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17/07/2017

Os Ignorantes

Bebe um copo, lê uma BD
(introdução publicada na edição da colecção Novela Gráfica 2017)

“… nós procuramos ambos uma coisa difícil: uma forma de evocar a vida das pessoas, mantendo a nossa liberdade de autor…”
Emmanuel Guibert, em Os Ignorantes

Há duas características fundamentais na obra de Étienne Davodeau.
Por um lado, a forma como utiliza - como experimenta, como arrisca, como ousa - a linguagem própria da BD em géneros menos associados a este tipo de narrativa, “porque o campo da banda desenhada é vasto e não vejo razão para o limitar à ficção” [Esta e outras citações são de uma entrevista concedida ao Jornal de Notícias de 10 de Julho de 2001].
Como a reportagem, em Rural! (2001), sobre os atropelos ambientais cometidos pelo traçado surrealista de uma auto-estrada para servir os caciques locais, ou em Cher pays de notre enfance (2015), que investiga os crimes e a corrupção na subpolítica francesa desde os anos 1970.
Temas fortes, actuais, fracturantes, sensíveis porque Davodeau é (também) um autor de causas. Abordadas do seu ponto de vista: “Contar é enquadrar. Enquadrar é iludir. Iludir é mentir.” Logo, “nenhum livro é objectivo”. Por isso, o autor é também co-protagonista e portanto personagem, para que “o leitor não se esqueça que entre ele e o que lê está um individuo que organizou o todo.”
Nestes casos - como em toda a bibliografia do autor - o que mais surpreende é o modo como a sua escrita desenhada - e não há outra forma de a descrever - faz o relato fluir, natural e serenamente, e transporta o leitor para a realidade - a realidade real, desculpem o pleonasmo consciente - que está a explorar, mesmo quando a temática possa ser menos interessante para ele.

O segundo aspecto que distingue as suas obras, é a sua forte componente social e humana. Se os livros acima referidos já o reflectiam – são reportagens reais no mundo real - mesmo a sua obra ficcional ancora solidamente na nossa vida de todos os dias: La Gloired’Albert (1999), aborda a subida da extrema-direita em França; o magnífico Alguns dias com um mentiroso, centra-se na passagem para a idade adulta e na (consequente) morte dos sonhos (edição portuguesa da Mundo Fantasma, 1999); Anticyclone (2000) tem o desemprego como tema central; Aqueles que te amam (edição portuguesa da MaisBD, 2002), foca o lado mercantilista do futebol; Lule Femme Nue (2008/2010) assenta na condição da mulher…

Os Ignorantes, este livro que têm agora nas mãos, datado originalmente de 2011, reflecte os dois aspectos. Desde logo porque é um relato documental - e autobiográfico - mais uma vez narrado na primeira pessoa, e que acompanha uma iniciação cruzada em dois mundos - só aparentemente… - díspares.
O lado humano dos dois protagonistas - e já vamos falar deles - seres humanos reais e com sentimentos, perpassa por toda a narrativa e revela-se nos seus estados de espírito, nas suas emoções e dúvidas, nas suas acções e reacções. E na sua ignorância!
Porque Étienne Davodeau e Richard Leroy são dois ignorantes.
O primeiro, autor de banda desenhada - como já sabemos… - ignorava tudo sobre vinhos.
O segundo, vinicultor, ignorava tudo sobre BD.
Amigos, decidiram suprir a ignorância um do outro sobre o tema em que se sentiam à vontade - a profissão que abraçaram como sua e pela qual são apaixonados - abrindo-se mutuamente mundos novos a descobrir.
Mesmo se Étienne tem dificuldade em diferenciar os vinhos que prova, mesmo se Richard adormece quando tenta ler BD. Porque este é um mergulho, longo e profundo, em dois universos, que se revelam menos afastados do que à primeira vista poderia parecer, pois ambos se revelam igualmente sedutores nas suas características intrínsecas, são vividos solitariamente à excepção dos momentos ocasionais de partilha com os pares, potenciados pela paixão comum de um e outro pelo (seu) trabalho bem feito.
Se a escrita gráfica de Davodeau revela mais uma vez todo o seu potencial narrativo, desta vez o registo é mais ligeiro, sem perder o tom humano, com diálogos credíveis, verdadeiros e sinceros como só ele sabe, pontuados aqui com humor, ali com fúria, depois com dúvida, mais à frente com surpresa. Através deles, juntamente com o seu traço mais funcional do que plasticamente belo e uma planificação sóbria - como os protagonistas - somos iniciados naqueles dois mundos, aprendemos com as dúvidas de cada um que, em muitos casos, podem ser também as nossas.
Por isso, ao longo das páginas, perto de três centenas, que voltamos sucessivamente, quase sem dar pela passagem do tempo, vamos descobrir os segredos do vinicultor e do autor de BD. Saber da poda (literalmente!) e do desenvolvimento do argumento; das especificidades das pipas e do papel; do uso - ou não - de químicos e de questões de impressão; visitar provas de vinho e festivais de BD; contactar com outros autores e com outros produtores. E, com Davodeau, vamos degustar vinhos. E, de Leroy, vamos ouvir impressões sobre bandas desenhadas que (re)conhecemos.
No final, muitos copos bebidos, muitas páginas voltadas, ganha o leitor - apreciador de vinhos, amante de BD, ambos ou nenhum - que aprende sobre duas ocupações artesanais que impõem dedicação apaixonada - criar BD, fabricar vinho - e (re)descobre (outr)as potencialidades narrativas da banda desenhada.

Os Ignorantes
Relato de uma iniciação cruzada
Étienne Davodeau
Levoir/Público
Portugal, 14 de Julho de 2017
195 x 265 mm, 272 p., pb+cinza, capa dura
9,99 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

2 comentários:

  1. Isto estará na Fnac ou Wook à venda?

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    1. Se acontecer como nas colecções de 2015 e 2016, será vendido em livrarias, embora com um preço superior ao actual.
      Arrisco dizer que na melhor das hipóteses só para o final do ano...
      Boas leituras!

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