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05/01/2018

2017: O que eu não queria ter visto


Começo hoje aqui em As Leituras do Pedro, um balanço de 2017. E começo da pior forma. Porque, se em termos de edição nunca houve um ano como 2017 - voltarei a este tema em breve - nem tudo correu bem em Portugal no que à BD diz respeito.
Digo eu. Já de seguida.

A estagnação do Amadora BD
No tempo. Na forma.
Com belas - e importantes - exposições, é verdade. Mas tardiamente disponibilizadas.
Sem autores chamativos. Sem inovação. Sem rasgo.
Com prémios – supostamente Nacionais - atribuídos ao sabor da programação, quando deveria ser o contrário.

Edições suspensas
A continuação de muitas séries em 2017, há-de ser um dos destaques do ano, mas aqui recordo aquelas que foram suspensas - até quando?
The Walking Dead (ao fim de 14 edições e uma compilação) e Paper Girls (em edição única) são os casos mais evidentes.
Pela habituação aos protagonistas e a oportuna colagem à série TV, no primeiro caso, e pela novidade e originalidade, no segundo, eu queria ler mais. Muitos leitores queriam ler mais. Insuficientes para justificar a continuação? Eventualmente. Suficientes para ter havido uma explicação…? Acredito que sim.

BD Disney: adeus ou até breve?
O início do ano foi feito aos soluços, com as edições Disney a aparecerem nas bancas sem periodicidade nem (grande) lógica. O ciclo foi encerrado com a Comix #200.
Pouco depois, em pleno Agosto, a Goody distribuía em banca três novas revistas: Tio Patinhas, Donald e Mickey. Mudava o nome, mantinha-se o conceito editorial. Por isso - ou por outros motivos - ao fim de 11 edições (no seu conjunto) os novos títulos seriam igualmente suspensos, deixando sem leituras um dos segmentos que lê BD em Portugal.

O fim da distribuidora Urbanos
Pela confusão que trouxe à distribuição de BD, ainda não completamente reatada.
Pelo dinheiro que os editores de BD não receberam.
Pelas edições que ficaram perdidas.
Porque - na distribuição como em tudo - o monopólio nunca é a melhor solução.

A suspensão das distribuição das edições Bonelli da Mythos em Portugal
Uma das consequências do fim da Urbanos, foi o desaparecimento das bancas das edições da Mythos que há anos eram distribuídas em Portugal: Tex, J. Kendall, Zagor…
Podiam ter pouca visibilidade, podiam gerar poucos leitores, podiam vender no seu conjunto apenas umas centenas de exemplares mensais, mas eram mais uma variante na oferta de BD.
Desejo que haja uma solução em breve.

Pouca BD na Comic Com
A Comic Con nasce da BD e faz-se a partir da BD, diversificando-se depois em muitas áreas temáticas.
Em Portugal, esta arte tem pouca expressão no evento - como reflexo da sua situação no nosso país e como espelho do que acontece noutros locais em que também imperam o cinema, a TV e os videojogos.

Aos poucos as editoras e os livreiros afastaram-se. Do certame e da organização. Haverá razões (e culpas) repartidas - e todas perfeitamente justificadas, com certeza. Perdem - perderam - os que gostam de BD porque poucas edições viram - e puderam comprar - este ano na Exponor. Porque autores a mostrar-se e (bons) autores para autógrafos e conversas, houve vários…

17 comentários:

  1. Amadora, já não vou lá à uns anos...

    Edições suspensas... nada de novo "under the sun"

    BD Disney... comprei uns quantos Comix. Detestei a excessiva simplicidade das histórias - Para variar, (e possivelmente, por variar disso), gostei imenso das melhores histórias (Don Rosa)

    Urbanos..aos poucos, já recomecei a receber a coleção Salvat e concordo de toda a alma e coração; "Monopólios" raramente são benéficos.

    Adicionalmente, considero negativo o quase desaparecimento de edições do tipo FrancoBelga, excluindo os editados pela AdA e as em conjunto com o Público

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  2. O Nuno Catarino, disse-me na CCPT que a Disney iria voltar em breve. Vamos lá ver...

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  3. Anónimo5/1/18 15:46

    A devir para mim parou nos anos 90. Não compro rigorosamente nada dessa editora. Veja-se o plano de comunicação da G-Floy, a proximidade com o seu publico via redes sociais, a rapida resposta às nossas questões, o trato pessoal que tem fazendo de nós clientes, sentirmo-nos unicos e a variedade de comics mainstream que lançam em cada mes criando novamente o habito de compra. A esta junta-se obviamente a Levoir e tantas outras. Cometi o erro de comprar recentemente o Paper Girls, por impulso, apesar da fraca edição e ja vi que fiquei a arder. Resta-me a versão original deluxe... abc
    Diogo

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    1. A parar teria de ser na primeira década do século XXI pois eles só apareceram em 2000. A Devir até é bem comunicativa com quem lhes faça perguntas, até no twitter estão ao contrário das outras editoras todas que no FB aparecem e por lá ficam. O site da Devir, em especial a parte do Manga também está constantemente actualizado. Essa parte das séries estarem suspensas estará mais relacionado com vendas que não agradaram a quem lhes licenciou as séries do que a uma suposta comunicação deficiente. Tivesse saído o Paper Girls no mesmo ano em que saiu o Saga com o autor na Comic Con também teria o mesmo hype da segunda. A arder não ficou, a edição até é bem competente comparado com o original tpb e o preço continua a ser mais baixo que esse mesmo original. Agora se o problema é não ter capa dura e levar mais uns centímetros de folha quando o quiser despachar a um preço mais baixo o da Devir diga-me algo que tenho uma biblioteca escolar para preencher e essa edição PT-PT ficava lá bem.

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  4. Na ComicCon no stand da devir disseram-me que o papergirls iria sair este ano mas claro muita coisa pode vir a mudar.
    Muito sinceramente gostava que eles nao publicassem e a g floy assumisse este titulo mas por outro lado em portugal é mau ter series deixadas a meio e além disso o paper girls que é uma serie premiada e de grande qualidade.
    Um dos problemas que a Devir tem é a falta de contacto com os clientes bem como os preços um pouco mais altos que o habitual se o paper girls continuasse a ser vendido por 10 11 euros com boa publicidade e penso que iria vender muito mais bem como o Do Inferno. Uma das chaves do sucesso hoje em dia é a comunicação com os clientes a G-Floy e a Goody tem sido exímios e ouvem muito as opiniões dos clientes o que para mim mostra vontade da parte deles e transmite confiança para quem compra.
    Já a levoir na minha opinião tem o ouro na mão (DC/Vertigo/Novelas Graficas/WildStorm) uma carrada de titulos ainda de grande qualidade para serem publicados mas continuam "distantes" nesse aspecto de comunicação.
    Já agora quanto à Levoir alguem sabem se vai haver novidades em janeiro?

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    1. A edição de "Do Inferno" foi uma excelente noticia, mas um livro tão grande e caro merecia uma melhor edição. Os leitores que à partida são o publico alvo querem boas edições e terem publicado livro em capa mole foi uma péssima ideia, quando dás quase €40 por um livro esperas que além de um bom conteúdo também o exterior seja bom, como fizeram com outras edições da colecção Biblioteca de Alice.

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    2. Shazam..isso é que não...começar num formato (trade) e depois o segundo volume mudar para um outro formato (hc) não me agrada nada. O Paper Girls não tem assim tanto para publicar ainda, há que fazer render o peixe, isto é, vender o primeiro volume, e quando eles achem que é seguro então lançar o segundo.
      Eu não acho as séries da Devir ou saída de emergência caras tendo em conta que editam a solo; estamos todos é mal habituados às edições hc da GFloy e Levoir que são editadas em co-edição em países com muitos mais clientes do que em Portugal e com jornais de tiragem nacional o que ajuda a reduzir e muito o preço final.

      Andasse a GFloy a editar sozinha em Portugal como fazia quando o Hellboy passou para eles os preços eram os mesmos (e capas duras então seriam muito mais caros; o Y: the last man da levoir é um exemplo de que tudo muda quando não se edita em co-edição com um jornal pertença de um dos maiores grupos económicos do nosso país, isto é, os dois primeiros volumes sairam com o jornal, o resto vai sair aos poucos pela Levoir a solo e o preço de cada volume vai depender da ajuda/interesse do cliente na mesma). A meu ver 2017 pode ter sido o ano do Boom mas 2018 vai ser o ano da análise dos últimos 5/6 anos de edição em Portugal ou corre-se o risco de um novo colapso como aconteceu em 2006/2007 quando Devir e outras editoras entraram no fosso que todos conhecemos.

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    3. Diogo tens razão quando dizes que se a G Floy andasse a editar sem ser em co-edição (ou a Levoir para esse efeito) e o preço praticado seria muito maior. Mas se esses "truques" funcionam porque é que outras editoras, como a Devir ou a Saída de Emergência, não tentam, na medida do possível, utiliza-los? Nem sempre será possível, mas sempre que tal fosse viável porque não? Ficaria mais barato para os leitores e claro para as editoras que venderiam mais por um preço mais atractivo. Em vez do leitor andar a pensar se pode comprar um livro de €18 ou €20 (em capa mole) tenho a certeza que seria mais fácil de comprar um por €10. Fica a dica.

      Estou contigo nesse receio de que se correr o risco de termos mais um colapso, por isso espero que as editas sigam o teu conselho.

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  5. O ano de 2017 foi realmente excepcional, e espero que se torne a regra, mas é importante também olhar para o que correu menos bem e é por isso que esta reflexão é importante porque permite a todos corrigir, assim haja vontade, os erros cometidos.

    Para mim o que salta à vista é questão da Devir. A Devir, infelizmente, não é uma editora que comunique, seja com os leitores seja com o bloggers e perde muito com isso. A (des)continuação de "The Walking Dead" é um bom exemplo dessa falta de comunicação. A ultima edição (número 14) do TWD já foi em Junho de 2016 (sem contar com a compilação), ou seja já lá vai mais de ano e meio e ainda nem um palavra aos leitores. Estamos a falar de um livro de sucesso que já leva 14 edições. Assumo que neste ponto não seja por más vendas que o "suspenderam", acho que é um livro que tem um público já fixo. Não custava nada, no facebook por exemplo, dizer algo, por exemplo, como foi sugerido no FB, por dificuldades nas negociações com a Imagem Comics. Assim não se admirem se eles por acaso voltarem a publicar e muitos leitores já tenham "migrado" para o inglês, ou que leitores como eu preferirem que os livros que eles editam sejam publicados pela G Floy por exemplo, seja pelo preço, a qualidade ou pela certeza de que a colecção irá ser completada, já para não falar pela disponibilidade em responder às nossas duvidas e preferencias.

    Boas leituras a todos.

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  6. O mercado de edição e divulgação de BD em Portugal está confuso. Se por um lado o nº de edições evidenciam uma vontade de colocar títulos no mercado, por outro parece-me haver alguma falta de critério na escolha dos títulos e autores. Dou crédito a editoras como a Polvo e a KingPin Books pelo seu esforço editorial, na maioria com qualidade, mas com ausência de título maiores (refiro-me a de autores estrangeiros). Falo de autores como Charles Burns, Chris Ware, Seth, Daniel Clowes, Joe Sacco entre muitos outros que continuam a ser olimpicamente ignorados por cá. A boa edição franco-belga-suiça-canadiana desapareceu quase por inteiro (alôô Asa - está aí alguém?...). A Devir tem lançado poucos mas bons títulos, mas o seu foco parece centrada na mangá e os preços não ajudam. Outras editoras vão colocando timidamente algumas obras e não se percebe qual o seu verdadeiro compromisso com a 9ª Arte (Bertrand Editora, Saída de Emergência, Teorema...) Saúdo a grande actividade da G-Floy, Goody, Planeta e Salvat, no entanto abusam demasiado género super-herois e similares. A Levoir que em anos anteriores colocou boas obras e edições, descurou demasiado a variedade e qualidade das edições. Esperemos que este ano a situação se inverta. E, sim as editoras têm que apostar seriamente nas redes sociais e na presença online. Para quando uma loja on-line que reúna todas as edições de BD feitas em Portugal? Seria um recurso precioso para todos os apreciadores...

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    1. Anónimo6/1/18 09:54

      Concordo e a loja online é uma ideia que não tem que forçosamente partir das editoras. Por acaso é um projecto que tenho... criar um site na internet com todos os livros já editados em Portugal e com possibilidade de encomenda. Adicionalmente, o site estaria aberto aos utilizadores para criarem coleções, adicionarem livros às wishlists e também adicionarem coleções mais antigas na base de dados com possibilidade de esses livros poderem ser adicionados às coleções de outros utilizadores. O problema é como gerir as encomendas de livros e como tornar tudo isto para pelo menos estar no breakeven já que os custos de setup e manutenção do site são elevados. No entanto, acredito que havendo algo assim, todas as editoras estariam eventualmente interessadas em aderir já que seria uma plataforma exclusiva de promoção e venda dos seus livros.

      Diogo

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. A Asa depois de ter editado em capa dura uma serie virtualmente desconhecida ("Airborne 44") com todo o aparato a que estamos habituados nas edições de BD Franco-Belga foi publicar a colecção "Valérian", colecção muito bem cotada e extremamente ansiada, numa edição em capa mole e ainda por cima com os dipticos separados e outros erros que foram muito falados na altura. Muitos leitores, como eu simplesmente não compraram. Era uma serie que merecia melhor. Esperemos que a Asa tenha aprendido com esses erros.

      Quanto a essa "acusação" à Levoir não vi em que é que este ano que passou foi diferente dos anteriores. Publicou mais uma colecção de Novelas Gráficas, com a habitual diversidade (podemos gostar mais ou menos dos títulos escolhidos, mas a diversidade está lá) e claro os habituais super-heróis (DC), mas não muito diferente do que estamos habituados.

      Quanto ao abuso nos "super-heróis e similares" faz parte do mercado. A Goody vive disso, e a G Floy tem ali um parte do seu negocio sim, mas são series "alternativas" como Saga ou Tony Chu o seu pilar e razão de sucesso. Claro que também edita super-heróis, mas mesmo nesses o que vemos são histórias diferentes do que estamos habituados, mais "alternativas" e muito menos "mainstream".

      Boas leituras

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  7. Neste momento, existe a a loja online da distribuidora Europress, que abarca um grande número das editoras que publicam BD em Portugal.

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  8. Paulo Pereira6/1/18 13:04

    Bom ano para todos. Já que falamos em 2017, e se praparam as novas edições para 2018, pergunto: O jornal O Público vai ter mais edições conjuntas de bd. Se me é possivel sugerir um título, que tal Bruno Brazil. Abraços.

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  9. Anónimo6/1/18 20:28

    Para mim a grande desilusão foi a ASA não ter lançado o novo volume de Murena. Depois de ter lançado o ultimo de Águias de Roma, um mês depois de ser lançado em França, espera que fizesse o mesmo com Murena...infelizmente enganei-me!

    Luís Fernandes

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  10. Concordo com praticamente tudo.
    E aproveito para dizer também que fiquei com imensa pena que a Goody não tivesse publicado mais encadernados do género de "As Melhores Histórias de Donald e Patinhas" de Don Rosa. Porque material não falta, tanto de Don Rosa como de Carl Barks. Ou será que não há público suficiente a consumir essas obras?

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