Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

30/09/2012

Melhores leituras

Setembro de 2012

 

Morvan, Yann e Munuera
 

Potts e Lee
  

Kirkman e Adlard

 
Piège Nuptial (Casterman)
De Metter
 

Alison Bechdel
 

Un peu de bois et d'acier (Vents d’Ouest)
Chabouté

 
Capitán América #6 - El peso de los sueños (Panini España)
Brubaker e Epting

 

29/09/2012

AmadoraBD 2012 (I)

Pré-Programa

AmadoraBD 2012 - Autobiografia
26Out-11Nov
23º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora 2012
Câmara Municipal da Amadora
 
A Festa da BD em Portugal
Entre os dias 26 de Outubro e 11 de Novembro, o Fórum Luís de Camões, na Amadora, é o ponto de encontro internacional da Banda Desenhada.
 
 
Destaques
A Autobiografia na Banda Desenhada
Exposição central dedicada às várias e fantásticas dimensões de cada autor e das suas histórias em banda desenhada.
A reflexão individual como reflexão social na BD contemporânea.
 
Spiderman
O Homem Aranha faz 50Anos e a capital da Banda Desenhada recebe mais um super-herói
e seus amigos. Uma exposição que não vai querer perder.
Co-produção: Marvel, Fundação Franco Fossati e Museo del Fumetto, dell’illustrazione
e dell’immagine animata, Milão.
 
Paulo Monteiro, Ricardo Cabral e Ana Afonso
Uma nova geração de autores portugueses, com trabalhos publicados em Portugal
e no Estrangeiro, espera por si no Fórum Luís de Camões. Apareça.
 
Cyril Pedrosa
O álbum Portugal deste autor com ascendência portuguesa foi prémio FNAC em França.
O lançamento da obra em português, com a chancela das Edições ASA/Leya terá lugar no AmadoraBD.
 
AmadoraBD Júnior
Sábados e Domingos de manhã, no Fórum Luís de Camões.
 
Oficinas
Pinturas Faciais
É só escolher a pintura que mais gostas e o resto fica por nossa conta.
Todos os produtos são adequados e anti-alérgicos.
 
Modelagem de Balões
De todos os tamanhos e feitios em forma de flores, espadas, cães, chapéus, corações…
para distribuir às crianças.
 
Cinema de Animação
Vem conhecer e experimentar os jogos ópticos e as técnicas do cinema de animação.
Vais ver como é divertido fazer um filme.
 
Música Digital
Para criar os sons dos filmes de animação.
Com recurso a um computador e aparelhos electrónicos, os mais novos podem compor a música que dará vida aos filmes.
 
Oficina de Origami
A partir de uma folha de papel podes criar as figuras que quiseres.
Vem conhecer o origami, uma arte ancestral japonesa.
 
Fórum Luís de Camões
Núcleo Central de Exposições
Rua Luís Vaz de Camões – Brandoa — T (+351) 214 948 642
Coord GPS: LAT 38°45’52.84”N / LONG 9°12’49.60”O
Seg a Qui, Dom e Feriado — 10:00h-20:00
Sex e Sab — 10:00-23:00
Autores Nacionais e Estrangeiros
Sessões de Autógrafos
Exposições
Debates e Colóquios
Feira do Livro
Novidades Editoriais
Espectáculos Musicais
Animação Infantil
 
O Festival pela Cidade
Para além do núcleo central do AmadoraBD, no Fórum Luís de Camões, existem outros espaços expositivos na Amadora e que são de acesso gratuito.
 
— Na Amadora
Maria João Worm
Prémio Nacional de Ilustração 2011
Constelations
Os dez anos da Maison des Auteurs, em Angoulême
Casa Roque Gameiro
Largo 1º de Dezembro 54 — Venteira — T (+351) 214 369 058
Seg a Sab 10:00-12:30 e 14:00-17:30 / Encerrado Dom e Feriados.
 
A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto
Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem
Av. do Brasil 52 A — Falagueira — T (+351) 214 369 057
Seg a Sex — 9:30-12:30 e 14:00-18:00 / Sab e Dom — 14:00-19:00
 
A Pintura de Vitor Mesquita
Galeria Municipal Artur Bual
Av. MFA – Edifício dos Paços do Concelho — Mina — T (+351) 214 369 059
Ter a Sex — 10:00-12:30 e 14:00-18:00 / Sab, Dom e Feriados 15:00-18:00
 
Amadora Cartoon
Recreios da Amadora
Av. Santos Matos 2 — Venteira — T (+351) 214 927 315
Ter a Dom — 14:00-17:30 / Encerrado Seg
 
— Em Lisboa
Comic-Transfer
UrbanSketches Till Laßmann e Ricardo Cabral
ORG: Goethe Institute
Campo dos Mártires da Pátria 37 — 1169-016 Lisboa — T (+ 351) 218 824 510
 
BDs Autobiográficas Francesas
Cyril Pedrosa e Mathieu Sapin
Instituto Francês em Portugal
Avenida Luís Bívar 91 — 1050-143 Lisboa — T (+ 351) 213 111 400
 
Intervenções de grafiters e artistas de BD Amadora e Lisboa
Galeria de Arte Urbana da C. M. Lisboa
 
(Texto da responsabilidade da organização)

28/09/2012

Um (bom) momento

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Após a chamada “silly season” e no sempre custoso regresso de férias – que ocorreu aqui em As Leituras do Pedro a partir da segunda semana de Setembro, tive já oportunidade de sugerir doze livros (recentes) para leitura.
Desses doze, sete são edições portuguesas, o que já é assinalável. Mas, mais ainda, esses sete livros foram editados por seis editoras nacionais diversas.
São sete propostas diferentes que têm como denominador comum o seu suporte, os quadradinhos, e que recordo já a seguir, pela ordem de aparição aqui em As Leituras do Pedro.
 
Libri Impressi
 
 
Levoir/Público
 
ASA
 
 
Devir
 
Saída de Emergência
 
Contraponto
 
Do humor e aventura de Spirou, um dos grandes heróis da BD franco-belga à ficção histórica de Murena, do western de Lance, um clássico norte-americano restaurado impecavelmente por Manuel Caldas, ou do Justiceiro, caso à parte no universo Marvel, à autobiografia de Alison Bechdel em Fun Home, da aventura medieval de O Cavaleiro de Westeros, adaptado do original de Georges R. R. Martin, ao terror – puro e psicológico - de The Walking Dead, são sete propostas para públicos diferentes – cada uma em busca do seu público. E quão importante é que o encontrem.
Por isso, hoje, não trago nenhuma leitura nova. Convido cada um dos meus leitores a (re)descobrir (pelo menos) uma delas. Ou outras das propostas que as mesmas editoras ao mesmo tempo disponibilizaram. Porque há mais para ler!
Há muitos anos ligado à BD em Portugal - sem saber se já tinha alguma vez assistido a algo assim - sei perfeitamente que se trata apenas de uma coincidência, de um (bom) momento feliz, que não é sinónimo de uma realidade editorial consistente.
Embora não deixe de ser reconfortante ver como editoras diferentes decidem apostar na BD, de forma continuada nalguns casos, aproveitando uma parceria com o jornal Público, associando-a a um dos seus best-sellers ou construindo de forma consistente um fundo de catálogo estimulante e desafiador.
Seja como for, mesmo que sendo só um momento – um bom momento – há que desfrutar dele, aproveitá-lo ao máximo, (re)descobrindo as muitas dezenas de páginas que são propostas.
Para corresponder ao investimento editorial e para que o futuro – breve? – nos possa trazer mais (bons) momentos assim.
 
 

27/09/2012

La muerte del Capitán América

 
 
 
 
 
 
 
Colecção Marvel Deluxe - Capitán América #5
Ed Brubaker e Brian Michael Bendis (argumento)
Steve Epting e Mike Perkins (desenho)
Frank D’Armata (cor)
Panini Comics (Espanha, Julho de 2011)
175 x 265 mm, 176 p, cor, cartonado
16,95 €
 
 
Resumo
Compilação dos comics Captain America vol. 5, #25 a #30 da edição original norte-americana, narra o assassinato do Capitão América, na sequência dos acontecimento do final da saga Guerra Civil, e como esse acontecimento afecta todos aqueles que de alguma forma estavam a ele ligados.
 
Desenvolvimento
Se é verdade que as maxi-sagas que recorrentemente abalam os universos da Marvel ou da DC Comics têm primeiramente um vincado intuito comercial, quer pelo impacto mediático, quer pela multiplicação de mini-séries a ela associadas que obrigam à compra de um sem número de edições, a verdade é que, após deixar assentar a poeira levantada, por vezes é possível encontrar boas histórias, especialmente nessas tais séries paralelas.
A Guerra Civil que (mais uma vez) revolucionou o universo Marvel em meados da década passada, não é excepção e o seu momento fulcral – a morte do Capitão América – é um dos casos atrás descritos.
Líder da resistência contra o registo obrigatório dos super-heróis, após um combate com o Homem de Ferro que encabeçava a facção oposta, o Capitão América é preso. Ao ser levado para julgamento, é atingido mortalmente a tiro.
Começava assim, de forma marcante, o Captain America #25, ou não fosse o seu herói titular um dos maiores (se não mesmo o maior) símbolos dos EUA nos comics. Ultrapassando as expectativas dos próprios criadores, a notícia foi então difundida por jornais, rádios e televisões por todos os Estados Unidos e mesmo no estrangeiro, transformando-se num acontecimento mediático planetário.
Deixando estes acontecimentos acessórios de lado, de volta aos quadradinhos, Ed Brubaker, autor que passou pelo Salão de BD do Porto nos anos 90, “responsável pelo assassinato”, constrói uma história consistente e bem sustentada, que, iniciada praticamente com o acontecimento de maior impacto, é desenvolvida depois num crescendo que terá, rapidamente, novo momento marcante com o surpreendente desvendar de quem (aparentemente?) matou o super-herói.
Depois, o relato adopta um tom de espionagem e policial que lhe serve para explorar a forma como as diversas pessoas e organizações receberam a notícia e qual o impacto que o acontecimento teve nelas e no “povo” norte-americano em geral, acentuado pela utilização de flashbacks cirúrgicos que ajudam a compreender acções e reacções e explicar o que o Capitão América representava, transformando esta história também numa sentida homenagem.
Tudo isto enquanto Tony Stark tenta pôr ordem na SHIELD, Nick Fury orquestra na clandestinidade, o Caveira Vermelha, auxiliado pela sua filha Pecado, se revela como o vilão por detrás da morte, Sharon Carter, a braços com perturbantes segredos, tenta recompor-se do abalo e o Falcão, por um lado, e o Soldado Invernal (Bucky Barnes), por outro, com intuitos diversos – a justiça, um, a vingança, o outro – tentam descobrir o responsável pelo assassinato.
O traço seguro, dinâmico e de grande realismo de Epting, ajuda a realçar a ambiência que Brubaker lhe imprimiu, mas revela-se igualmente apto para as cenas e confrontos em que prevalece a faceta super-heróica.
A continuação da história, que passará pela perseguição do assassino mas,também – inevitavelmente – pelo regresso do herói, em moldes a desvendar, pode ser lida em “Capitán América – El peso de los sueños”, em breve aqui no blog.
 
A reter
- A mestria narrativa demonstrada por Brubaker que faz de um acontecimento de grande impacto mas curta duração e final expectável, uma bela história negra em tom policial e de espionagem enquanto também homenageia o herói tombado.
- O traço hiper-realista de Epting.
- A bela capa do volume, correspondente à do comic-book #25.
- A edição irrepreensível da Panini espanhola, com capa dura, inclusão de capas alternativas, uma exemplar introdução de Raimón Fonseca e entrevistas com Ed Brubaker e Steve Epting, entre outros extras.
 
 

26/09/2012

Fun Home

Uma tragicomédia familiar
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Alison Bechdel
Contraponto (Portugal, Setembro de 2012)
150 x 230 mm, 240 p., pb, brochada com badanas
16,60 €
 
 
Resumo
Banda desenhada autobiográfica, Fun Home narra a relação entre a autora, Alison Bechdel, e o seu pai, revista à distância, após a morte (ou suicídio?) daquele.
 
Nota prévia
O título original – Fun Home – apesar do que possa parecer, tem menos a ver com uma casa divertida – embora o trocadilho seja propositado e o conceito esteja presente (embora deturpado) – do que com a casa funerária – Funeral Home – local de trabalho do pai da autora, onde ela e os irmãos passaram muitas horas - muitas delas divertidas. Sabê-lo é importante.
 
Desenvolvimento
Embora o modelo que preside aos textos de recensão de obras aqui em As Leituras do Pedro, não seja rígido, longe disso, até porque utilizo mais do que um, em ocasiões particulares todos eles se revelam pouco eficazes.
Tal como acontece com este Fun Home, uma vez que o resumo que abre este texto, revela-se extremamente redutor, pois despoja a obra da sua grande complexidade temática, narrativa, emocional e psicológica e deixa de fora alguns dos seus aspectos fulcrais: a não relação de Alison com o pai e a mãe; a ausência constante dos dois; as obsessões e desvios do pai; as opções sexuais de pai e filha (reveladas/descobertas poucos dias antes de ele morrer e eventual causa desse acontecimento, pelo menos aos olhos da autora); apesar de tudo, a mesma procura de si próprios e da felicidade (ou do mais próximo possível disso) empreendida por pai e filha, em coisas aparentemente díspares mas com mais pontos de contacto do que aparentemente se possa pensar…
Considerado livro do ano em 2006 pelo insuspeito New York Times, Fun Home, escrito à luz daquele acontecimento trágico, após o assumir da homossexualidade da filha e da descoberta da homossexualidade do pai, oscila entre o ajuste de contas póstumo, a homenagem, e o reconhecimento – pela primeira vez - da importância do pai na sua vida – embora inicialmente não pelas melhores razões …
Aliás, um dos pontos fortes do livro é a forma como a opinião da autora em relação ao pai aos poucos vai mudando, também fruto do trabalho de introspecção implícito ao acto criativo, que a ajuda a reavaliar factos antigos, opções e situações, agora revistas de uma perspectiva diferente.
Mostrando-se – sem nunca se exibir – ao longo de (quase) uma vida, Alison Bechdel partilha com o progenitor o protagonismo, questionando e questionando-se sobre o que realmente tiveram, sobre as suas influências, sobre a relação – distante e atípica – que viveram com a família.
Amante de uma época passada e de um estatuto social que nunca teve mas que copiou quase obsessivamente, transformando uma casa banal numa mansão de época e cultivando com os filhos uma relação distante própria de uma certa (e passada) nobreza, o pai de Alison partilhou com ela uma das suas paixões, a literatura, levando-a a ler autores que a marcaram sobremaneira – leituras que nalguns casos até intuíam o que ela só mais tarde viria a descobrir. Leituras que em diferentes momentos a ajudaram a encontrar-se, a questionar-se, a ver o mundo – e o pai - com outros olhos.
Essa relação profunda com a literatura é transportada para Fun Home, em cujas páginas se encontram muitas citações e referências a escritores como Fitzgerald, Camus, Wilde, Proust ou Joyce. Essa inserção, no entanto, surge de forma natural, como mais um instrumento narrativo e da memória, sem quebrar o ritmo de leitura – obrigatoriamente pausado pela densidade emocional do relato – convidando também a novas pausas para reflexão e assimilação do que vai sendo contado.
A narrativa de Bechdel, capaz do humor mas também da angústia, feita sem uma seguir uma linha cronológica rígida, com avanços e recuos no tempo que procuram no passado os factos que ajudam a esclarecer o presente, é de uma qualidade invulgar e o seu registo gráfico vai melhorando sensivelmente ao longo das mais de duas centenas de páginas que constituem este livro.
Que é bem mais do que aquilo que até aqui descrevi – como os seus leitores confirmarão – uma obra notável e singular, que só poderia ter a força e o impacto que possui sendo aos quadradinhos, pois nenhum outro suporte permitiria o mesmo explanar e a mesma intensidade.
 
A reter
- O olhar sóbrio de Alison Bechdel sobre o seu passado e a sua relação com o pai. Um daqueles casos em que a autobiografia é indiscutivelmente interessante e faz todo o sentido.
- A construção da obra, o seu grafismo, a interligação texto/desenho.
- A edição da Contraponto, muito bem trabalhada em termos de tradução e legendagem….
- … e o acto de coragem que ela significa, neste país chamado Portugal.
 
 

25/09/2012

Piége Nuptial

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Christian de Metter
Casterman (França, Agosto de 2012)
185 x 260 mm, 128 p., cor, brochado com badanas
18,00 €
 
 
 
Resumo
Nick, um jornalista freelancer norte-americano, em viagem pela Austrália, entre duas reportagens, descura três aspectos fundamentais para sobreviver nas suas imensas planícies:
1)      Não conduzir de noite com os faróis acesos, pois pode-se atropelar um canguru:
2)     Ao recorrer a uma garagem para reparar a viatura, não dar boleia à primeira mulher bonita que aparece e, menos ainda, não ceder aos seus encantos;
3)     Pensar bem, antes de responder a uma pergunta feita durante a noite.
 
 
Desenvolvimento
Por coincidência, os dois livros já apresentados esta semana aqui, em As Leituras do Pedro, são adaptações de obras literárias. Mais, adaptações de obras literárias contemporâneas, fugindo, assim, à habitual apetência pelos clássicos.
Depois de George R. R. Martin, ontem, hoje é a vez de Douglas Kennedy, um norte-americano nascido em 1955, autor de alguns best-sellers, entre os quais “The Dead Heart” (1988), que esteve na origem do presente livro.
Na base da trama, está o facto de Nick ter falhado os três pontos acima enumerados e, em consequência, quando procurava a liberdade e os grandes espaços, dá por si privado da sua autonomia, da sua independência e da possibilidade de circular, sozinho em Wollanup, uma pequena comunidade isolada de estrutura patriarcal e praticamente desconhecida do mundo, para onde a sua “conquista” o arrastou com o propósito de com ele casar – casar com a vítima da sua “armadilha nupcial” de que fala o título francês.
Colocado nesta situação limite e de pesadelo, após uma descida aos infernos em que quase se destruiu, Nick terá primeiro de recuperar a sua autoconfiança, depois encontrar forma de sobreviver no meio de uma comunidade hostil dominada pela força e a violência e, finalmente, agir, contando com uma inesperada ajuda.
Sem adiantar mais, para não estragar o prazer da descoberta, posso adiantar que este é um thriller psicológico que, depois de um arranque que parece banal, facilmente cativa o leitor e o arrasta para a incómoda identificação com Nick.
E que – tal como o relato de ontem – conseguiu encontrar a forma de respirar num suporte narrativo diferente. Só que enquanto “O Cavaleirode Westeros” vivia das cenas de acção e do suporte dos textos de apoio, “Piége Nuptial” assenta em diálogos curtos mas incisivos, em sequências mudas e na transmissão de emoções como o desespero e o abandono e da enorme tensão psicológica que constitui a base da segunda parte da história.
Graficamente, De Metter, tem um excelente trabalho a aguarela, com uma paleta de cores impressionante, com a qual (nos) retrata quer os vastos desertos australianos, imensos, soalheiros, quentes e poeirentos em que nos apetece embrenhar-nos, quer a penumbra dos espaços em que Nick se vê confinado, quer as muitas cenas nocturnas. Tudo com um traço algo impreciso e enquadramentos fechados em que abundam os médios e grandes planos, que reforçam o clima de tensão e de intimidação e a violência psicológica a que Nick está sujeito, sustentado longamente o suspense quanto ao seu desfecho.
 
A reter
- A ideia original de “Piége Nuptial”
- A forma conseguida como De Metter transpôs para a BD este romance de Douglas Kennedy, conseguindo transmitir a tensão e a violência física e psicológica que se avolumam na segunda parte do relato até ao desfecho, de certa forma, libertador.
- O soberbo trabalho gráfico do autor.
 
Menos conseguido
- A página final, pois a visualização da cena de imediato desfaz o efeito pretendido.
 
 

24/09/2012

O Cavaleiro de Westeros

 
 
 


 
 
 
 
Ben Avery (argumento)
Mike S. Miller (desenho)
Mike Crowell (cor)
Saída de Emergência (Portugal, Setembro de 2012)
165 x 240 mm, 196 p., cor, brochada
16,50 €
 
 
Resumo
Baseado no universo de Westeros, onde se desenrolam as Crónicas de Gelo e Fogo, escritas por George R.R. Martin, este livro aborda um período anterior em cerca de 100 anos ao do inicio do primeiro livro das crónicas, no tempo do rei Daeron, com o reino em paz e a dinastia Targaryen no auge do seu poder.
Iniciado com a morte de Sor Arlan, narra a demanda do seu escudeiro Dunk, Sor Duncan, o Alto, para se impor como cavaleiro andante.
 
Desenvolvimento
Esta é uma bela história em ambiente medieval – a sua localização em Westeros, no universo criado por George R. R. Martin não é especialmente determinante para o desenrolar da história contada, pelo menos no que a este primeiro tomo diz respeito – bem construída, e explanada e competentemente recriada no seu novo suporte narrativo, onde apresenta vida própria.
Narrada em ritmo moderado, de certo modo imposto pelo recurso recorrente a texto em off, vai introduzindo ao leitor as questões pertinentes sobre os diversos reinos e dinastias de Westeros, sem que ele quase dê por isso, enquanto aprende a conhecer o protagonista Dunk, aliás Sor Duncan, o Alto, o seu escudeiro Egg e a bela bonecreira Tanselle.
A base da história é simples: um ex-escudeiro, agora cavaleiro andante, procura a honra e a glória (e também a riqueza) nos torneios que frequentemente têm lugar.
Cavaleiro andante, reforce-se a ideia, cuja diferença fundamental, para além de combater apeado, é servir apenas causas justas e estar ao lado dos fracos e oprimidos.
Só que, naquela época, no mundo de Westeros, como nos dias de hoje, no nosso mundo, a honra, a justiça, a verdade e a lealdade nem sempre (raramente?) são os valores mais praticados, como Dunk irá descobrir à sua custa, embora também encontre as virtudes que costumam estar no lado oposto da balança: a amizade, dedicação, entrega e mesmo o amor.
Desenvolvido num crescendo, que culmina numa justa entre dois grupos de sete cavaleiros, cujo resultado determinará o futuro do jovem, falta a essa cena fulcral mais arrojo gráfico – deveria ser mais visual e menos descritiva, possivelmente – para fazer dela um momento mais marcante.
Apesar disso, no geral o traço realista e detalhado de Mike Miller (com várias passagens por alguns dos principais super-heróis da Marvel) mostra-se ajustado ao registo narrativo, não sendo difícil encontrar belos pormenores, a par de uma planificação dinâmica e diversificada que utiliza com frequência planos arrojados que ajudam a ritmar as cenas.
E se é verdade que o final (provisório) é previsível, contem os leitores com diversos desenvolvimentos surpreendentes e alguns volte-faces até ele se concretizar.
 
A reter
- A aposta inteligente da Saída de Emergência numa boa adaptação aos quadradinhos de uma obra de um dos seus autores de referência, que poderá fazer a ponte entre dois universos de leitores: os de George Martin e os de BD.
- Uma boa edição, a que talvez só faltem umas badanas na capa e contracapa para lhe dar um pouco mais de consistência.
- A curiosa inclusão de uma “pré-visualização” do tomo seguinte, “A espada ajuramentada”, em que prossegue a saga de Sor Duncan e de Egg, sinal de que a editora pretende continuar a editar BD.
 
 
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