Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

31/01/2013

O Comboio das Cinco










Luís Afonso
Abysmo (Portugal, Dezembro de 2012)
120 x 170 mm, 86 p., brochado com sobrecapa
9,00 €



Resumo
Na sequência de uma discussão com a sua mulher, Madalena, Fragoso perde o controle do carro em que seguem, que acaba por se despistar.
Sofrendo apenas o susto mas ficando sem meio de locomoção, uma vez chegados à (minúscula) povoação mais próxima, descobrem que o único comboio para Lisboa parte daí a sete horas, às cinco da madrugada.

Divagação
Todos (?) nós – quando muito jovens – sonhámos viver as aventuras dos heróis que líamos nos quadradinhos, ao seu lado ou em sua substituição. Mais tarde – quando a razão já deveria prevalecer – deixámos de querer ser como eles, para querer ser como os seus autores (e a verdade é que alguns – muito poucos… - o conseguem!).
O que não é habitual é o inverso: os heróis de BD quererem ser como os seus leitores ou os seus autores.
Mas é isso que se passa neste “O Comboio das Cinco”, com Lopes, o escritor pós-moderno criado por Luís Afonso para a “Grande Reportagem” e actualmente em publicação na “Sábado” (supostamente) a assumir as despesas da escrita.

Desenvolvimento
Escrita de Luís Afonso, aliás de Lopes, o escritor pós-moderno, que se revela directa, cativante e divertida, arrastando o leitor para acompanhar as desventuras de Fragoso, perdido no meio de nenhures, sem carro nem rede telefónica.
Pelo meio, entremeando o relato principal, qual tangente em relação a uma circunferência (e isto é uma “evidência de elevado conhecimento matemático”! – desculpem, não resisti, leiam o livro que entendem…) surgem duas outras histórias: a de Manuel Joaquim, carteiro e caçador, revoltado com os concursos que prometem mundos e fundos e não (re)compensam (a) ninguém e a das desavenças entre Serafim Augusto, presidente do Santa Bárbara FC, e Serafim Augusto, presidente da Junta de Freguesia de Santa Bárbara Bendita (sim, uma e a mesma pessoa!).
Tudo tratado com o humor, a ironia e o sarcasmo expectáveis pela obra aos quadradinhos de Luís Afonso (também pai do “Bartoon” ou do “Barba e Cabelo”), e que ainda atinge directamente o incauto leitor, tomado por ignorante, tantos são os avisos constantes das páginas deste belo livrinho sobre os indicadores de “qualidade literária”, “profundidade”, “frase batida” ou de “experiência de vida” que enriquecem o texto.
Como complemento da narrativa, Luís Afonso – desta vez ele próprio, – documenta – aos quadradinhos - os sucessivos encontros entre Lopes, o escritor pós-moderno, e um produtor cinematográfico, ainda durante o processo de construção do texto, com o propósito de adequar o relato ao futuro “filme baseado no livro, que será influenciado pelo filme”!


30/01/2013

The Lone Ranger: “Hi-Yo Silver! Awaaay!”












Distinguindo-se de outros heróis de western pelo conhecido grito “Hi-Yo Silver! Awaaay!”, de incentivo ao seu cavalo branco, The Lone Ranger, celebrizado pela BD, a televisão e o cinema, estreou-se há 80 anos como… folhetim radiofónico!

Criação de Frank Striker cuja acção decorria em 1880, contava como um grupo de rangers liderado pelo capitão Dan Reed tinha sido assassinado numa emboscada pelo bando de Butch Cavendish, deixando um único sobrevivente, John, o irmão mais novo do capitão, salvo in-extremis por um índio chamado Tonto.
Uma vez restabelecido, escondendo a sua identidade sob uma mascarilha negra, John Reed, na companhia de Tonto, decide dedicar a sua vida a perseguir criminosos, a começar pelo grupo de Cavendish.


Estreado na emissora WXYZ, de Detroit, The Lone Ranger tornou-se extremamente popular, tendo-se multiplicado os artigos de merchandising nele inspirados, e, dois anos depois, saltou para o papel, sob a forma de romances populares, igualmente escritos por Striker e ilustrados por Hal Arbo. Em 1937 chegou às salas de cinema um seriado com as suas aventuras, protagonizado por Stanley Andrews e Victor Daniels. No pequeno ecrã, a estreia deu-se em 1949, tendo The Lone Ranger, interpretado por Clayton Moore, protagonizado 221 episódios até 1961.


Antes disso, em Setembro de 1938, tinha chegado a vez das histórias aos quadradinhos, simultaneamente em tira diária e prancha dominical, escritas por Striker e desenhadas por Ed Kressy que, cerca de um ano mais tarde, cederia o seu lugar a Charles Flanders (que já desenhara outro western da BD, “King of RoyalMountain”), que deixaria uma marca indelével na personagem.
As suas aventuras em BD, publicadas ininterruptamente até 1971, chegariam a Portugal nos anos 50, nas páginas do “Condor”, “Condor Popular”, “Colecção Audácia” ou Mundo de Aventuras” – com o herói rebaptizado Mascarilha, Zorro, Vingador Solitário ou Bronco Bustin, e Tonto, nalguns casos, a passar a… Zorro!
Já nos anos 70, teve mesmo dois títulos em nome próprio: “The Lone Ranger” e “Mascarilha”. A popularidade da personagem entre nós deve-se de igual modo a publicações que chegavam via Brasil, como “Globo Juvenil”, “Zorro”, “Zorro em Cores” ou “Zorro Especial”.
Agora, depois das longas-metragens “The Lone Ranger” (1956), “The Lone ranger and The City of Gold” (1958), ambas com Clayton Moore, e “The Legendo of The Lone Ranger” (1981), com Klinton Splisbury, o cavaleiro solitário vai regressar aos ecrãs pela mão da Walt Disney Pictures, estando agendada para 28 de Junho deste ano uma película dirigida por Gore Verbinsky e protagonizada por Johnny Depp, Armie Hammer e Helena Bonham Carter.

(Versão expandida do texto que publiquei no Jornal de Notícias de 30 de Janeiro de 2012)

 

29/01/2013

La vie de Mahomet

1ére partie: Les débuts d’un prophète









Hors-Série Charlie Hebdo #8H
Zineb (argumento)
Charb (desenho)
Charlie Hebdo
(França, Janeiro de 2013)
207 x 300 mm, 64 p., cor, brochado
6,00 € (8,50 € em Portugal*)


O anúncio de uma biografia desenhada de Maomé, a lançar pela Charlie Hebdo, provocou uma tempestade mediática, que extravasou do espaço original francófono, atingindo toda a Europa ocidental, Portugal incluído. 
Duma edição deste género, a par desta incontornável componente mediática, esperava-se também uma grande dose de provocação. Pelo tom satírico (mais do que) provável ou, quanto mais não fosse, pelo facto de uma obra deste cariz obviamente apresentar um retrato desenhado do profeta do Islão, o que – supostamente? – contraria os seus ensinos. Ou talvez não, segundo os autores, em mais uma prova que no Islão – tal como no catolicismo – se dá demasiada importância à tradição ao mesmo tempo que se desconhecem os ensinamentos que deveriam servir de base.
Claro que uma aposta editorial deste género, implica também um risco – impossível de calcular – pois pode resultar numa (re)acção (de algum fanático extremista) semelhante aquela que há pouco mais de um ano resultou na destruiçãoda redacção da mesma revista Charlie Hebdo.
Se tudo isto promoveu - de certeza - boas vendas, acabou de igual modo por tornar secundário o mérito artístico da obra em si.
Quando afinal, apesar de tudo isto – ou por causa de tudo isto? – os autores – Charb, na contracapa, e Zineb, no prefácio – defendem para a sua obra apenas o propósito dar a conhecer à sociedade francesa – onde o Islão tem um lugar cada vez mais representativo, dada a mescla cultural nela existente – a vida e obra do profeta Maomé que, ao contrário das de Jesus ou Moisés, é praticamente desconhecida.
Por isso, escreve Zineb, “trata-se de um livro sério, que obrigou a longos meses de pesquisa, para ilustrar o percurso de um homem, Maomé, tal e qual é descrito nas próprias fontes islâmicas. (…) Cada anedota, cada frase posta na boca de Maomé está anotada e reencaminha para referências bibliográficas cuja autenticidade nem os mais rigorosos clérigos islâmicos contestarão”.
Desta forma, desenganem-se os que esperavam rir de capa a capa ou, no mínimo, encontrar uma versão caricaturada de Maomé. O único factor que, numa primeira fase, poderá levar a isso, é o desenho caricatural, rápido e mais eficiente que agradável, de Charb, com as suas personagens feias e grotescas. Depois, com a continuação do relato, esse efeito inicial perde-se acabando por se destacar a legibilidade do traço.
Quanto à narrativa, dividida em curtos capítulos (1 a 4 páginas) auto-conclusivos, traça o percurso do futuro profeta desde o casamento dos seus pais até à tomada de consciência da sua missão, aos 40 anos. A utilização de citações na grande maioria dos balões de fala, que remetem à bibliografia (que ocupa as 3 últimas páginas do álbum), pela linguagem utilizada, quase sempre demasiado circunstancial, limita o ritmo narrativo e acaba por tornar algo penosa a leitura, apesar do contraste que o traço de Charb representa.
Esvaziando, assim as razões para a polémica? A resposta cabe aos extremistas e fanáticos…

*Nota
Encontrei esta edição à venda na semana passada, no quiosque do El Corte Inglès de Vila Nova de Gaia.


28/01/2013

Rusty Riley, 65 anos


Um rapaz, um cavalo e um cão









A 26 de Janeiro de 1948, estreava-se nos quadradinhos norte-americanos um novo pequeno herói, Rusty Riley de seu nome, que os leitores do “Mundo de Aventuras”, a publicação portuguesa que mais destaque lhe deu, recordarão certamente como Pedrito.

A estreia portuguesa da série aconteceu nesse mesmo ano, no n.º 537 do “Diabrete”, tendo o jovem órfão, igualmente rebaptizado como Pepe ou Pedro, passado de igual modo pelas páginas do “Condor”, “Colecção Águia” ou “Ciclone”, entre outras.
No original subintitulado “um rapaz, um cavalo e um cão”, narra, num tom muitas vezes neo-realista, pelo retrato duro que expressa das franjas da sociedade norte-americana, como Rusty, um adolescente de 14 anos, foge do orfanato onde estava com o seu cão Flix, indo trabalhar para um criador de cavalos, Mr. Miles, acabando mesmo por se tornar jóquei.
As suas aventuras, frequentemente de tom dramático, sempre com um lado humano, oscilam entre o desportivo e o policial, quase sempre tendo ao seu lado Patty, a filha de Miles.
Escrita por Rod Reed, esta banda desenhada destacou-se pela qualidade do traço elegante, realista, fino, expressivo e detalhado e pelo sombreado de Frank Godwyn, já conhecido como criador a solo de outra tira diária de sucesso, “Connie”, cujos destinos guiou entre 1927 e 1944.

À tira diária original, a partir de Junho do mesmo ano juntou-se uma prancha dominical, escrita por Harold Godwin, irmão de Frank que também assegurava o seu grafismo.
Distribuído pelo King Features Syndicate, “Rusty Riley” não resistiria à morte do seu desenhador, devido a um ataque cardíaco, a 5 de Agosto de 1959, concluindo a publicação em 1 de Novembro desse ano, já com as últimas pranchas desenhadas por Bob Lubbers.
Nos Estados Unidos, a Classic Comics Press anunciou para a Primavera de 2013 o primeiro volume da reedição integral de “Rusty Riley”.

(Versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 27 de Janeiro de 2013)



27/01/2013

Leituras nas Livrarias

Janeiro 2013

Os textos, quando existem, são da responsabilidade das editoras.
Algumas das edições aqui apresentadas podem ter sido editadas anteriormente,
mas só agora tomei conhecimento delas.


Associação Juvemédia
JuveBêDê #52
8.º World Press Cartoon

JuveBêDê #53
23.º AmadoraBD 2012


Chili Com Carne
O Hábito Faz O Monstro
Lucas Almeida

"Best of" das BDs de Lucas Almeida retiradas do seu fanzine O Hábito Faz O Monstro entre 2002 e 2009, e algumas inéditas feitas entre 2009 e 2012.

Love Hole
Lucas Almeida

In English
After almost two years of being serialized in LODAÇAL COMIX, and shocking some readers with it’s ego-tripping-misogyny-homophobia-hate-fueled character Josh, Afonso Ferreira's LOVE HOLE gets a disgusting treatment and is compiled into a book.
This is a Chili Com Carne and Ruru Comix co-edition, the 6th volume of Mercantologia collection, dedicated to reprinting lost material from the zine world.
Supported by Instituto Português do Desporto e Juventude


Gailivro
As Aventuras de Zé Leitão e Maria Cavalinho
O Regresso ao Castelo Violeta
Pedro Leitão

No sexto livro desta coleção de BD, pensada para os mais novos, Zé Leitão, Maria Cavalinho e Filipe Cavalinho Leitão regressam ao Castelo Violeta, cenário de A Viagem no Carro Encarnado, o livro que abre a coleção e onde Zé Leitão e Maria Cavalinho deram início às suas mirabolantes histórias.


Polvo
Morro da Favela
André Diniz

Blogues do Ano 2012 (3)







O blog As Leituras do Pedro ficou em 3.º lugar, entre 28 concorrentes, na categoria de Banda Desenhada, no concurso Blog do Ano 2012, organizado pelo blog Aventar.
O vencedor foi o Leituras de BD, do Nuno Amado que está de parabéns, não só pelo resultado, mas por ter tido a iniciativa de incentivar os blogs desta temática a inscreverem-se o que permitiu a criação de uma categoria de Banda Desenhada.
Com as limitações que se reconhecem à iniciativa – e que aceitei no momento em que fiz a minha inscrição – que apesar de tudo considero meritória, muito há a corrigir para o futuro: as principais questões, na minha óptica, são o sistema de votação que está longe de ser perfeito (e não havendo nenhum perfeito, haverá outros menos imperfeitos que o actual…) e a inexistência de qualquer controle sobre as inscrições por parte da organização, o que permitiu a ausência quase absoluta de BD entre os conteúdos de um dos cinco finalistas da categoria de Banda Desenhada e a inscrição de um outro dedicado exclusivamente ao… cinema de animação! Se para quem vota certamente já é difícil comparar um blog sobre BD (como As Leituras do Pedro ou o Leituras de BD) com outros de publicação de BD (como o excelente Margem Sul, do Pedro Brito) o que dizer de uma situação destas…
Mas como o texto já vai mais longo do que desejava, para abreviar caminho, se num concurso se entra (antes de tudo) para ganhar - e não foi isso que me aconteceu – a verdade é que os dois propósitos que anunciei no início se cumpriram: contribuí para a criação de uma categoria de BD nesta iniciativa e esta participação permitiu uma maior visibilidade ao trabalho que diariamente aqui desenvolvo, como foi visível no incremento significativo de seguidores e de visitas diárias. Para além disso, as diversas “declarações de voto” que fui recebendo ao longo deste último mês, foram o melhor de tudo, em especial uma cujo nome do autor (consagradíssimo de BD) não vou desvendar, mas que por si só valeu a minha participação.
Resta-me dar as boas vindas aqueles que aqui chegaram de novo, esperando poder encontrá-los por aqui muitas vezes e, mais uma vez, agradecer a todos que votaram em As Leituras do Pedro.
Eu continuo por aqui com propostas de boas leituras!

26/01/2013

Relvas na Mundo Fantasma

“Violeta Live e outras Vidas”

Data: 26 de Janeiro a 3 de Março
Local: Galeria Mundo Fantasma, loja 509/510, Centro Comercial Brasília, Avenida da Boavista, 267, Porto
Horário: de 2ª a sábado, das 10h às 20h: Domingos e feriados, das 15h às 19h







Fernando Relvas, autor português de BD, vai estar hoje, a partir das 17 horas na galeria Mundo Fantasma, no Porto, para apresentar o seu livro “Sangue Violeta e Outros Contos” e inaugurar uma exposição de originais.
Natural de Lisboa, onde nasceu há 58 anos, Fernando Relvas começou a destacar-se nos quadradinhos portugueses a partir de 1978, na revista Tintin, onde publicou “O Espião Acácio”, “L123” e “Cevadilha Speed”, que o revelaram como um virtuoso do desenho e, mais ainda, como um notável cronista, dotado de um humor ácido muito próprio, que transmitiu para as suas pranchas desenhadas muitas das vivências em rimo acelerado da juventude urbana e de uma certa marginalidade da década de 1980.
Com o fim daquela publicação, em 1982, Relvas transitou para as páginas do semanário “Se7e”, onde acrescentou ao seu preto e branco personalizado a utilização da cor, continuando a fazer desfilar personagens fortes e marcantes em obras como “Concerto para oito infantes e um bastardo”, “Niuiork”, “Sabina”, “O diabo à beira da piscina” ou “Nunca beijes a sombra do teu destino”, afirmando-se ao mesmo tempo como a maior esperança e a mais absoluta confirmação da BD nacional de então.
“Sangue Violeta e outros contos” – que inclui “Tax Driver” e “Sabina” – agora compilado em álbum pela El Pep, foi publicado naquele jornal a partir de 1985 e é uma das mais marcantes criações de Relvas, num grafismo de influência punk, onde é notória também uma certa anarquia argumental, pois as histórias, escritas e desenhadas ao ritmo imposto pela publicação semanal, sempre transmitiram a ideia de que a certo ponto as personagens ganhavam vida própria e escapavam ao controle do seu criador, que era obrigado a segui-las sem saber muito bem para onde o conduziam.
“Li Moonface – uma novela gráfica, originalmente publicada online” (pedranocharco), é a sua obra mais recente.
A exposição “Violeta Live e outras Vidas”, que também inclui originais de “L123” ficará patente na Mundo Fantasma, no Centro Comercial Brasília, até dia 3 de Março.

(Versão expandida do texto publicado no Jornal de Notícias de 26 de Janeiro de 2013)


25/01/2013

Le Beau Voyage







  


Zidrou (argumento)
Benoit Springer (desenho)
Dargaud
(França, 11 de Janeiro de 2013)
240 x 320 mm, 56 p., cor, cartonado
14,99 €



Resumo
Léa é animadora de programas televisivos de gosto duvidoso e leva uma vida vazia preenchida com festas, provocações e relações interesseiras ou de uma só noite.
A morte – inesperada - do pai vai obrigá-la a parar, repensar a sua vida e remexer nas recordações que fizeram dela o que é hoje, nem todas muito agradáveis.

Desenvolvimento
Apesar de todas as diferenças – claramente visíveis a vários níveis – pela forma como a narrativa é introduzida (a morte do pai) e por uma série de pontos comuns que é possível encontrar entre ambas (o pai ausente, a relação lésbica, a reinterpretação das memórias), a leitura de “Le Beau Voyage” evocou a que tinha feito há não muito tempo de “Fun Home –Uma tragicomédia familiar”.
Quero no entanto deixar claro que este livro tem vida própria e uma génese completamente autónoma. Enquanto que “Fun Home” é a autobiografia de Alison Bechdel, “Le Beau Voyage” teve como ponto de partida um desenho de uma casa a chorar, feito por uma criança que Zidrou encontrou quando era animador. 
A ambiguidade e a infelicidade do desenho inspiraram-lhe (est)a história de Léa, jovem adulta nascida para substituir o irmão que nunca conheceu, morto aos 7 anos, afogado na piscina da casa dos pais.
Com o pai, médico, sempre ausente, a quem a mãe trocou por um vendedor de aspiradores, Léa cresceu numa família desagregada, profundamente marcada pela morte do filho que nunca foi ultrapassada e detentora de um terrível segredo que asfixiou toda e qualquer capacidade de exprimir afeição, criando uma visão deformada do mundo, muito própria, onde sentimentos como o amor, a capacidade de entrega, ou a dádiva surgiram quase sempre (apenas) como moeda de troca.
O relato de Zidrou, desenvolvido em pequenos episódios auto-conclusivos e autónomos, estruturados de forma não cronológica, mas com um evidente fio condutor entre si, como quem constrói um puzzle vai-nos desvendando progressivamente a origem das marcas traumáticas que Léa carrega e que a transformaram no que é hoje. Pelo que realmente aconteceu, algumas vezes; pela forma como ela viu ou sentiu acontecer, outras.
O tom sensível e tocante da banda desenhada é acentuado pelo traço delicado de Springer, límpido, suave e despojado de pormenores para que se evidenciem os sentimentos que comandam e definem a história de Léa, narrada com a música de Bobby Lapointe como banda sonora.


24/01/2013

Comics Star Wars #1 – Clássicos #1




  



Roy Thomas, Don Glut e Archie Godwin (argumento)
Howard Chaykin, Steve leiloha, Rick Hoberg, Bill Wray, Frank Springer, Tom Palmer, Alan Kupperberg, Carmine Infantino e Terry Austin (desenho)
Planeta DeAgostini
(Portugal, 10 de Janeiro de 2013)
170 x 260 mm, 192 p., cor, cartonado
1,99 €



Antecipando a chegada às bancas portuguesas, na próxima 2.ª feira*, do segundo tomo (ao preço de 5,99 €) de um dos mais ambiciosos projectos aos quadradinhos que Portugal conheceu nas últimas décadas, justifica-se uma análise ao volume inicial da colecção Comics Star Wars.


Partindo do objecto (livro) em si é justo dizer que é uma boa edição, ao nível do papel, impressão e encadernação. Que – também por isso – merecia uma legendagem mais atenta, à qual não se pedia mais do que acompanhar a original, o que está longe de fazer, esquecendo uma equilibrada ocupação dos balões e ignorando (quase) totalmente as variações do tipo de letra para definir o rom de voz de cada um dos intervenientes.
Em termos editoriais, impunha-se a inclusão de textos de apoio que ajudassem a contextualizar a obra e situassem as diversas histórias dentro da vasta cronologia do universo Star Wars, fazendo também todo o sentido a indicação das datas originais de publicação e a inclusão d(e algum)as capas originais.
Quanto ao conteúdo em si, facilita se dividirmos este Clássicos #1 em duas partes.
Na primeira, encontramos a adaptação do primeiro filme “Star Wars” que estreou nos cinemas em 1977. Se de alguma forma pode ser considerada uma surpresa a entrega de uma adaptação cinematográfica deste género a dois nomes consagrados dos quadradinhos de super-heróis, Roy Thomas e Howard Chaykin, a verdade é que o traço deste último surge aos olhos do leitor como pouco cuidado e impreciso, com oscilações excessivas na definição dos intervenientes de prancha para prancha e pouco empenho na constituição dos cenários. Desconheço se o facto de a BD ter começado a ser editada passados apenas dois meses após a estreia cinematográfica teve um grande peso no resultado final (no que a prazos apertados diz respeito), mas a verdade é que os leitores – tal como Star Wars - mereciam – e esperavam -mais.
Em termos de argumento, Roy Thomas demonstra competência e consegue, mais do que adaptar o filme (o que geralmente significa que só quem o visionou desfruta em pleno da BD) transpor a história original para um novo suporte, mantendo fidelidade ao seu espírito e sem a descaracterizar.
Na segunda metade do livro, inicia-se a expansão do universo Star Wars através da BD, que ao longo dos anos haveria de atingir uma dimensão que, certamente, era de todo inimaginável quando estas bandas desenhadas foram criadas. Nelas, a situação de alguma forma inverte-se, pois enquanto os argumentistas parecem tactear em busca do melhor tom a adoptar pelo relato, que sofre com o aparecimento em catadupa de lugares e personagens novos de importância diversa, o traço vai melhorando – também em função da qualidade dos diversos arte-finalistas que por ela foram passando – mas em especial quando Carmine Infantino e Terry Austin assumem o desenho, elevando a qualidade gráfica da série - o que o tomo #2 virá (ou não) confirmar.
Em jeito de conclusão, pode dizer-se que este início – para o bem e para o mal – tem as marcas incontestáveis do estilo Marvel dos anos 1980. Mas esse é um “mal” necessário numa colecção deste género, de características cronológicas (embora não exaustivamente), que se propõe publicar perto de 14 mil pranchas de quadradinhos Star Wars!

Nota final
Na sequência da publicação deste texto, a Planeta DeAgostini informou-me que todos os volumes desta colecção serão distribuídos à segunda-feira. As datas indicadas no site da colecção estavam erradas e vão ser corrigidas.
Em complemento, lembro que a colecção Comics Star Wars será quinzenal até ao volume 9, passando depois a uma periodicidade semanal.



22/01/2013

El Hombre Hormiga










Primera Temporada
Tom DeFalco (argumento)
Horacio Domingues (desenho)
Panini Comics
(Espanha, Dezembro de 2012)
170 x 260 mm, 112 p., cor, cartonado
13,95 €



Resumo
Recém-viúvo, filho de um pai que nunca lhe prestou atenção e que expulsou a mãe de casa, Hank Pym é um cientista genial, cujos inventos poderão mudar o mundo, desde que se consiga encontrar a si próprio no meio dos muitos problemas e inseguranças em que vive.
Esta é a (nova) origem do Homem-Formiga, recontada em tom juvenil.

Desenvolvimento
Se há coisa que a Marvel tem sabido fazer, ao longo de décadas de existência, recorrentemente, é recontar a origem dos seus protagonistas, apresentando-os a novos leitores e/ou adaptando-os aos novos tempos que correm, completando ou complementando as situações que estiveram na sua base, fortalecendo ou renovando a sua mística.
Embora algumas vezes com equívocos, opções (no mínimo) duvidosas ou mesmo traições às suas memórias e às memórias que os leitores deles guardaram.
No entanto é reconhecido que, nalguns casos, tornavam-se imperiosas rectificações pois aquilo que era aceitável para os leitores de há 30, 40, 50 anos, é hoje pouco credível ou mesmo ridículo, pela sua ingenuidade, inverosimilhança e/ou inconsistência.
Este é, aliás, o principal problema deste “El Hombre Hormiga”, a falta de coerência na forma como Hank Pym aumenta ou reduz o seu tamanho, libertando o gás de uma das ampolas que carrega no seu cinto, sem que isso afecte aqueles que o rodeiam. A isto há que acrescentar que também os objectos que lhe estão próximos ficam imutáveis, apesar de que tudo o que traz vestido ou na mão acompanha proporcionalmente as suas mudanças de tamanho…
Mas, deixemos isto de lado – que pertence aquela zona de credulidade necessária para desfrutar de relatos fantásticos como são os de super-heróis ou os de ficção-científica – e voltemos um pouco atrás.
A história de Tom DeFalco acentua o estado depressivo de Pym (…comum a vários outros heróis da Casa das Ideias) – em oposição ao seu génio inventivo – e como isso o torna um joguete nas mãos daquele que o querem explorar. O desejo de honrar a memória da mulher – também cientista – e de alguma forma de a fazer reviver através desse trabalho, dão-lhe as forças necessárias para prosseguir com a investigação que o levará a descobrir a fórmula do gás que altera a sua estatura e também uma forma de comunicar com insectos que, melhor do que os humanos, se virão a revelar verdadeiros aliados.
A descoberta, demasiado importante e financeiramente muito valiosa, desperta a cobiça do seu empregador que desde o início planeia apoderar-se dela para seu próprio proveito, transformando Pym num fugitivo, primeiro, e num super-herói, mais tarde.
É esta a base desta adaptação aos nossos dias da origem do Homem Formiga – publicada originalmente nos EUA, na colecção Season One, renovando o Ant Man criado em 1962, pelos geniais Stan Lee e Jack Kirby, na revista “Tales To Astonish #27”, que deverá protagonizar um dos próximos filmes da Marvel, daí este “regresso ao seu passado”.
Escrita de forma competente por Tom DeFalco – apesar da explicação por dar, pelo menos até agora, das razões que levaram à morte de Maria - aqui e ali com bem conseguidos apontamentos de humor que ajudam a libertar alguma da tensão que se vai acumulando, tem por público-alvo uma faixa etária essencialmente juvenil (com o claro propósito de conquistar novos leitores), quer pelo tom da escrita, quer pelo traço solto, linear e bastante legível de Horacio Domingues, que consegue de forma satisfatória resolver ao nível gráfico, as questões relacionadas com as sucessivas alterações de tamanho (e consequentemente de escala) do protagonista.
E cujo trabalho pode ser analisado com maior pormenor no dossier que encerra o volume, onde são reproduzidas como esboço, desenhadas a lápis e passadas a tinta algumas das páginas do livro.


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