
Embora o modelo que preside aos textos de recensão de obras aqui em As Leituras do Pedro, não seja rígido, longe disso, até porque utilizo mais do que um, em ocasiões particulares todos eles se revelam pouco eficazes.
Tal como acontece com este Fun Home, uma vez que o resumo que abre este texto, revela-se extremamente redutor, pois despoja a obra da sua grande complexidade temática, narrativa, emocional e psicológica e deixa de fora alguns dos seus aspectos fulcrais: a não relação de Alison com o pai e a mãe; a ausência constante dos dois; as obsessões e desvios do pai; as opções sexuais de pai e filha (reveladas/descobertas poucos dias antes de ele morrer e eventual causa desse acontecimento, pelo menos aos olhos da autora); apesar de tudo, a mesma procura de si próprios e da felicidade (ou do mais próximo possível disso) empreendida por pai e filha, em coisas aparentemente díspares mas com mais pontos de contacto do que aparentemente se possa pensar…
Considerado livro do ano em 2006 pelo insuspeito New York Times, Fun Home, escrito à luz daquele acontecimento trágico, após o assumir da homossexualidade da filha e da descoberta da homossexualidade do pai, oscila entre o ajuste de contas póstumo, a homenagem, e o reconhecimento – pela primeira vez - da importância do pai na sua vida – embora inicialmente não pelas melhores razões …
Aliás, um dos pontos fortes do livro é a forma como a opinião da autora em relação ao pai aos poucos vai mudando, também fruto do trabalho de introspecção implícito ao acto criativo, que a ajuda a reavaliar factos antigos, opções e situações, agora revistas de uma perspectiva diferente.
Mostrando-se – sem nunca se exibir – ao longo de (quase) uma vida, Alison Bechdel partilha com o progenitor o protagonismo, questionando e questionando-se sobre o que realmente tiveram, sobre as suas influências, sobre a relação – distante e atípica – que viveram com a família.
Amante de uma época passada e de um estatuto social que nunca teve mas que copiou quase obsessivamente, transformando uma casa banal numa mansão de época e cultivando com os filhos uma relação distante própria de uma certa (e passada) nobreza, o pai de Alison partilhou com ela uma das suas paixões, a literatura, levando-a a ler autores que a marcaram sobremaneira – leituras que nalguns casos até intuíam o que ela só mais tarde viria a descobrir. Leituras que em diferentes momentos a ajudaram a encontrar-se, a questionar-se, a ver o mundo – e o pai - com outros olhos.
Essa relação profunda com a literatura é transportada para Fun Home, em cujas páginas se encontram muitas citações e referências a escritores como Fitzgerald, Camus, Wilde, Proust ou Joyce. Essa inserção, no entanto, surge de forma natural, como mais um instrumento narrativo e da memória, sem quebrar o ritmo de leitura – obrigatoriamente pausado pela densidade emocional do relato – convidando também a novas pausas para reflexão e assimilação do que vai sendo contado.
A narrativa de Bechdel, capaz do humor mas também da angústia, feita sem uma seguir uma linha cronológica rígida, com avanços e recuos no tempo que procuram no passado os factos que ajudam a esclarecer o presente, é de uma qualidade invulgar e o seu registo gráfico vai melhorando sensivelmente ao longo das mais de duas centenas de páginas que constituem este livro.
Que é bem mais do que aquilo que até aqui descrevi – como os seus leitores confirmarão – uma obra notável e singular, que só poderia ter a força e o impacto que possui sendo aos quadradinhos, pois nenhum outro suporte permitiria o mesmo explanar e a mesma intensidade.
 
A reter
- O olhar sóbrio de Alison Bechdel sobre o seu passado e a sua relação com o pai. Um daqueles casos em que a autobiografia é indiscutivelmente interessante e faz todo o sentido.
- A construção da obra, o seu grafismo, a interligação texto/desenho.
- A edição da Contraponto, muito bem trabalhada em termos de tradução e legendagem….
- … e o acto de coragem que ela significa, neste país chamado Portugal.
 
 

5 comentários:

  1. Os muitos parabéns à Contraponto por nos trazer esta pérola. Reparo que desta vez não houve pontos "menos conseguidos" é que se os há eu também não os encontrei :)

    Abraço

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    Respostas
    1. Caro Loot,
      Sem dúvida que a Contraponto está de parabéns por esta edição, que me parece irrepreensível.
      Quanto aos aspectos "Menos conseguidos", nem sempre se destacam...
      Boas leituras!

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  2. Excelente obra com um texto muito bem escrito e muito bem articulado com as imagens. É sem dúvida uma edição cuidada e muito agradável. Com uma "raiva" ternurenta somos confrontados com o olhar duma filha sobre o seu pai e as dúvidas que vão desde a rejeição à aceitação e à compreensão. O desenho pareceu-me muito bem adequado ao texto e ao objectivo da obra. TEnho que reconhecer que não conhecia mas adorei e, por mim, quase nunca me lembrei da relação sexo género que a obra levanta. Duma grande humanidade é concerteza um ponto muito positivo na edição de Bd neste ano de 2012. Que a Contraponto nos continue a surpreender positivamente.
    Para finalizar parabéns à sua recensão. Como habitualmente é-me sempre muito agradável ler os seus posts. Obrigado.

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    Respostas
    1. Caro Letrée,
      Confesso que também desconhecia a obra e que ela me surpreendeu e agradou bastante.
      A questão sexo/género, embora importante, parece-me secundária no conjunto da narrativa.
      Quanto à Contraponto, se merece todos os elogios por esta edição e também pela do Persépolis, vai continuar a causar boas surpresas em 2013. pelo que se deseja que o ano novo chegue depressa!
      Boas leituras!

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