Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

29/02/2012

Histórias do Clube da Esquina











Laudo Ferreira (argumento e desenho)
Omar Viñole (arte-final e cor)
Devir Livraria (Brasil, Agosto de 2011)
160 x 230 mm, 48 p., cor, brochado com badanas
R$ 22,50



Resumo
O Clube da Esquina foi o nome dado  à “esquina que ficava no cruzamento da rua Divinópolis com Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte”, local de encontro de gente jovem, entre os quais alguns músicos que, com as suas melodias e as suas letras, haveriam de fazer história na música popular brasileira.
Nomes como Lô Borges, Toninho Horta ou Milton Nascimento, aos quais outros se haveriam de juntar.

Desenvolvimento
Histórias do Clube da Esquina é um álbum que evoca a sua história, as suas histórias, combinando excertos de entrevistas, pequenas anedotas, episódios reais e o respectivo enquadramento histórico.
Aparentemente denso – o pequeno formato do álbum contribui para essa ideia (errónea) de pranchas cheias e com muito texto – Histórias do Clube da Esquina revela-se um surpreendente documentário em BD, bem estruturado e desenvolvido, sem momentos mortos nem palavras a mais, pelo equilíbrio que Laudo Ferreira conseguiu entre os diversos momentos apresentados, apesar da sua forte carga informativa.
Retrato emocional – da parte do autor, da parte dos entrevistados - de um momento único da música, da cultura brasileira, terá para além da sua consistência enquanto obra narrativa, um significado especial para a geração - as gerações – que cresceram a ouvir Milton Nascimento e os outros membros do Clube da Esquina, sim, mas também Chico Buarque, Maria Bethânia, Simone ou tantos outros que de uma ou outra forma foram por ele influenciados ou cantaram as suas canções.
Por isso, obrigado Laudo, obrigado Omar, pelas memórias que a sua leitura evocou, pelas memórias futuras que a sua leitura criou.

 A reter
- A conseguida ligação entre os vários registos do relato, cuja estrutura apresenta um dinamismo insuspeito à partida.
- A justa evocação de músicos e canções que marcaram gerações. E a mim!



28/02/2012

Gaston Lagaffe: 55 anos de trapalhadas









Se a história da banda desenhada humorística é feita em boa parte
à custa de preguiçosos e trapalhões, poucos terão encarnado tão bem esses dois papeis como Gaston Lagaffe, que se estreou nos quadradinhos há 55 anos.
Criação de André Franquin (1924-1997), que já tinha passado com bastante sucesso pelas aventuras de Spirou, onde criou o Marsupilami, Gaston, curiosamente, começou por deambular pelas margens das páginas da revista Spirou, antes de ter direito a espaço próprio.
Isso aconteceria a partir do nº985, de 28 de Fevereiro de 1957, onde Gaston surgiu com uma aparência bem diferente daquela que mais tarde assumiria: cabelo curto, blaser e lacinho vermelho, que progressivamente se transformaram em camisola de gola alta verde e jeans azuis que combinavam melhor com o seu cabelo farto, revolto e desgrenhado, com a sua personalidade distraída, inventiva e fantasiosa e com a sua preguiça proverbial.
Por isso, o trabalho sempre atrasado, o correio por entregar, uma habilidade especial para fazer gorar os contratos com o sr. De Desmaeker, as invenções com tanto de surpreendente quanto de inútil, o velho Fiat 509 literalmente a cair aos pedaços, os seus irritantes animais de estimação (um gato hiper-activo e uma gaivota sarcástica) e, acima de tudo, o ensurdecedor broncofone, levaram ao desespero muitas vezes os seus colegas da redacção da revista Spioru, onde decorriam as suas aventuras de papel.
Com ele, Franquin, um autor introvertido e de carácter depressivo, deu largas ao seu génio de contador de histórias em quadradinhos e revelou um sentido de humor irreverente e contagiante que fizeram dele um grande sucesso ao longo de cerca de 40 anos de publicação.
Em Portugal, a criação de Franquin foi estreada como Zacarias no nº2 do Foguetão, em Maio de 1961, revista em que teve passagem meteórica. Depois, divertiu igualmente os leitores do Zorro, Spirou, Jacaré e Selecções BD.
A primeira edição nacional em álbum, como Gastão Dabronca, esteve a cargo da Arcádia, a partir de 1978, tendo estado presente igualmente nos catálogos da Meribérica/Líber (a partir de 1989) e da ASA, que fez a sua edição integral na colecção Gaston -Os Arquivos do Lagaffe, distribuídos com o jornal Público no Verão de 2010.


27/02/2012

Castro











Colecção écritures
Reinhard Kleist
Casterman (França, 4 de Janeiro de 2012)
173 x 241 mm, 328 p., pb, brochada com badanas
18,00 €



Resumo
Biografia aos quadradinhos do líder cubano Fidel Castro, desde a juventude até abdicar do poder, mais de quarenta anos depois.

Desenvolvimento
Esta é uma biografia na plena acepção do termo. Uma narrativa forte e intensa tal como aquele que é seu objecto, Fidel Castro, líder dos destinos de Cuba durante mais de quatro décadas e um dos mais carismáticos políticos de que há memória.
Conhecemo-lo através de Karl Mertens, um fotógrafo alemão que desembarcou na ilha em 1957 com o objectivo de o entrevistar e que, seduzido pelo seu discurso – pela sua presença, pela sua força interior, pelo seu carisma - ficou na ilha – onde casaria com uma das guerrilheiras de Fidel - e acompanhou todo o seu percurso.
Dessa forma, o também alemão Reinhard Kleist - que passou um mês em Cuba a fotografar, desenhar e fazer entrevistas e muito mais tempo a ler muito sobre Fidel na preparação deste livro - consegue humanizar o relato sem lhe retirar o rigor histórico nem o tornar demasiado pesado.
Mas sejamos justos. Se esta é uma biografia, ela é uma biografia romanceada, por assim dizer, da qual não se deve esperar imparcialidade nem isenção – se é que isso é alguma vez possível.
Por isso, numa primeira fase, o retrato fornecido por Mertens/Kleis não é inocente nem objectivo. Na primeira parte deste grosso tomo - são quase 300 páginas desenhadas - é evidente o fascínio do fotógrafo – e de Kleist – pelo governante cubano.
Por isso, esse retrato inicial é traçado por alguém rendido a um ideal consubstanciado num homem de personalidade forte e palavra fácil, capaz de lutar até ao fim por aquilo em que acredita. É dessa forma que acompanhámos o seu percurso desde o início, ainda na fazenda dos pais quando já defendia os mais desfavorecidos, passando pela guerrilha nas vertentes da Sierra Madre até ao derrube do governo vigente e à conquista do poder.
E, depois, num período breve de euforia, de confiança em dias bem melhores, de crença “em amanhãs que cantam” – é inegável o endeusamento de Fidel por tantos com quem se cruzou – segue-se- rapidamente - o estabelecimento do seu governo, os saneamentos políticos, os desvios ao programa, a supressão de liberdades, o confronto com os que lhe eram próximos, a instalação de uma ditadura de sinal contrário.
E à medida que isto se passa, que o sonho – a utopia? – começa a derrapar, enquanto o desencanto aumenta à medida que se torna evidente que, em muitos aspectos, a revolução falhou em termos de objectivos e esperanças face à dura realidade e às graves dificuldades que o povo cubano tem que enfrentar, com escassez dos bens essenciais e do cercear da própria liberdade de expressão, o mesmo acontece com o olhar de Kleist, que ganha distanciamento, que questiona e interroga, num surpreendente divergir do olhar de Mertens, o fotógrafo que – não contra todos mas contra muitos e alguns dos que lhe são mais próximos – mantém inabalável a fé em Fidel e inalterável a sua confiança nele. Naquele que é, sem dúvida, um dos pontos mais conseguidos deste belo romance, por proporcionar ao leitor a oportunidade de ponderar as duas posições e optar pelo seu próprio posicionamento, á revelia de ideias pré-concebidas.
E se a história – esta história, a história de Fidel - não é nova – não podia nem pretendia ser – surge aqui com uma roupagem pouco habitual, pois poucas vezes a BD terá biografado alguém de forma tão completa e intensa.
A par do processo narrativo já aflorado, graficamente atente-se nas pinceladas negras com que Kleist compõe as suas páginas, num traço ágil e dinâmico que também se revela bem expressivo, com o qual nos conduz com elegância e o ritmo adequado por um período fundamental e apaixonante da História do século XX que, para lá da revolução em si inclui a tentativa de invasão de Cuba pelos norte-americanos, a crise dos mísseis soviéticos que chegou a pôr em causa a sobrevivência do próprio planeta ou a relação conturbada de Fidel e Che Guevara.

A reter
- O tom intenso da narrativa, a sua força.
- A forma como muda o posicionamento do autor ao longo desta biografia romanceada, em contraste com o percurso do seu narrador, o que só aumenta o seu interesse e credibilidade.
- O dossier final que reproduz esboços e desenhos feitos por Kleist em Cuba.

Menos conseguido
- Valesse alguma coisa o acordo ortográfico que alguns impuseram – querem ainda impor? - como reflexo da existência real de um grande mercado livreiro de língua portuguesa e talvez fosse possível encontrar nas livrarias portuguesas a edição brasileira de Castro, da responsabilidade da 8inverso; como não é…
Curiosidade
- Este é mais um tomo da colecção écritures, que já diversas vezes referi aqui em As Leituras do Pedro, que no próximo mês completa 10 anos de bons serviços. Conto voltar a ela, repetidamente, nas próximas semanas.


26/02/2012

As Figuras do Pedro (XVI)

Les Inventions de Gaston
1. L’Hélice à moteur pour patineur



Figura: Hélice a motor para patinador
Colecção: Les Inventions de Gaston
Fabricante/Distribuidor : Hachette Collections (França)
Ano : 2004
Altura : 13 cm
Material: Resina
Preço original: 3,00 € (nº 1)
Colecção: 45 figuras
Extras: Fascículo A4, com 20 páginas + capas a cores, com diversas abordagens a Gaston Lagaffe, ás suas invenções e à obra de Franquin. 


25/02/2012

Selos & Quadradinhos (73)

Stamps & Comics / Timbres & BD (73)


Tema/subject/sujet: Centenário do Nascimento de Edgar P. Jacobs /Centenary of the Birth of Edgar P. Jacobs /Centenaire de la naissance de Edgar P. Jacobs
País/country/pays: França e Bélgica/France and Belgium/France et Belgique
Data de Emissão/Date of issue/date d'émission: 2004






24/02/2012

Garfield











FUNtástico
Viva a Dieta!
Jim Davis
Booktree (Portugal, Fevereiro de 2012)
200 x 200 mm, 96 p., pb, brochado
12,00 €




“A que se deve o êxito de Garfield? Esta é a pergunta (invejosa...?) que se repete sempre que uma obra (uma BD, um romance, um filme, ...) alcança um sucesso acima da média.
Uma parte da resposta, está sempre relacionada com as características intrínsecas do produto.
Em Garfield, a par do sentido de humor e da invulgar capacidade de Jim Davis renovar ciclicamente as mesmas piadas, a forma como facilmente nos identificamos com o protagonista não deve ser esquecida.
Ou não é Garfield a imagem de tudo aquilo que nós seríamos se nos deixassem?
Porque é indiscutível que todos detestamos as segundas-feiras e os despertadores, dietas e balanças “demasiado sinceras”, tanto quanto gostamos de comer.
E trocamos tudo por um bom mimo, ao mesmo tempo que gostaríamos de espezinhar os indefesos como forma de afirmação pessoal, enquanto buscamos uma efémera glória numa qualquer passarela, mesmo que esta seja a cerca dos fundos do nosso quintal (da nossa tv?)...
Garfield, e através dele, nós, realiza tudo isto e foi aqui que Jim Davis jogou a sua melhor cartada, ao fazer-nos rir de nós próprios, através de um gato gordo e cor de laranja...
A escolha de Davis, um gato, num mundo das tiras de imprensa onde abundavam os cães protagonistas (dos quais o mais famoso será Snoopy, tão-só personagem secundário de tira alheia, os “Peanuts” de Charles Schulz) contribuiu também para a adesão do público, apesar da tira não apresentar grandes inovações a nível gráfico, pese embora o excelente trabalho de Davis ao nível da expressividade das personagens.
Mas, na resposta à questão inicial, há dois outros aspectos incontornáveis: por um lado, a forte aposta no merchandising; por outro, a diversificação de suportes, não limitando Garfield à BD, mas passando-o também ao cinema de animação, sem perda de qualidades nem características.” 

O texto acima, publicado no Jornal de Notícias, a 19 de Junho de 2003, então a propósito do lançamento no mercado nacional das primeiras compilações de Garfield pela Booktree, mantém toda a actualidade no momento em que mais dois títulos daquela editora – Viva a dieta! e FUNtástico – chegam às livrarias nacionais.
E neles, como escrevi então, “como em todos os álbuns de recolhas de tiras de jornal, criadas para serem lidas diariamente, ressalta um aspecto: a repetição (quase à exaustão) das mesmas situações, com as mesmas personagens.
Em Garfield, se isto acontece (por isso, pela enésima vez o vemos a fazer jus ao título de gato mais preguiçoso do universo; a assaltar o frigorífico ou a roubar comida ao seu dono (ou será mais escravo...?), a humilhá-lo ou a pontapear Oddie, o cão pateta; em busca de um momento de glória na cerca do fundo do jardim, ou a praticar o seu passatempo favorito: esmagar aranhas), a forma como Jim Davis consegue sempre surpreender-nos com os (novos) desfechos que dá a (velhas) situações, convidam a uma leitura continuada, com a certeza que será entremeada muitas vezes por sorrisos francos ou mesmo saudáveis gargalhadas”. 

E, concluindo hoje: porque Garfield é, de alguma forma, uma instituição – com tudo o que isso tem de bom e pouco do que é negativo - dentro do seu género. Porque com ele, sabemos o que contamos e como contamos.
Poderão uns apontar o traço simples e repetitivo; outros as limitações em termos de cenário – o interior da casa (cama, mesa, sofá, pouco mais…) ou a cerca do jardim; alguns apontarão a limitada galeria – Garfield, Jon, uma (rara) namorada de um deles, Oddie, o sobrinho do gato, as aranhas (pouco mais do que figurantes e carne para canhão… ou jornal!)…
O que só dá mais força a uma verdade incontornável: a cada nova leitura e a cada leitura nova, Garfield diverte, desconcerta, surpreende e faz (pelo menos) sorrir.
O que, neste tempo – em qualquer tempo – não é de todo displicente.

Nota 1: Hoje como em 2003 – e como em (quase) todas as colectâneas de tiras de imprensa – nestes livros de Garfield falta a indicação (clara – na ficha técnica?) da data original de publicação das bandas desenhadas nos jornais (embora seja possível descobri-las nas “letras pequeninas” de cada tira diária ou prancha dominical).
O que podendo ser pouco significativo para a maioria dos leitores, a alguns (poucos?) ajudará  a contextualizar os gags no seu tempo e a sua posição na cronologia da série.
E isso revela-se tanto mais importante quando – porquê? - o álbum Viva a Dieta! inclui as tiras diárias e pranchas dominicais de 1 de Março a 14 de Setembro de 1999 juntamente com as de 11 de Abril a 27 de Maio de 1993…!
Quanto a Funtástico, publica as tiras diárias e pranchas dominicais de 29 de Junho de 1998 a 28 de Fevereiro de 1999. 

Nota 2: Embora algumas tenham sido publicadas aqui a cores, as pranchas dominicais e tiras diárias reproduzidas nestes dois álbuns são-no todas a preto e branco.

23/02/2012

São Jorge da Mata Escura











Marcello Fontana (argumento)
André Leal, António Cedraz e Naara Nascimento (desenho)
RV Cultura e Arte (Brasil, 2011)
2220 x 165 mm, 56 p, cor e pb, brochado
R$ 15,00



Resumo
Passada na cidade da Bahia (como Jorge Amado escreveu), esta é a enésima versão do eterno triângulo amoroso, formado por Bárbara, Jorge e Jarcisley, que cresceram juntos mas a quem o destino separará.

Desenvolvimento
Mas é uma versão com algumas variantes originais o que, a par da forma intensa como está narrada aos quadradinhos, a tornam interessante e justificam plenamente a sua leitura.
Desde logo pelos sentimentos – por vezes antagónicos – que predominam ao longo de toda a narrativa. E que unem os três protagonistas, que se conhecem desde a infância. Ou que os separam.
Porque se entre eles há amor, paixão e desejo, há também ódio e aversão. E tudo isto, combinado com interesses e ambições, acaba por resultar numa mistura explosiva, numa história (bem) ambientada numa zona problemática da cidade da Baía, o bairro da Mata Escura (que o título do livro evoca), desejado por gangs e traficantes (de droga, de gente…) e que funciona bem como estereótipo de um certo Brasil, tantas vezes presente nas notícias, em que o belo e o sombrio se confundem.
Desde criança, a bela Bárbara sempre preferiu Jorge, humilde, sincero e correcto, a Jarcisley, menos vistoso mas mais ambicioso e empreendedor, embora nem sempre dentro da legalidade. É isso que nos mostram as duas páginas inicias, as únicas coloridas, onde António Cedraz, com o seu traço agradável, traça o retrato de um paraíso que o tempo se encarregará de destruir.
Porque, com o crescimento, a chegada à vida adulta, recheada de problemas e complicações, de desemprego, sonhos adiados e contas para pagar, os sentimentos são postos à prova. E a ambição acaba por prevalecer sobre o amor e a paixão. Mesmo que o preço a pagar seja alto. Porque, se são muitos os sentimentos em jogo, prevalece em São Jorge da Mata Escura a história de vidas difíceis de se viverem. Como Jorge, primeiro, e Bárbara, (logo) depois, vão comprovar, numa espiral decadente, orquestrada por Jarcisley, numa narrativa sem heróis nem vencedores - quase apetece escrever só com vencidos… - só com seres humanos…
Sem avançar mais no enredo, que tem ainda mais algumas variações e surpresas, para não retirar o prazer da leitura que eu já experimentei, quero ainda adiantar que a par da história deste trio, Marcello Fontana entremeia páginas – desenhadas em estilo mais realista e sujo por Naara Nascimento – em que evoca a lenda do mártir São Jorge combinada com as crenças e religiosidade local, cuja história – a espaços, em momentos – se irá cruzar, enquanto inspiração (e protector?) com a de Jorge, dando-lhe um toque irreal e fantástico, combinando sagrado e profano, identificando cada um dos protagonistas com divindades locais, de forma bem conseguida.
Como bem conseguida está toda a narrativa gráfica, com os diálogos bem medidos contrabalançados com sequências mudas mas expressivas, que ajudam a realçar o traço fino e semi-realista de André Leal, bem apoiado numa planificação diversificada em que destaca os momentos mais fortes e no uso de manchas cinzentas que definem volumes e ambientes, e onde se distingue o bom tratamento dado à figura humana, em especial à bela Bárbara.

A reter
- Se é verdade que esta é mais uma versão do eterno triângulo amoroso, esta é uma versão forte, original e cativante, bem escrita e desenhada. Pode-se pedir mais?
- Apoiada pela Fundação Cultural Estado da Bahia e pelo governo da Bahia, entre outras instituições (Fomento à Cultura, Secretaria da Cultura, Secretaria da Fazenda) esta edição ilustra algo que há muito defendo: uma BD ambientada numa cidade real, para cativar apoios institucionais, pode – e deve – ir muito além da simples evocação da história dessa cidade. Algo que em Portugal raramente tem sido feito. Por falta de visão dos responsáveis (geralmente) autárquicos que têm subsidiado tantos álbuns nacionais ou porque a oferta não vai além dos temas históricos?



22/02/2012

Às quintas falamos de BD

Por Esta Peregrinação Acima







Amanhã, dia 23 de Fevereiro, pelas 21h00, no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, terá lugar mais uma edição de Às Quintas Falamos de BD, com o encontro Por Esta Peregrinação Acima que conta com a participação do músico e compositor Fausto, do autor de BD José Ruy, e da jornalista Ana Margarida Carvalho.
Na ocasião será exibido um poema sinfónico, uma adaptação em vídeo das pranchas do álbum Fernão Mendes Pinto e a sua Peregrinação, de José Ruy, com música de Por Este Rio Acima, de Fausto Bordalo Dias.
Na última quinta-feira do mês convidamo-lo a tomar café connosco.
Apareça, contamos consigo.



(Texto da responsabilidade da organização)


21/02/2012

Leituras Novas

Fevereiro de 2012



ASA
Corto Maltese na Sibéria
Hugo Pratt
“Quando nos apercebemos de que o sonho é demasiado grande para se concretizar, restam duas alternativas: deixar de sonhar, ou continuar até ao fim, até à lenda…
Nos confins da China e da Sibéria, Corto e Rasputine perseguem o comboio blindado que transporta o ouro dos czares. Atravessam, assim, uma região que se encontra a ferro e fogo, esquartelada entre sociedades secretas e senhores da guerra, entre Russos vermelhos e brancos, entre tropas regulares e exércitos privados…
O campo de acção ideal para estes aventureiros românticos!”

Astérix - Tudo sobre Cacofonix
Senhor de uma voz mundialmente célebre (embora nem sempre apreciada...) e professor respeitado, o bardo Cacofonix é uma figura importante da Aldeia e um dos membros do Conselho. No entanto, se é verdade que todos o conhecem, isto deve-se ao facto de ser o eterno bode expiatório dos habitantes de uma aldeia da qual é o representante mais marginal, vivendo isolado numa cabana construída no cimo de uma árvore.
Quanto à sua música, os comentários são unânimes: é um massacre para os tímpanos! O que não impede que seja considerado pelos seus amigos como um excelente companheiro, o qual libertam das garras dos leões do Circo Máximo ou vingam a sua exclusão do “Domínio dos Deuses”. Embora não cante os feitos dos guerreiros da Aldeia, Cacofonix esteve na origem de muitos deles!

Assírio & Alvim
A Tempo Inteiro
Tamaio Marin
«Tamayo Marín invocou a Morte como flâneur praticante do diálogo esgrimista para nos dizer das trevas dos nossos dias. Demonstra-o com divertida moralidade: a morte é o fim da vida ou o seu contrário? Dito de outro modo: se a morte morresse, esta nossa vida seria o seu inferno?» João Paulo Cotrim

Booktree
Garfield
FUNtástico
Viva a dieta!
Jim Davis
Álbuns com algumas das melhores tiras inéditas, com muito sentido de humor, do gato mais famoso do mundo.
As tiras de humor de Garfield centram-se no quotidiano hilariante de um gato gordo, preguiçoso, egocêntrico, cínico e comilão que adora lasanha, café e o controlo remoto da televisão, e odeia a segunda-feira. A vida de Garfield é animada pelo seu dono Jon Arbuckle, eterno sofredor, e Odie, o cão simpático mas lento de raciocínio.
Humor inteligente, espirituoso e, até por vezes, dolorosamente divertido, FUNtástico é o sétimo volume desta formidável série e Garfield-Viva a Dieta! o oitavo volume.
Garfield tornou-se um sucesso estrondoso no mundo das tiras de humor (comic strips) desde o seu princípio em 19 de Junho de 1978, ao figurar em apenas 41 jornais nos Estados Unidos.
Actualmente, Garfield é publicado em 2.570 jornais no mundo inteiro, em 26 línguas e lido diariamente por 263.000.000 de pessoas – número recorde assinalado pelo Guinness.
Com mais de 130.000.000 de livros Garfield vendidos no mundo inteiro, mais de 50 mil admiradores acedem diariamente ao seu site oficial em www.garfield.com e mais de 3 milhões juntaram-se ao famoso gato no Facebook.

Devir
Death Note #1 – Aborrecidos
Tsugumi Ohba e Takeshi Obata
Death Note é um dos melhores mangás jamais publicados, best-seller em todo o mundo.
Trata-se de uma obra original da maior editora de BD do Planeta, a Shueisha, e da sua emblemática revista Shonen Jump. O seu público vai dos adolescentes aos adultos.
Recomendadíssimo aos leitores fãs de BD, Comics, tramas policiais modernas e thrillers internacionais.
Death Note conta a história de um caderno muito especial, deixado cair no mundo dos humanos por um Shinigami, Deus da Morte. O ser humano cujo nome for escrito nesse caderno, morre! Quem o encontra é um estudante, Light Yagami, que não via significado na sua vida até que, na posse do caderno, imagina utilizá-lo para modificar o mundo.
Esta série de culto já vendeu mais de 30 milhões de volumes em todo o mundo e irá agora deliciar os leitores portugueses ao longo de 13 entusiasmantes volumes.
O caderno é uma arma, um instrumento a criar profecias.

Mutts #5 – Os nossos Mutts
Patrick McDonnell
“Trata-se de uma das poucas leis puramente benevolentes do universo: qualquer que seja a altura, existe uma tira de banda desenhada mágica, profundamente divertida e espetacularmente gratificante. Atualmente, essa banda desenhada é Mutts, de Patrick McDonnell.
Desfrutem, saboreiem, deleitem-se com Mutts.” Arthur Salm, Editor de Livros no San Diego Union-Tribune.
“Os livros que mais me tocaram foram Cristianismo Puro e Simples, de C.S. Lewis, As Flores do Mal, de Baudelaire, Em Busca do Tempo Perdido, de Proust e, claro, também Mutts. Eu sei que é uma banda desenhada, mas aprendo imenso com o Mooch e com o Earl.” Brooke Shields
 
Niepoort
Almanaque Niepoort 
O ALMANAQUE NIEPOORT é um catálogo de apresentação da imagem de contemporaneidade da marca. Esta edição foi concebida para, através dos rótulos dos vinhos, sublinhar uma identidade visual forte que funciona como um indicador de qualidade, postura criativa e inovadora. É também uma homenagem ao Douro, à natureza agreste das encostas escarpadas do rio e afluentes, aos seus vales estreitos, ao clima extremo, às condições difíceis duma produção vinícola de processos muito artesanais que tornam esta região tão particular e especial.
Este é um objecto para ser consumido visualmente; um diálogo estético entre o rótulo e o contexto, interpelando continuamente o olhar numa dinâmica interactiva entre a informação e a expressão.
Apresentado como um álbum de coleccionismo, O ALMANAQUE subdivide-se em três categorias de acordo com as características e natureza de cada grupo de vinhos:
·                     O primeiro grupo, a “Alma Niepoort”, repercute a magia da região do Douro com imagens das quintas e da adega. A relação gráfica deste grupo de vinhos refere o contexto/ambiência reporta à “origem”, às vinhas antigas, à terra, à colheita, à produção, às caves, acentuando esse “intimismo”, essa “intensidade”.
·                     Os “Projectos” no segundo grupo, de natureza mais “experimentalista” mais aberta ao ensaio, são apresentados dentro desse espírito. Nestas páginas, com aberturas múltiplas, há “ludismo”, “coisas escondidas”, jogos de luz, efeitos cromáticos, diversões expressivas para valorizar o carácter entusiasta subjacente.
·                     A excelência artística dos rótulos do último grupo, os “Fabulosos” desenhados por artistas nacionais e estrangeiros, sob convite da marca, foi sugestiva para um tratamento onde os planos são as superfícies pensadas para fazer sobressair cada um em toda a sua expressão, como uma galeria de arte, com recurso por vezes a elementos desenhados dos próprios para acentuar algum efeito cénico com significado para a “história”.

(Os textos são da responsabilidade das editoras)

20/02/2012

Edgar P. Jacobs partiu há 25 anos








Há um quarto de século, o mundo da banda desenhada recebia a notícia da partida de Edgar P. Jacobs, vítima da doença de Parkinson. O autor belga, nascido em Bruxelas a 30 de Março de 1904, era o criador de Blake e Mortimer.
Para a BD, que o tornou famoso, trouxe o dramatismo, a teatralidade e a grandiosidade da ópera que tanto admirava e onde chegou a participar como cenógrafo e barítono. A par dela, alimentou o gosto pelo desenho, o que lhe valeu um emprego na revista Bravo onde, durante a Segunda Guerra Mundial, devido ao embargo alemão às bandas desenhadas norte-americanas, teve que concluir a história de Flash Gordon que estava em publicação. Logo de seguida, criaria O Raio U (1943), primeira experiência a sério nos quadradinhos, onde eram notórias as influências daquele herói de ficção-científica criado por Alex Raymond.
Durante esse período, Jacobs pintou os cenários para uma peça teatral chamada Tintin aux Indes, durante a qual Van Melkebeke, o apresentou a Hergé, de quem se tornou próximo, e que posteriormente o convidou a colaborar na modernização das primeiras aventuras de Tintin, tendo em vista a sua edição a cores, e com quem chegou mesmo a trabalhar na criação de novas histórias.
Após o fim da guerra, desentendimentos devido à não inclusão do seu nome nos álbuns levaram-no a deixar o estúdio de Hergé e a optar por uma carreira a solo, iniciada no número inaugural da revista Tintin, a 26 de Setembro de 1946, onde assinava O Segredo do Espadão, primeira aventura da série de ficção-científica protagonizada pela dupla constituída por Francis Blake, oficial dos serviços secretos britânicos, e Philip Mortimer, cientista renomado mas também homem de acção.
Segiu-se uma versão ilustrada de A Gurra dos Mundos(1947), de H. G. Wells e, até 1970, mais sete histórias de Blake e Mortimer, traçadas numa linha clara pormenorizada e realista, que totalizariam 11 álbuns, entre os quais A Marca Amarela, considerado por muitos um álbum quase perfeito, e O Enigma da Atlântida, em que Blake e Mortimer descobrem no subsolo dos Açores os sobreviventes da Atlântida, que fizeram de Jacobs um dos mais apreciados autores franco-belgas de BD.
Quando a morte o encontrou, a 20 de Fevereiro de 1987, trabalhava no segundo tomo de As 3 Fórmulas do Professor Sato, que deixou esboçado e parcialmente desenhado.
De acordo com a sua vontade, a sua morte não implicou igual destino para Blake e Mortimer, tendo sido aquele álbum terminado por Bob de Moor, em 1990. A partir de 1996, outras equipas criativas, seguindo de perto as bases lançadas por Jacobs, deram nova vida aos seus heróis que, desde então, já viveram seis novas aventuras divididas por oito álbuns, estando previsto para Novembro deste ano o lançamento de Le Serment des cinq lords, de Yves Sente e André Juillard.


(Versão expandida do texto publicado no Jornal de Notícias de 20 de Fevereiro de 2012)
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